A tempestade perfeita

Gustavo Paiva analisa como clima, política e economia podem pressionar a cafeicultura do Peru e da Colômbia

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Por Gustavo Paiva

Nos últimos meses, vem se desenhando na América Latina uma tempestade perfeita, resultado da combinação de fatores climáticos, políticos e econômicos. Colômbia e Peru tendem a enfrentar tempos bastante complicados para a produção de café.

Ocorre que as suspeitas de formação de El Niño se confirmaram, resultando em chuvas mais escassas e temperaturas mais altas para todas as zonas cafeeiras do continente, mas com condições um pouco mais brandas para o Brasil.

Além disso, fatores políticos e macroeconômicos tendem a influenciar negativamente e de modo direto os cafeicultores latino-americanos, em especial os de Colômbia e do Peru. Em ambos, eleições foram realizadas recentemente e o resultado foi claro ao mostrar países divididos.

No Peru, a moeda Peruana, o sol, vem se valorizando há anos. Em um país que chegou a impressionantes dez presidentes em quase dez anos, o chefe do Banco Central, Julio Velarde, conseguiu a façanha de ser mantido por todos eles. No campo político, o país está extremamente polarizado, já que a candidata Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, conseguiu se eleger depois de quatro derrotas em eleições presidenciais. A vitória veio com uma margem de 0,26% ou 50 mil votos. Favorita do mercado por sua postura neoliberal, é provável que ela implemente políticas de privatizações e que a valorização da moeda peruana continue. 

No entanto, Fujimori foi bem enfática ao dizer, durante a campanha, que a criminalidade, a produção de cultivos ilícitos e o narcotráfico seriam enfrentados com “mão dura”. No seu primeiro dia de governo, declarou estado de exceção e delegou ao exército controle da segurança de algumas zonas do país. A medida pode gerar conflitos abertos no campo e aumentar o êxodo populacional de zonas rurais – que são majoritariamente contrárias a Fujimori.

Em um país com tantos presidentes em uma década, é impensável que, fora do campo econômico gerido por Velarde, alguma medida coerente e coesa tenha sido duradoura. E não foi diferente para o setor cafeeiro, que deverá continuar fora do foco das políticas públicas, já que a líder da extrema direita peruana menciona a palavra “café’’ apenas duas vezes nas 144 páginas do seu plano de governo. 

O documento menciona apenas que a prioridade do governo será o apoio ao investimento privado no setor agrícola, redução da burocracia e de impostos, sem especificar quais e como estas medidas serão tomadas. 

Na Colômbia, o roteiro é muito parecido: o candidato de extrema direita Abelardo de la Espriella derrotou o candidato de centro esquerda Ivan Cepeda por 0,95% de diferença. Além da instabilidade de um país dividido, Espriella traz algumas medidas que impactariam diretamente os produtores. Em primeiro lugar, por ser um candidato neo-liberal, apoiado por Donald Trump e com fortes inspirações em Javier Milei, Espriella era o favorito do mercado financeiro. Desde o dia da declaração de vitória, o peso colombiano valorizou em 6% o que acaba por encarecer as exportações. Além disso, o candidato promete o retorno das intervenções militares contra os narcotraficantes e guerrilhas existentes no país. Esta posição linha dura, já implementada por Alvaro Uribe no início do século, resultou em conflitos abertos em zonas cafeeiras, como Cauca, Antioquia e o Vale do Cauca, todas no sudoeste do país.

Em segundo lugar, Espriella havia demandado tomar posse em um quartel-general do exército, como um símbolo da militarização do país durante seu governo. Como teve seu pedido recusado, tomará posse em Cali, capital da região cafeeira do Vale do Cauca, epicentro da violência e da atividade paramilitar. 

Existe uma expectativa de que nos primeiros dias de governo, que começará em 7 de agosto, ele também irá declarar um regime de exceção. Durante um conflito, mesmo em outras regiões rurais que não são afetadas diretamente pela intervenção das forças armadas, a população rural tende a migrar por medo, principalmente os jovens, que abandonam suas terras e diminuem a mão de obra disponível. 

Por último, em sua proposta de programa de governo ainda como candidato, Espriella não mencionava café em suas únicas três páginas do plano de governo. Durante o segundo turno, o candidato prometeu adotar as propostas de Paloma Valencia, terceira colocada, para o setor cafeeiro. Mas ainda pairam muitas dúvidas, sobre, por exemplo, quem administra o Fondo Nacional de Café, taxa cobrada por cada saca de café exportada pelo país e usada para subsidiar a produção, como será feita a logística de exportação do sul do país que será, invariavelmente, afetada por intervenções militares e qual será a forma de trabalho com a Federação Nacional de Cafeteros.

O El Niño já está formado e tende a ser um dos maiores da história, o que prejudicará o próximo ciclo de produção do café, trazendo seca a todos os países produtores na América Central e na América do Sul. Enquanto o real brasileiro segue estabilizado em um valor relativamente baixo, o que favorece as exportações, as moedas colombiana e peruana tendem a se valorizar no curto e médio prazo, perdendo ainda mais competitividade em relação ao produto brasileiro. 

Além disso, grandes intervenções militares em zonas rurais impactam a continuidade da vida e do trabalho no campo, além de interromper fluxos logísticos. Todos estes desafios não são passageiros e tendem a deixar a cadeia produtiva e a continuidade da mão de obra no campo ainda mais fragilizadas em toda a sua estrutura de funcionamento.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

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Gustavo Magalhães Paiva

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