A Etiópia, berço do café mundial e atualmente quinta maior produtora do grão no globo, conseguiu avançar na cafeicultura nos últimos anos, apesar de enfrentar grandes desafios internos e externos.
O país é um grande mosaico de etnias, línguas e culturas diversas. O café é cultivado em várias áreas do território, tornando-se parte crucial da identidade e até mesmo da religião local, majoritariamente cristã ortodoxa. Sendo, portanto, um dos poucos fatores que as diferentes culturas guardam em comum.
Nos últimos anos, a produção tem se mantido segura e crescente devido ao crescimento do consumo interno e à melhora no acesso dos cafeicultores a assistência técnica e insumos, mas também principalmente por uma estabilidade política e econômica que permitiu que estes fatores se desenvolvessem.
Ao longo dos últimos dois meses, porém, a frágil estabilidade tem dado sinais de esgotamento, trazendo incertezas para o país no momento em que os produtores se preparam para colher o café.
É praticamente impossível resumir em poucas palavras as raízes históricas do conflito, de suas alianças e interesses. Mas é importante mencionar que a crise mais recente, na região do Tigray, havia sido resolvida através do Acordo de Pretória em novembro de 2022, um tratado de paz entre a milícia Frente Popular de Libertação do Tigray (TPLF) e o governo etíope.
Em setembro, esse mesmo acordo foi totalmente rompido quando a milícia do Tigray lançou ofensivas e tomou as duas maiores cidades da região, fazendo alianças com outras milícias regionais como as de Oromia e Afar.
As forças paramilitares regionais buscam engajar a população contra o governo central por meio da internet, canalizando a insatisfação com a economia. A Etiópia é totalmente dependente da importação de combustíveis fósseis, e a alta dos preços internacionais trouxe consequências para a economia, gerando inflação e aumento do desemprego.
Oromia é a região vizinha à capital Adis Abeba, representando 41% da economia e cerca de um terço da população total da Etiópia. Também é o território de maior extensão do país e concentra a fatia mais ampla da produção de café, abrigando inclusive a maior cooperativa do grão no mundo em número de cafeicultores associados: mais de 520 mil membros, segundo estimativas próprias.
Afar não conta com produção de café, mas é uma região chave para o comércio exterior do país, já que faz divisa com o Djibouti, por onde passa praticamente todo o volume de exportação e importação da nação africana.
A instabilidade também provém de conflitos e interesses divergentes em relação aos países vizinhos. A Etiópia esteve em guerra com Eritreia e Somália nas últimas décadas e possui uma rivalidade histórica com Sudão e Egito. O governo de Adis Abeba também acusa os vizinhos de financiar, treinar e fornecer equipamentos às milícias rebeldes.
No caso egípicio, as animosidades se reacenderam por conta da construção de uma barragem no Nilo pelo governo etíope, o que reduziu o fluxo da água do rio para seus vizinhos.
No Sudão, por outro lado, além da disputa pela barragem, existe também uma concorrência por terras férteis e com potencial de exploração de terras raras, localizadas na fronteira entre os dois países.
Por último, mas não menos importante, a Etiópia fechou um acordo com a província rebelde da Somalilândia para recuperar o seu acesso ao mar. Em troca de reconhecimento formal de sua independência, o Estado, hoje apenas parcialmente oficializado, aceitou ceder uma porção do seu litoral para que a Etiópia pudesse construir um porto e escoar a sua produção.
Nos últimos anos, a Etiópia vem tentando transmitir a imagem de um país moderno e diverso. Uma nação que, ao mesmo tempo em que preserva suas tradições, se apresenta como ponte para uma África soberana e aberta ao mundo. Nesse contexto, o café talvez seja o maior ativo de soft power que o país pode oferecer. E talvez por isso mesmo ele tenha se desenvolvido tão bem nos últimos anos. No curto prazo, porém, o desafio de manter a unidade e a integridade de um território tão diverso pode impactar, e muito, a produção de um dos países-chave para o setor.
Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.