A improvável primeira vítima do Super El Niño

Com impactos incertos, fenômeno já afeta um território inusitado: o Havaí. Apesar da pouca relevância do arquipélago no cenário do café, Gustavo Paiva explica por que ele serve de exemplo para um contexto maior

Publicado em: - 3 minutos de leitura

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Por Gustavo Magalhães Paiva

Já há muito tempo, não é segredo para ninguém que o El Niño está ativo em intensidade muito alta e, provavelmente, será o mais forte da história. Por mais que ainda seja cedo para estabelecer uma relação causal direta com o fenômeno, parece que os dois principais oceanos do planeta já estão em território desconhecido, com muitas ocorrências climáticas excepcionais desde a confirmação do fenômeno. 

Para citar apenas o Brasil, tivemos vendavais e tornados no Paraná, o setembro mais chuvoso da história em São Paulo e temperaturas significativamente abaixo da média para o período em Minas Gerais.

E a questão que vai pautar o mercado nos próximos meses é o tamanho do impacto desta singularidade climática na vida dos produtores e como ela afetará o custo de vida dos consumidores. 

Pelo menos, entre todos os territórios produtores de café, já temos uma vítima clara e inesperada: o Havaí. Por mais que o arquipélago seja absolutamente irrelevante em termos de consumo, não é o caso quando analisamos a localização do estado norte-americano.

Isolado no meio do Pacífico Central, o Havaí tem servido de exemplo da imensa instabilidade climática que o Pacífico enfrenta neste momento. Ao final do mês de setembro, três furacões e uma tempestade tropical já haviam golpeado o pequeno território. Além disso, considerando todo o Pacífico, foram identificados 21 sistemas de tempestade, 20 tempestades tropicais e 10 furacões, dos quais sete de grande intensidade.

Se a tímida produção de café do local está comprometida, isso serve de aviso para alguns grandes produtores que iniciarão em breve suas colheitas e são diretamente influenciados pelos padrões climáticos do Oceano Pacífico: Vietnã, Colômbia, México, Peru, Indonésia, entre outros.

Enquanto isso, do outro lado do continente americano, o Oceano Atlântico também já vem apresentando um padrão climático excêntrico, mas em sentido oposto ao que ocorre no Pacífico. Pela primeira vez na história, desde que equipamentos científicos confiáveis foram instalados ao longo do oceano, nenhum furacão se formou até o início de outubro. E, segundo as previsões para as próximas semanas, nenhum furacão deve se formar. 

A cada semana, cresce a possibilidade de termos uma inédita temporada sem absolutamente nenhum furacão. Considerando que, até agora, foram apenas oito tempestades tropicais, sistemas de intensidade menor do que o furacão de categoria 1.

Se a calmaria singular do Atlântico Norte traz boas notícias aos seus moradores, no Atlântico Sul, as anomalias já podem representar prejuízos no campo e nas cidades. Alguns deles são os mencionados no Brasil, mas que também atingem outros países do Atlântico Sul, como o Uruguai, que teve o segundo inverno mais chuvoso de sua história.

Restringindo-se à produção de café brasileira, já se pode dizer que o pegamento da florada é incerto. Após a floração, houve muitas chuvas nas zonas cafeeiras e foram registradas temperaturas abaixo do ideal em vários estados. Mas o que virá pela frente é um grande mistério, pois, logo após o fim das chuvas, altas temperaturas já foram registradas nas zonas produtoras. 

Em um contexto de queda de preços, estimativas colocam a última safra brasileira entre as mais altas dos últimos tempos, e várias fontes confiáveis apontam para um recorde histórico. Portanto, uma nova safra recorde pode deprimir ainda mais os valores pagos ao produtor e pressionar a classe média cafeeira tanto no Brasil quanto no exterior.

Por outro lado, um impacto profundo, causado pelo fenômeno inédito e excepcionalmente intenso, deve levar os preços a um novo patamar. Tais impactos afetariam uma ou mais colheitas no futuro, em um mercado que acredita nas grandes produções brasileiras, mas ainda não repôs o próprio estoque. Além disso, o El Niño tende a afetar toda a sociedade, atingindo o ambiente facilitador de diversos cultivos agrícolas. 

Mas a verdadeira resposta ainda demorará alguns meses para aparecer. Provavelmente, uma parte dela será dada ao final desta primavera, e o restante, no final do verão, para grande proveito dos especuladores, que nada plantam, nada produzem e quase tudo colhem. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café. 

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Gustavo Magalhães Paiva

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