O caso do café conilon do Brasil
A estratégia pode ser entendida como a busca por uma vantagem competitiva. O maior erro do marketing é acreditar que basta ter o melhor produto. O café arábica é superior ao robusta/conilon, mas é esse último tipo de café que provocou a maior mudança no cenário mundial do café. Por Lucio G. Caldeira
Publicado em: - 5 minutos de leitura
O café conilon é um café robusta e possui características distintas dos cafés arábicas. São adaptados a temperaturas mais altas (entre 22 e 26 graus celsius) e podem ser cultivados em altitudes menores (abaixo de 500 metros de altitude). São mais produtivos (quase o dobro em relação aos arábicas) e mais resistentes a pragas e doenças. Exigem bem menos cuidados e por tudo isso possuem custos menores. Possuem o dobro de cafeína e por possuírem mais sólidos solúveis são mais utilizados na fabricação de cafés solúveis. A qualidade da bebida é inferior aos arábicas.
De certo modo, os cafés da espécie conilon (robustas) são concorrentes dos cafés arábicas. Conforme descrito no artigo A vantagem competitiva dos robustas, esse tipo de café tem ganho participação relativa no mercado de café. Isso ocorre em função da evolução do mercado de cafés solúveis, que utilizam mais cafés robustas e também em função de um ganho de participação de robustas/conilon nos blends dos torrefadores internacionais e nacionais. Para entendermos melhor esse aspecto vamos a alguns fatos.
Primeiro. De acordo com a Conab, os custos de produção de cafés arábicas são bem superiores aos custos de produção de conilon. Na safra 2011/`12, o custo da saca de um café arábica em Guaxupé ficou em 320 reais a saca de 60 quilos. (com produtividade de 30 sacas por hectare). No caso do conilon, a saca de 60 quilos na mesma safra ficou em 196 reais, com produtividade de 55 sacas por hectare (Pinheiros – ES). Nesse aspecto, percebemos que as diferentes espécies possuem características bem distintas, tanto em termos produtivos quanto em termos de custos.
Segundo. Os cafés da espécie conilon são de certo modo “protegidos” no mercado interno. Com a proibição de importação de café (não estou defendendo a importação), os cafés conilon são mais caros que os “primos” robustas africanos e asiáticos. Essa constatação pode ser verificada no anuário do Cecafé, que utiliza dados da Esalq, IEA-SP, BMF e ICE. Os cafés conilon são mais caros que a segunda posição da bolsa de Londres, que negocia os cafés robustas.
Terceiro. Mesmo sendo mais caros em relação a outros robustas, as exportações de conilon não param de evoluir. No ano de 2000, as exportações de conilon foram de 678 mil sacas. Em 2011 exportaram 2.670 sacas (dois milhões e seiscentas e setenta mil sacas). Uma evolução de 393%. As exportações de arábicas do Brasil no mesmo período saltaram de 15.333 para 27.470 (evolução de 78%).
Quarto. O maior uso de conilon/robusta nos blends dos torrefadores reduz a demanda relativa de arábicas e o resultado é uma redução da distância de preço entre os dois tipos de café (isso no Brasil). No mercado internacional, verificou-se que os robustas conseguiram ganhar participação de mercado com preços relativamente mais baixos.
No Brasil, de acordo com os dados de preço entre um arábica tipo 6 bebida dura e um conilon tipo 6 peneira acima de 13, ocorre o inverso e a diferença de preço caiu. Entre os anos de 2009 e 2012 a diferença entre esses tipos de café era de 148 reais (média dos quatro anos); e nos primeiros meses de 2013 caiu para 59 reais. A moral da história é que quando o preço do café sobe, a tendência é uma alta maior para os robustas/conilon; e quando o preço do café cai, é natural que os preços de robustas/conilon caiam menos (isso porque o torrefador nacional precisa de conilon para baixar o custo de seu torrado e moído).
O consumo interno no Brasil é de cerca de 20 milhões de sacas ano e o conilon contribui com cerca de 10 milhões desse total. O blend médio nacional é 50 x 50. É possível que seja o país onde o percentual de robustas/conilon encontra-se mais elevado. A verdade é que o conilon/robuta veio para ficar. Competem com preços menores por possuírem custos bem mais baixos.
Em função de praticarem preços mais altos que os “primos” robustas da África e Ásia, o conilon do Brasil encontra-se em uma posição de destaque no mundo e provavelmente é a cafeicultura mais rentável do mundo. (vendem mais caros que os robustas africanos e asiáticos e provavelmente possuem custos menores que os mesmos, isso em função da eficiência do produtor brasileiro de conilon).
Por tudo isso, as regiões produtora de cafés arábicas do Brasil e do mundo precisam acordar. Conilon e robusta são concorrentes. De nada adianta produzir cafés arábicas de qualidade (mais aromáticos e saborosos) se isso não for percebido pelos consumidores. O mundo consome blend e enquanto não for feita uma propaganda / comunicação sistemática sobre o 100 % arábica em oposição ao blend, essa história vai continuar.
O maior erro do marketing é acreditar que basta ter o produto melhor. O arábica é superior ao robusta/conilon, mas é esse tipo de café que provocou a maior mudança no cenário mundial do café.
Lucio Caldeira é Mestre em Estratégia, professor de Marketing e Planejamento Estratégico do Unis-MG e escritor, tendo publicado o livro A Guerra do Café: a competitividade revelada do café arábica do Brasil.
Atua como comentarista no quadro A Palavra do especialista no programa de TV da Alterosa/SBT – Café com TV. Atualmente cursa o Doutorado em Administração da Ufla e participa do Gecom – Grupo de Estudos em Comportamento do consumidor e marketing.Também atua como consultor em Marketing pela Foco Soluções Empresariais.
Contato para palestras e para a compra do livro: (35) 9821-7777; focolc@ig.com.br
Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no CaféPoint.
Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!
Material escrito por:
Lucio Caldeira
Mestre em Estratégia, prof. de Mkt e Planejamento Estratégico do Unis-MG e escritor. Comentarista na TV da Alterosa/SBT - Café com TV. Doutorando em Administração na Ufla, participante do Gecom e consultor de Mkt pela Foco Soluções Empresariais.
Acessar todos os materiaisDeixe sua opinião!

PANCAS - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 22/07/2013
VITÓRIA - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 21/07/2013

EM 17/07/2013
Obrigado pela atenção.
Adalberto.

FUNDÃO - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 17/07/2013

EM 16/07/2013
Obrigado.
Adalberto

GARÇA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 22/05/2013
O aumento do consumo do conilon, se deve a estratégias industriais e receptividade do mercado; creio que devemos interpretar que onde se consome conilon se consome café também, cabendo aos produtores e comerciantes de arábica saberem aproveitar melhor o mercado. É sabido, que até pouco tempo certas regiões do globo consumiam o que havia de pior do arabica (incluso grande parte do publico Brasileiro), acontece que foi percebido que é bem melhor um conilon no blend do que pauleras, palhas e muitos residuos não identificados.....conclusão o mercado deu um salto evolutivo. Para não me estender demais, identifico que temos que analisar com estratégia; o produtor de conilon não é culpado por vender melhor seu produto; culpados são os componentes da cadeia que ao longo de anos foram "espertos" vendendo palhada.
Agora não é aceitavel querer o retorno ao mercado em detrimento a outros produtores. Temos que agir com estratégia, estudarmos o mercado e interpretarmos como concorrentes os paises que trabalham com mão de obra alusivas a escravatura, não tem leis ambientais ou seja trabalham sem as exigências que possuimos e ainda temos que comprovar constantemente. Mais uma vez deixo claro que temos sim excesso de produção, temos sim excesso de estoque.....e ainda sim grande parte de nossos representantes sonham em buscar medidas protecionistas, que em primeiro lugar não irão acontecer e quando acontecem parcialmente nos remetem novamente à armazenagem. Enquanto guardamos outros ocupam nosso lugar, enquanto guardamos, quebramos; e depois a culpa é do conilon?
Vamos pensar que precisamos de politicas de planejamento e informações minimas (ao menos); não somente politicas de preços minimos e politicas de armazenagem. Precisamos de informações precisas para que nossa politica seja a de preços máximos.
Desejo a todos boa semana.......e espero ramos abraçados de arabicas e conilons para que possamos enfrentar juntos os desafios que o mundo nos entrega.

MUQUI - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 22/05/2013

ITABUNA - BAHIA - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 09/05/2013
Estimular este atrito nada resolverá aos produtores de Arábica, apenas pessoas insanas ou despreparadas poderiam chegar à conclusão que a resolução dos problemas de rentabilidade do Arábica viriam de uma guerra de mercado com o Conilon.

FUNDÃO - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 09/05/2013

GUAÇUÍ - ESPÍRITO SANTO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO
EM 09/05/2013

MUQUI - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 06/05/2013
Mas, me incomoda muito quando ficam estimulando esta guerra de mercado entre conilon e arábica. Gostaria de ver o pessoal do arábica cobrando dos governos investimentos em pesquisa, como fez o nosso Incaper no Espírito Santo para o conilon, para encontrar variedades mais produtivas, mais resistentes a pragas, para reduzir o custo de produção e aumentar a produtividade das lavouras.
Quanto ao conilon no mercado, é uma realidade que os produtores de arábica terão de conviver. Lembrando que o solúvel tem sido usado para abrir mercados potencialmente grandes, principalmente na Ásia, que depois se tornam mercados para o arábica.

SÃO GABRIEL DA PALHA - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 06/05/2013
A conclusão que precisamos chegar é a seguinte: não adianta querer desmoralizar o conilon. O CONSUMIDOR, pelo bolso ou pelo paladar toma sua decisão. CONTINUO PENSANDO QUE A OPORTUNIDADE QUE TEMOS É UMA RIQUEZA. VAMOS CONTINUAR AGRADANDO NOSSO CONSUMIDOR COM NOSSAS MISTURAS.
Pode ser que mais alí adiante, os produtores de conilon consigam colocar no mercado seu produto puro, mais barato que a mistura, e o arabica vai ficar pior que está.

PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 05/05/2013

SINOP - MATO GROSSO - INDÚSTRIA DE CAFÉ
EM 03/05/2013
"A skilled and subtle coffee roaster, can transform mediocre beans into a smooth blend and very good beans into something unforgattable." - Corby Kummer, The Joy of Coffee, 1995
"Um torrador de café hábil e sutil, pode transformar grãos medíocres em um blend suave, e grãos muito bons em algo inesquecível." - Corby Kummer, A alegria do Café, 1995

RIBEIRÃO PRETO - SÃO PAULO
EM 03/05/2013
Parabéns pelo texto
abs
João Paulo