Todos os anos, o período entre o fim da colheita no Brasil e o início da florada traz algumas respostas e muitas incertezas. Mas, neste ano, essa época ganha peso decisivo para um mercado que parece estar mudando substancialmente.
Com a chegada dos cafés aos armazéns e o início do processo de beneficiamento, o número real da última colheita começa a aparecer. Além disso, o período de florada começa e as condições climáticas são decisivas para a próxima safra.
Porém, nos próximos cem dias, três eventos importantes podem moldar a estrutura do mercado de café nos anos seguintes. O primeiro é a consolidação de um El Ninõ, que dá sinais de ser extremamente forte. Além disso, há eleições nos dois maiores países consumidores, e o resultado delas irá determinar o rumo da economia e das políticas públicas do Brasil e dos Estados Unidos. Por último, temos o início da colheita na Colômbia, afetada por um terremoto no coração do eixo produtor de café e por incêndios de grandes proporções no departamento de Tolima, terceiro maior produtor do grão do país.
De todos estes eventos, sem dúvida, o fator climático é o que tem o maior potencial de impacto na cadeia mundial de café. Antes mesmo do pico do El Niño, que deverá ocorrer entre o fim da primavera e meados do verão, já se vem notando um padrão climático atípico nas regiões produtoras. Setembro já é o mais chuvoso da história em algumas regiões do estado de São Paulo, e a umidade combinada com temperaturas mais frias do que o normal durante o período de florada podem impactar a colheita do ano que vem.
Mas o fenômeno El Niño já está ocorrendo – as águas e a atmosfera sobre o oceano Pacífico estão mais quentes do que o normal. A única discussão que persiste é quanto à intensidade do fenômeno, que já demonstra ultrapassar a média histórica e cujos sinais indicam que poderá ser o mais forte da história.
O El Ninõ afeta diretamente os quatro maiores produtores de café: Brasil, Vietnã, Colômbia e Indonésia, que, juntos, respondem por mais de dois terços da produção mundial. No Brasil, o impacto do El Niño é incerto, pois ele traz seca para a região Norte e chuvas acima da média à região Sul. O Sudeste, maior produtor do grão, costuma ter chuvas irregulares e temperaturas acima da média.
Nos outros três grandes produtores, porém, o fenômeno implica em seca e temperaturas acima da média. Como o maior impacto do El Niño costuma ser entre outubro e fevereiro, ele afeta a florada e a granação das plantas em todos os países mencionados. Neste ano, o fenômeno chega em um momento de estoques considerados os mais baixos do século e com crescimento ainda tímido da demanda.
No campo político, o Brasil passará por eleições legislativas e executivas que podem alterar o equilíbrio político regional e federal. Além disso, um terço do congresso norte-americano será renovado. Nos dois países, as projeções apontam para eleições apertadas, com os atuais chefes executivos enfrentando baixa popularidade e com chances consideráveis de chegarem enfraquecidos em 2027.
Apesar das tensões comerciais, o café foi poupado dos sobressaltos na relação entre as duas maiores economias americanas. Dada a importância da cadeia para ambos, o café deve continuar a salvo no próximo ano, embora a continuidade ou não das decisões econômicas irá afetar o poder de compra e o consumo nos dois países, e, ainda, a produção brasileira, com o produtor enfrentando juros altos para financiar a próxima safra.
Em minha última coluna, abordei a imensa lista de desafios enfrentados por produtores colombianos na safra atual. Há um mês e meio, seria praticamente impensável supor que a situação no país pudesse se agravar tanto. Desde então a Colômbia enfrentou um dos piores terremotos de sua história recente, com epicentro no departamento de Santander. Além de perdas humanas, o terremoto afetou a estrutura utilizada pelos agricultores e, também, o porto de Buenaventura, principal terminal exportador. O real impacto no andamento da colheita e das exportações só será, de fato, conhecido quando a coleta dos grãos estiver em andamento.
Desde o final dos anos 1980 e da extinção das cotas de produção, houve algumas mudanças na cafeicultura, mas o contexto geral pareceu ter sido pouco alterado. De lá para cá, não tivemos grandes modificações entre os maiores produtores e compradores de café, os estoques se mantiveram quase que invariavelmente altos e os preços, quase sempre baixos para a maioria dos produtores.
Porém, as mudanças no mercado do café nos últimos anos têm dado, cada vez mais, sinais de que uma grande transformação está em curso. Elas não se parecem mais com as novidades dos anos 1990 e 2000, que foram importantes mas que não mudaram a estrutura do setor. Provavelmente, o que está em curso é uma mudança de paradigma, que ocorre em décadas e altera toda a organização da cadeia. Em cem dias, estaremos diante de um novo futuro?
Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.