A Embrapa acaba de lançar o Painel Café em Números, ferramenta on-line e interativa que reúne informações oficiais sobre a cafeicultura brasileira. A plataforma permite acompanhar onde o café é produzido, como a atividade evoluiu ao longo do tempo e quais características sociais, territoriais e produtivas estão associadas a cada região.
Desenvolvido pela Embrapa Café (DF) e pela Embrapa Territorial (SP), o painel integra dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Censo Agropecuário, do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e da própria Embrapa.
“Faltava um ponto único e integrado de consulta”, afirma Daniela Maciel, analista da Embrapa Territorial responsável pelo desenvolvimento da ferramenta.
O painel reúne informações sobre arábica e canéfora, com recortes nacionais, regionais, estaduais e municipais. A série histórica de produção vai de 2014 a 2024, enquanto dados sobre estabelecimentos agrícolas e produtores são do Censo Agropecuário de 2017. A ferramenta será atualizada à medida que novos dados oficiais forem publicados.
Sete módulos
O painel está organizado em sete módulos temáticos. Eles abrangem indicadores como produção, área plantada e colhida, produtividade e valor gerado; distribuição territorial e rankings dos estados produtores; e número e perfil dos estabelecimentos, com informações sobre agricultura familiar, gênero, faixa etária e envelhecimento dos cafeicultores.
A ferramenta também apresenta mapas e períodos de menor risco climático para o cultivo e reúne a produção científica e tecnológica da Embrapa.
“O Painel Café em Números fortalece a capacidade do setor de planejar, antecipar riscos, orientar investimentos e subsidiar decisões e políticas públicas baseadas em evidências”, afirma Renata Silva, chefe de Inovação e Negócios da Embrapa Café.
Primeiro passo para plataforma nacional
O painel é o primeiro passo para a criação da Plataforma Nacional de Inteligência Territorial do Café. Ainda em fase de estruturação, a iniciativa pretende agregar dados georreferenciados, indicadores estratégicos, mapas interativos e análises diversas do setor a partir de ferramentas de IA, sensoriamento remoto e imagens de satélite.
Segundo a Embrapa, a proposta é oferecer ao mercado global um retrato baseado em evidências da cafeicultura nacional, além de orientar políticas públicas, investimentos e ampliar a competitividade no setor. A implementação em escala nacional ainda depende da formação de parcerias e da captação de recursos.
Teste da reportagem
O volume, a diversidade e o detalhamento dos dados, reunidos em uma série histórica de 2014 a 2024, permitem traçar panoramas locais e acompanhar a evolução recente da cafeicultura.
Para testar essa possibilidade, a reportagem pesquisou a produção de canéfora em Cacoal (RO), município central na produção dos robustas amazônicos. Híbrido de conilon e robusta que ganhou identidade em Rondônia, esse café constitui um fenômeno singular cujo desenvolvimento coincide com o período coberto pelo painel.
Foram comparados cinco indicadores de 2015, período de emergência dos robustas amazônicos, e de 2024, ano mais recente contemplado pela ferramenta.
Os dados dimensionam (em nível de município) a importância econômica crescente dos robustas amazônicos: em uma década, a produtividade média avançou 72,8% – enquanto a área colhida no período caiu 28% – e o valor nominal de produção saltou de R$ 40,6 milhões para R$ 339,8 milhões. Além disso, o peso do café na produção agropecuária de Cacoal aumentou 7,37 pontos percentuais.
Navegação ainda exige ajustes
No teste, o painel oferece mapas com dados claros. A plataforma também contempla várias opções de filtros e indicadores e recortes geográficos diversos, que permitem partir de um panorama nacional e chegar a informações municipais.
Em parte dos módulos, a interface parece apenas transpor para o ambiente on-line a estrutura de planilhas, sem explorar recursos de navegação e visualização próprios da web. A navegação nem sempre é intuitiva, sobretudo diante da quantidade de informações e das possibilidades de filtragem — duas qualidades que revelam o amplo patrimônio de dados oficiais do Brasil, particularmente da Embrapa – sobre sua cafeicultura. O painel também ainda não está adaptado à consulta pelo celular, e a ferramenta de tradução para o inglês não funcionou durante o teste.
Por outro lado, por trás dessa interface, houve um extenso trabalho de seleção, padronização e tratamento de bases produzidas com metodologias distintas. Segundo Daniela, as tabelas disponibilizadas por instituições como o IBGE precisaram ser reorganizadas e convertidas para formatos compatíveis com o processamento em bancos de dados antes de serem incorporadas ao painel.
Isso resultou em buscas que não encaminham o usuário às bases de origem, mas fornecem dados já processados e estruturados pela equipe da Embrapa.
A amplitude e a integração das informações são os principais méritos da ferramenta. Ajustes futuros de responsividade, organização visual e fluxos de navegação podem simplificar a consulta e ampliar o potencial desse acervo para produzir conhecimento sobre a cafeicultura brasileira.