Hormuz e os limites da mecanização

Crise em Hormuz eleva custos de produção do café no Brasil via dólar, combustíveis e fertilizantes. Mesmo mais resilientes, produtores enfrentam queda do consumo global

Publicado em: - 2 minutos de leitura

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Em 28 de fevereiro deste ano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, lançou contra o Irã a operação batizada de “Fúria Épica”, eliminando a cúpula do governo fundamentalista local, além de mais de 6 mil civis iranianos, incluindo crianças com menos de dez anos que estavam em aula no momento dos bombardeios.

Como resposta, o Irã bombardeou bases americanas no Oriente Médio e diversos alvos israelenses, contabilizando, ao final de março, 30 vítimas israelenses e 15 norte-americanas, um total de 23 civis.  

Além disso, o Irã fechou o estreito de Hormuz, passagem marítima entre a costa iraniana – a região de Musandam –, pertencente à Omã, e a costa sul dos Emirados Árabes Unidos.

Estima-se que  passem por ali 20% do gás natural liquefeito do mundo e vinte e 25% do petróleo mundial. O fluxo provém de todos os grandes produtores com acesso ao Golfo Pérsico: Iraque, Kuwait, Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e, claro, o próprio Irã. A passagem pode ser facilmente controlada pelos iranianos, pois, além do acesso geográfico, o regime dos aiatolás tem ampla superioridade militar na região.

Para efeitos de comparação, o estreito de Hormuz varia de 39 a 97 km de largura. Em certos pontos, o estreito chega a ter uma amplitude menor do que a do rio Amazonas, sendo, portanto, uma porção d’água relativamente simples de policiar ou controlar por navios militares. 

O conflito tem três implicações diretas para os cafeicultores brasileiros, que, apesar de geograficamente distantes, estão profundamente conectados aos possíveis desdobramentos do conflito.

Primeiro, e de modo mais imediato, estão a alta do dólar e o aumento dos preços dos combustíveis. Atualmente, Brasil e Irã integram o topo do ranking de maiores produtores e refinadores de petróleo do mundo. Porém, o Brasil ainda não atingiu a autossuficiência do refino e, portanto, é dependente da importação de óleo diesel e de outros produtos provenientes do refino do óleo.  

Além disso, a alta no diesel em um período imediatamente anterior ao início da colheita obriga cafeicultores a refazerem cálculos e estimativas de custos para a próxima safra.

Segundo, o Brasil é ainda mais vulnerável ao preço do gás natural, já que não dispõe de reservas suficientes. Além de ser um insumo vital para o consumo nos lares, a indústria brasileira também depende dele para continuar a operar. 

Além disso, a produção de fertilizantes é estritamente ligada ao preço do gás no mercado internacional, e, como a cafeicultura depende da importação de fertilizantes, principalmente dos químicos provenientes da Rússia e da Ucrânia, a pressão do dólar e o cenário geopolítico também impactam fortemente o custo desses insumos.

Por último, a inflação, a queda da produção industrial e do consumo, não são exclusividades brasileiras, já que o mercado do gás e do óleo já vinha pressionado pela guerra no Leste Europeu e as instabilidades na produção da Rússia, líder mundial na produção de fertilizantes, gás e petróleo. Para o consumidor final nos principais países consumidores de café como Estados Unidos, Europa e até mesmo Japão, a inflação já estava alta para os padrões locais.

Em momentos como este, a produção de países com baixa mecanização, baixo uso de fertilizantes, frequentemente apontados como ineficientes, podem acabar tendo mais resiliência às altas no custo de produção, mas serão, invariavelmente, afetados pela queda no consumo e pela inflação nos países consumidores.

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Material escrito por:

Gustavo Magalhães Paiva

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