O futuro dos interesses organizados em meio aos protestos no Brasil
Após Fernando Haddad e Geraldo Alckmin voltarem atrás, é possível dizer que as manifestações no Brasil representam uma estratégia que poderia ser replicada por qualquer grupo de interesse pertencente à sociedade? Bruno Miranda discute as consequências da onda de protestos no Brasil.
Publicado em: - 4 minutos de leitura
Diante de tamanha diversidade, descrever a natureza das manifestações constitui uma tarefa hercúlea. Levará algum tempo até que um natural processo de decantação nos permita entender o que realmente está ocorrendo nas ruas do Brasil. Menos difícil será especificar os efeitos dos protestos sobre o sistema político atual. Devido ao conhecimento acumulado sobre o funcionamento das instituições brasileiras, é possível traçarmos hipóteses para o futuro. Embora não tenhamos certeza sobre os rumos dos acontecimentos, há pelo menos alguns alertas que merecem ser feitos, dado que apontam tendências contrárias ao que imagina boa parte dos manifestantes.
Entre as muitas lições tiradas dos estudos na área de economia política, duas merecem referência no atual contexto: i) políticos não são indivíduos altruístas, que trabalham unicamente para o bem comum, possuíndo interesses pessoais; ii) o fato de um grupo de indivíduos ter as mesmas preferências não implica que trabalharão para um fim comum. Da primeira, sabemos que o político profissional teme o desemprego como qualquer trabalhador. Como a campanha eleitoral custa caro, é natural que alguém a financie, e daí o peso dos lobbies sobre os legisladores. Não é segredo para ninguém que muitos grupos econômicos oferecem recursos que auxiliam os políticos a manterem o emprego, obtendo em troca apoio no Congresso para seus interesses.
Assim, determinado setor da economia pode obter legislação mais favorável caso consiga angariar a “simpatia” dos legisladores. Como a “simpatia” não é grátis, porém, desafios devem ser contornados. Um dos principais ocorre quando uma empresa pega “carona” nos gastos feitos por outras. Mais especificamente, determinado agente pode se beneficiar de uma lei que proteja o mercado sem gastar um centavo para isso desde que as suas concorrantes o façam. O resultado é que, não raramente, ações coletivas são impedidas devido à ausência de garantias de que todos cooperem. Para que todas as empresas paguem a conta do lobby, é necessário a emergência de mecanismos que ofereçam incentivos à participação e punições aos que decidirem pegar uma “carona” no esforço alheio.
Em equilíbrio, um sistema político oferece um preço médio para o lobby. Determinado grupo de agentes econômicos, ao buscar uma legislação favorável para o setor, calculará os benefícios e custos de financiamento da atividade política. Como gastos, contabilizarão não apenas o financiamento da campanha, como também os recursos necessários para estabelecer as estruturas que fundamentam a ação coletiva. Exemplos incluem uma associação ou uma cooperativa. Sempre que necessário, também buscará mitigar os riscos envolvidos em sua estratégia. Possível alternativa já é adotada por diversos setores, que financiam todos os candidatos mais competitivos nas eleições, aumentando as chances de estar com o vencedor ao fim do processo. Para o político, cujo cálculo envolve os recursos necessários para a campanha e o retorno em votos, tal arranjo é bem visto, dado que assegura a perenidade no emprego.
Ocorre, porém, que a saída de milhões de pessoas às ruas sem uma motivação única encarece o preço dessas relações. Detentores dos votos, os indivíduos pressionam os legisladores, cujo futuro no emprego depende também da popularidade do eleitorado. Em resposta aos protestos, estes podem impulsionar decisões que vão de encontro aos interesses de grupos econômicos com lobbies atuantes. Diante de tantas demandas, qualquer setor pode ser afetado. O resultado é o aumento da incerteza no relacionamento entre os políticos e tais grupos de pressão, dado que o financiamento da atividade política não garante o apoio às preferências dos lobbies em contextos de convulsão social. Nunca se sabe qual será a próxima demanda, e é provável que, em meio à diversidade de pedidos, a escolha do setor a ser afetado seja menos previsível que de costume.
Com isso, é necessário muito cuidado antes de conclusões como “já que está todo mundo protestando, a saída é sair à rua também”. No caso da agricultura, por exemplo, boa parte das agendas defendidas historicamente pelo setor se basearam em uma ação coletiva tradicional, em que a pressão sobre os legisladores se deu por meio da criação de lideranças políticas e o gasto de recursos na construção de uma agenda capaz de persuadir os legisladores. É provável que os atuais protestos, ao invés de reforçar o peso de tais práticas, estejam contribuindo para erodir parte de suas vantagens. Desconsiderar o cenário aqui exposto poderá levar a frustrações no futuro.
Material escrito por:
Bruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
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SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 19/07/2013
Obrigado pelo comentário. Acho que você toca em um ponto interessante: as instituições atuais não estão preparadas para lidar com o tipo de protesto que está ocorrendo no Brasil. O padrão sempre foi o da pressão organizada, e o uso dos mecanismos de representação para a apresentação de demandas. Agora o povo sai na rua e todo mundo resolve falar o que quer mudar, sem muita organização...
É aí que deixo uma provocação. O que aconteceria caso tentássemos transformar as grandes manifestações do mês passado em um protesto "tradicional", com liderança e organização "à moda antiga"? Suspeito que perderia muito da força, porque nas avenidas do Brasil se juntaram pessoas com agendas muito diferentes. Em outras palavras, penso que houve mais de uma manifestação dentro da manifestação.
Atenciosamente
Bruno Miranda

CHAPADA GAÚCHA - MINAS GERAIS
EM 15/07/2013
Nos primeiros dias das manifestações, Dilma aparecia sempre bastante preocupada. Nos dias seguintes, já falava em coibir manifestações e autorizou a compra de caminhões de jato d'água. Por incrível que pareça, manifestações "pacíficas" não causam os mesmos efeitos na "camorra política", como quando existe vandalismo e balas de borracha, gaz lacrimogêneo e spray de pimenta. Em outras palavras, o que parece funcionar, é infelizmente o vandalismo.
Houve a princípio um objetivo das manifestações, que foi imediatamente atendido. Entretanto, seguiu-se a falta de objetivos maduros.
Acredito que se fosse feita uma pauta de exigências (são muitas) e apresentada ao governo com o prazo de pouco tempo para seu total cumprimento, a coisa ia funcionar.
Preciso é para isso, um líder, Quem sabe você BRUNO. Pense nisso.
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 09/07/2013
Agradeço o comentário. O artigo busca justamente chamar a atenção para as consequências das manifestações para outras iniciativas buscando objetivos políticos específicos. É hora da agropecuária refletir sobre a melhor forma de fazer valer os seus interesses, escolhendo uma estratégia e um discurso adequados de acordo com o atual contexto.
Atenciosamente
Bruno Miranda

ALEGRE - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 09/07/2013
E os preços dos insumos?
E a remuneração do produtor?
E os encargos tributarios?
Ea segurança no campo?
Atenciosamente: José Giberto Vial.
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 05/07/2013
Gracias por el comentario. Muy importante tu testimonio, de un país vecino con tantas similitudes y algunas importantes diferencias. Me parece que tu comentario trata de una cuestión fundamental, que son las distorciones en la representación en las democracias de los países de nuestro continente.
La alternativa, tanto en la Argentina como en Brasil, me parece, es seguir intentando mejorar nuestros sistemas de representación, haciendo hincapié en el rol de las reglas estables del juego.
Saludos
Bruno Miranda

INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 01/07/2013
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 28/06/2013
Obrigado pela participação. Observações interessantes; sobre a questão do bem comum, há estudos interessantes mostrando que os políticos buscam equilibrar ambas as demandas: i) manutenção no cargo; ii) busca por políticas que limitem as distorções econômicas na sociedade. Claro, tudo depende do "preço" da manutenção no cargo; alguma distorção sempre haverá, dada a relação entre política e grupos de pressão que cito em meu artigo.
Atenciosamente
Bruno Miranda
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 28/06/2013
Agradeço o comentário. Um aspecto interessante das manifestações é que elas confrontam uma nova forma de protesto, em que muitos protestos se unem nas ruas, com estruturas políticas acostumadas a lidar com interesses organizadas.
No que essa convivência vai dar? É difícil saber... As evidências, porém, mostram que a política ainda não sabe muito bem como lidar com a nova realidade. Levará algum tempo até que tenhamos melhor ideia sobre o novo equilíbrio entre tais forças.
Aproveito para convidar outros leitores a participarem do debate e deixarem impressões sobre as manifestações e suas consequências.
Atenciosamente
Bruno Miranda
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 28/06/2013
Obrigado pelo comentário. Em um país com tantos desafios a serem enfrentados, será importante observar o papel das manifestações no estabelecimento de prioridades no futuro. Espera-se que o "clamor popular" não leve a medidas despreocupadas com o médio prazo.
Atenciosamente
Bruno Miranda
IBAITI - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO
EM 28/06/2013
Em suma, acho que o texto é uma bela reflexão e a principal é que temos que ter um olhar de forma crítica e madura com relação aos quais estamos elegendo, mas o problema está no tempo que vamos levar para modificar, socialmente, estes valores, em geral são doze anos que uma população alvo leva para absorver certos valores comportamentais de forma estável.
Quanto aos protestos, isto é uma "bola de neve" que está levando todo mundo de roldão e o problema está que ela saiu do controle, pois não tem lideranças definidas, visto que a internet é "acéfala" (já que não tem condição de assumir a função de um líder) e as redes sociais são a "população" (coletivo burro e manobrável), como esta "bola de neve" já está em movimento tudo pode acontecer, pois como ela é "acéfala", sem liderança definida, a direção desta é difícil de ser controlada e o que estiver no seu caminho que se cuide (sabemos o que e quem, pois já foram apontados pela insatisfação popular). O grande problema do momento, este está bem claro no texto, é que a "bola de neve" deverá ter uma liderança e/ou só virá a parar se for destruída. A história mostra que, nestes casos, isto só seria possível através de uma "guerra civil" onde a "força" de um grupo consegue tomar a liderança e/ou quando seus objetivos deixam de existir.

CANTAGALO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 28/06/2013
Embora o articulista demonstre preocupação com relação a falta de lideranças, e eu concordo com isso, nós sabemos que se nomearem ou escolherem alguém para líder, imediatamente vai ser cooptado pelos governantes, como Lula fez com a UNE, Sindicatos e partidos políticos, corrompendo-os. Penso que o Movimento está certo ao não confiar em ninguém, e continuar ameaçando os detentores do Poder. Acho até que deveriam colocar na pauta essa excrecência que é um ministério com 39 ministros que não demonstram competência alguma.

SÃO LUÍS DE MONTES BELOS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 27/06/2013
Alem do que se observa que não existe um planejamento uma pauta de reenvidicações,
existe os grupos aproveitadores tanto pelo lado bom para o País quanto também para
o ruim.
As mazelas do Brasil são tantas e tão grandes que sabemos que suas correções a priore
depende de formação EDUCACIONAL de seu povo.
Claro que isso não deve impedir manifestaçoes ordeiras mas só seremos uma NAÇÃO
o dia que formos BRASILEIROS acima de tudo.