A resiliência do robusta ao calor não é um mito: a cafeicultura brasileira demonstra isso

Em artigo exclusivo para o CaféPoint, Fábio DaMatta contesta conclusões de estudo internacional e afirma que genética, manejo e resultados obtidos no Brasil demonstram a capacidade dos robustas de produzir sob temperaturas elevadas

Publicado por: CaféPoint

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Por Fábio M. DaMatta (colaborou Guilherme Messias Duarte)

Classificar a resiliência climática do café robusta como um “mito da internet”, como fez Aaron Davis em entrevista recente à Reuters, depois da publicação de seu artigo científico sobre o tema e a difusão em veículos de comunicação, é uma generalização que precisa ser contestada. 

O estudo por ele liderado (Davis et al., 2026) tem inúmeros méritos ao apontar riscos associados à escassez de água, à expansão sem planejamento e às limitações dos modelos de previsão. Concordamos com esses alertas. Eles, contudo, não sustentam uma desqualificação ampla da capacidade dos robustas de produzir em ambientes quentes. Nesse aspecto, a realidade da cafeicultura brasileira, particularmente a de Rondônia, oferece um contraponto que não recebeu a devida atenção.

Tolerância ao calor e tolerância à seca são características distintas. Um cafeeiro pode produzir muito bem sob temperaturas relativamente elevadas quando dispõe de água e, ao mesmo tempo, ser vulnerável à falta dela. Usar essa vulnerabilidade para colocar em dúvida sua resiliência ao calor mistura duas questões diferentes e transmite ao público uma interpretação equivocada.

A realidade de Rondônia é bastante clara a esse respeito. Em várias regiões do estado, lavouras bem manejadas ultrapassam 100 sacas por hectare, mesmo sob temperaturas médias anuais superiores a 25°C. Em condições experimentais, há registros de médias superiores a 200 sacas por hectare ao longo de três colheitas. São plantas que florescem, frutificam e produzem abundantemente em ambientes quentes.

Dados medidos em uma propriedade localizada em Nova Brasilândia d’Oeste, uma das principais regiões produtoras de café robusta em Rondônia, ilustram essa realidade. Nos anos agrícolas de 2023/2024 e 2024/2025, as temperaturas médias anuais ficaram em torno de 28°C, muito acima da média histórica regional, situada entre 25 e 26 °C. 

Mesmo sob esse calor, as produtividades alcançaram 120 e 115 sacas por hectare, respectivamente (Tabela 1 abaixo). O resultado de 2023/2024 é particularmente expressivo, pois foi obtido apesar da ocorrência, em 2024, de uma seca severa para os padrões rondonienses, com praticamente quatro meses sem chuvas, entre maio e setembro.

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Tabela 1. Médias anuais das temperaturas máximas, médias e mínimas, precipitação acumulada e produtividade de lavouras de cafés robustas em Nova Brasilândia d’Oeste, Rondônia, durante quatro anos agrícolas, de junho a maio.

Ano agrícola

Temp. máxima (°C)

Temp. média (°C)

Temp. mínima (°C)

Precipitação (mm)

Produtividade (sc/ha)

2021/2022

33,5

26,1

18,6

1.965

95

2022/2023

32,9

25,6

18,9

2.602

132

2023/2024

36,8

28,1

20,4

2.145

120

2024/2025

36,5

28,0

20,7

1.693

115

Esses dados não demonstram que o calor seja inofensivo ou que temperaturas médias próximas de 28°C sejam ótimas para todos os materiais. Tampouco permitem concluir que não tenha havido perda de produtividade causada pelo calor ou pela seca. 

Demonstram, entretanto, que genótipos selecionados de Coffea canephora podem florescer, frutificar e sustentar produtividades muito elevadas nessas condições. Isso contraria a generalização de que temperaturas médias anuais superiores a 25°C seriam necessariamente deletérias à floração e à frutificação dos robustas, conforme sugeriu Davis. Uma avaliação sobre os limites térmicos da espécie precisa explicar essa realidade, em vez de formular conclusões que não a acomodam.

Ao não atribuir o devido peso a resultados como esses, Davis parece desconhecer aspectos fundamentais da cafeicultura brasileira contemporânea, especialmente os avanços obtidos na seleção de materiais genéticos e no manejo das lavouras. A questão não é desconsiderar sua contribuição científica, mas questionar a abrangência de conclusões que não refletem adequadamente a experiência de um dos maiores produtores mundiais de C. canephora.

O mesmo problema aparece na interpretação da temperatura presumivelmente ótima, próxima de 20,5°C, estimada a partir de condições asiáticas. Em experimentos conduzidos em regiões brasileiras de maior altitude, com temperaturas médias anuais em torno de 20°C, muitos clones de C. canephora apresentam crescimento vegetativo vigoroso, mas produzem muito pouco. Alguns genótipos produzem relativamente bem, porém, são minoria (Partelli et al., 2019). Para a maioria dos materiais avaliados nessas condições, portanto, temperaturas mais baixas não se traduzem em maior produtividade. Uma estimativa regional não deveria ser transformada em referência universal sem considerar a origem e a identidade dos materiais genéticos cultivados.

Essas diferenças de comportamento remetem à ampla diversidade genética de C. canephora, espécie alógama que reúne os cafés conhecidos como conilon e robusta, além de numerosos híbridos entre esses grupos. Há diferenças expressivas entre genótipos quanto à produtividade e às respostas ao calor e à seca. Embora os autores reconheçam essa variabilidade intraespecífica, não lhe atribuem o devido peso em suas conclusões. Não basta reconhecer a diversidade ao longo do artigo se, ao final dele, limitações observadas em determinados materiais e ambientes são generalizadas para toda a espécie.

Também é inadequado utilizar as condições encontradas no habitat natural africano como se elas estabelecessem os limites dos materiais atualmente cultivados. A origem florestal da espécie e sua ocorrência natural em ambientes com temperaturas médias geralmente inferiores a 25°C ajudam a compreender sua biologia, mas não encerram sua história. 

Ao longo do processo de domesticação, pesquisadores e produtores selecionaram materiais capazes de se destacar a pleno sol e sob temperaturas mais elevadas. A cafeicultura brasileira contemporânea é resultado desse processo contínuo de seleção, combinado com grandes avanços no manejo.

As generalizações sobre o sistema radicular merecem cuidado semelhante. A concentração de grande parte das raízes nas camadas superficiais não significa incapacidade de explorar camadas mais profundas do solo. Em solos com acidez corrigida e sem impedimentos físicos ao crescimento, observa-se um desenvolvimento muito profuso de raízes até a profundidade avaliada de 1,20 m (DaMatta et al., 2025). É provável que quantidades consideráveis de raízes também ocorram abaixo dessa camada. O desenvolvimento radicular depende do genótipo e, em grande medida, das condições físicas e químicas do solo, não podendo ser tratado como uma limitação fixa e uniforme de todos os robustas.

Quanto à água, o contraste entre as regiões brasileiras é especialmente esclarecedor. No Espírito Santo, principal produtor brasileiro de conilon, a produção é altamente dependente de irrigação, embora as temperaturas médias anuais nas principais regiões produtoras girem em torno de 24°C. Em Rondônia e em outros estados amazônicos nos quais o cultivo vem se expandindo, temperaturas médias anuais superiores a 27°C são compatíveis com produtividades muito elevadas.

Rondônia recebe, geralmente, entre 1.400 e 2.400 mm de chuva por ano, mas apresenta uma estação seca de aproximadamente quatro meses. Uma precipitação anual elevada não garante água em quantidade suficiente durante todas as fases do ciclo produtivo. Por isso, a irrigação continua sendo importante para assegurar altas produtividades. Sua necessidade depende da distribuição das chuvas, da capacidade do solo de armazenar água, da demanda atmosférica e da própria demanda da lavoura. Não constitui, por si só, evidência de intolerância ao calor.

Há uma premissa fisiológica elementar que precisa ser considerada nessa discussão: altas produtividades exigem suprimento de água elevado porque, para incorporar CO² pela fotossíntese, a planta inevitavelmente perde água. Os estômatos permitem simultaneamente a entrada de CO² e a saída de vapor de água. Em termos simples, a planta troca água por CO², do qual retira o carbono utilizado na formação de folhas, caules, raízes e frutos. Essa troca pode ocorrer com maior ou menor eficiência, mas não pode ser eliminada. Quanto maior a produção de biomassa e de frutos, maior tende a ser o consumo de água. Isso não é uma deficiência particular dos robustas, mas uma condição fisiológica comum às plantas terrestres.

É necessário, portanto, distinguir a demanda hídrica associada à produção do desperdício causado por uma irrigação mal dimensionada ou mal manejada. Uma lavoura muito produtiva pode utilizar mais água por hectare e, ainda assim, produzir mais café por unidade de água consumida. Avaliar apenas o volume aplicado, sem considerar a produtividade obtida, fornece uma visão incompleta da eficiência e da sustentabilidade do sistema. Evidentemente, essa eficiência deve ser conciliada com a disponibilidade hídrica da região e com a preservação dos recursos naturais.

Essa distinção é particularmente relevante no contexto das mudanças climáticas. Onde existem recursos hídricos e infraestrutura adequados, os efeitos da irregularidade das chuvas e dos períodos de seca podem ser parcialmente compensados com irrigação eficiente, armazenamento de água e manejo responsável do solo. A disponibilidade de água não é simples nem ilimitada, mas pode, em determinadas condições, ser manejada.

O aumento da temperatura é um desafio muito mais difícil de controlar no campo. Seus efeitos podem ser atenuados pela escolha de genótipos, pela arborização e pelo manejo da cultura, mas o produtor não consegue controlar a temperatura do ar em uma lavoura. Por isso, a capacidade de materiais selecionados produzirem sob temperaturas elevadas representa uma vantagem adaptativa especialmente relevante. A vulnerabilidade dos robustas à seca não elimina sua resiliência relativa ao aquecimento, principalmente porque o suprimento de água é, em muitos contextos, mais manejável do que o calor.

Essa discussão revela outra limitação na abordagem de Davis. Ao enfatizar a sustentabilidade ambiental, o autor parece relegar a segundo plano uma de suas dimensões essenciais: a sustentabilidade econômica e social do produtor. Sustentabilidade não se resume a reduzir o uso de água, fertilizantes ou outros insumos. Para que uma atividade agrícola seja verdadeiramente sustentável, ela também precisa gerar renda, remunerar o trabalho e permitir que o produtor permaneça no campo com condições dignas de vida.

Essa questão é particularmente importante para os pequenos produtores, que constituem parte expressiva da cafeicultura de C. canephora. Eles não cultivam café apenas para conservar recursos naturais, embora essa conservação seja indispensável. Cultivam-no para sustentar suas famílias. Sem produtividade e renda, não há permanência no campo, capacidade de investimento ou adoção duradoura de práticas ambientalmente responsáveis. Uma proposta de sustentabilidade que não incorpore a viabilidade econômica do sistema corre o risco de ser ambientalmente desejável no discurso, mas socialmente inviável na prática.

Os alertas apresentados no estudo permanecem pertinentes. A expansão da cafeicultura deve estar vinculada ao planejamento hídrico, à conservação do solo, ao armazenamento de água e à irrigação eficiente. A busca por produtividade não justifica o desperdício nem o uso de água acima da capacidade das bacias hidrográficas. Da mesma forma, nenhuma tolerância ao calor torna uma lavoura independente desses cuidados. Mas reconhecer tais exigências não autoriza descartar a contribuição dos robustas à adaptação da cafeicultura, nem ignorar que produtividade e renda também integram o conceito de sustentabilidade.

O robusta não oferece uma garantia universal contra as mudanças climáticas. Nenhuma espécie cultivada oferece. Materiais selecionados, contudo, já demonstram capacidade de sustentar produtividades muito elevadas em ambientes quentes. A dimensão dessa contribuição dependerá do genótipo, do ambiente e do manejo, inclusive da disponibilidade sustentável de água.

Questionar promessas exageradas é necessário. Generalizar as vulnerabilidades da espécie, sem dar o devido peso à diversidade genética, aos avanços do manejo e à realidade da cafeicultura brasileira, também é um exagero. A resiliência dos robustas ao calor tem limites e condições. Tratá-la como um mito não esclarece o debate: obscurece uma capacidade demonstrada nas lavouras brasileiras, que o estudo liderado por Aaron Davis não considera com o devido peso em suas conclusões.

Fábio M. DaMatta é Professor Titular de fisiologia vegetal na Universidade Federal de Viçosa (MG). fdamatta@ufv.br

Guilherme Messias Duarte é consultor agronômico e proprietário da GT Agro Pesquisa e Consultoria

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