Há algo além do selo...
O estabelecimento de uma certificação, quando amparado na mensuração perfeita do atributo relevante para o mercado, tende a criar um mercado concorrencial perfeito. Em outras palavras, não existe diferença alguma na aquisição do produto de A ou B, dado que o selo garante bens com características exatamente iguais. Dessa maneira, não haveria motivo algum para a conformação de um padrão específico para o sucesso em um segmento certificado, sendo o ato de aquisição do selo a principal iniciativa a ser tomada.
As questões expostas acima, presentes no imaginário de boa parte dos consumidores antenados nessa nova onda do mercado, são as mesmas que distraem um número crescente de pesquisadores ao redor do mundo. Entender a lógica da certificação vem sendo um desafio crescente para diversas pessoas, cuja possibilidade de observar o quadro como um todo acaba levando a uma pergunta ainda mais intrigante: o que explica o sucesso de alguns enquanto outros amargam fracassos, ou ainda, tímidos progressos?
Na boca dos produtores rurais, são várias as respostas que emergem para os questionamentos prévios. O que mais chama a atenção é que, entre todas essas opiniões, são salientados aspectos dos mais diversos, e que juntos constituiriam a realidade com grande fidelidade. Evidentemente, a localização geográfica, experiência de vida ou forma de condução dos negócios condiciona os resultados ao final da safra; no entanto, como estilizar esse raciocínio e resumi-lo ao máximo? Ou indo além, é possível prescrever uma receita para o sucesso?
Conforme nossa trajetória nessa coluna denota, somos avessos à tese de que seja fácil encontrar receitas de bolo para uma vida tranquila e planejada nos negócios. Nada contra quem defenda posição contrária; porém, do ponto de vista do pesquisador, a principal missão parece ser a de apontar tendências, e com sorte, encontrar algum padrão aplicável. Talvez a academia não compartilhe o otimismo dos consultores, mas acreditamos que os escopos de ambas as atividades sejam ligeiramente distintos, o que por outro lado não impede a colaboração mútua.
Entretanto, isso não significa cruzar os braços e abandonar o trabalho de pensar a cafeicultura do futuro. Nesse sentido, talvez seja mais produtivo, a princípio, entender o porquê de muitos não estarem tendo os resultados que esperavam, ainda que acreditem estar fazendo tudo certo. E tendo em vistas as tendências do mercado, nada melhor que iniciar esse exercício pela certificação. Tal raciocínio, que a princípio pode parecer sem sentido, fica certamente mais claro quando confrontado com as principais características de um mercado regido por um padrão privado.
O estabelecimento de uma certificação, quando amparado na mensuração perfeita do atributo relevante para o mercado, tende a criar um mercado concorrencial perfeito. Em outras palavras, não existe diferença alguma na aquisição do produto de A ou B, dado que o selo garante bens com características exatamente iguais. Dessa maneira, não haveria motivo algum para a conformação de um padrão específico para o sucesso em um segmento certificado, sendo o ato de aquisição do selo a principal iniciativa a ser tomada.
Para surpresa geral, não é isso que ocorre. Em geral, há sim uma diferença enorme entre comprar de A ou B, ao menos do ponto de vista dos outros elos da cadeia. E com o tempo, essas peculiaridades no momento de escolha podem contribuir para o estabelecimento de padrões de inserção relativamente bem definidos. Na atualidade, a pesquisa nesse tópico ainda está engatinhando, de modo que colocações taxativas devem ser evitadas; todavia, a sensação é a de que há algo mais além do selo.
Nesse sentido, a impressão que se tem é a de que os check lists das certificadoras são apenas um começo, e em diversos casos insuficiente, para a inserção adequada naqueles mercados cobiçados pelos cafeicultores quando de sua adesão a uma certificação privada. Ficar de fora desse mercado pode penalizar diversas iniciativas, é verdade; porém, uma entrada sem cuidado pode ter efeitos ainda mais desastrosos para produtores, tanto do ponto de vista econômico como do lado motivacional.
De resto, pode-se argumentar que contatos certos, sorte, uma localização mais próxima dos mercados, entre outros, são motivos para a entrada bem sucedida em um nicho de mercado governado por padrão privado. Apesar de certamente formarem parte da realidade, tais variáveis são de difícil mensuração, quando não impossível, além do que devem ser analisadas na base do estudo individual. Ou seja, um apego exacerbado a esses fatores poderia mesmo inviabilizar a estruturação de pesquisas mais amplas.
Do ponto de vista das certificadoras, é notável o fato das mesmas não estarem mensurando todos os atributos relevantes para o mercado. Com isso, o que se nota é a criação de um segmento de mercado dentro do segmento, no qual a liberdade de negociação entre os agentes é inclusive maior do que o modelo de um arranjo regulado por um padrão privado preveria. Ou seja, ao que parece o dinamismo e as demandas de quem está do lado de lá caminham com uma agilidade bastante superior ao dos agentes em busca de organização da produção da porteira pra dentro.
... que costuma fazer a diferença
No longo prazo, fatores como a amizade, a reputação e a praticidade podem jogar um importante papel na escolha dos parceiros para o intercâmbio. Entretanto, no curto prazo, a impressão é a de que há atributos sendo negociados nos mercados certificados cujos selos não atestam. Características dos bens demandados cujo olhar atento do comprador, ou a intuição do cafeicultor são capazes de garantir, e para os quais a precificação não é tão óbvia; analogamente, um conjunto completo de atributos raramente faz parte dos check lists da maioria dos padrões existentes hoje.
Assim sendo, se engana quem imagina que a consolidação dos selos levaria a um mundo sem sobressaltos para a cafeicultura, com segmentos bem definidos. Em um cenário marcado pelas mudanças constantes, sempre haverá espaço para o imponderável, por mais que sejam criadas regras. Nesse caso, estamos falando justamente daquelas sacadas capazes de catapultar empreendedores à vanguarda do mercado, garantindo assim lucros consideráveis. Novidades essas que, de forma alguma são eternas; afinal, concorrentes e padrões estão aí para tentar acompanhar o desenrolar dos fatos.
Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no CaféPoint.
Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!
Material escrito por:
sylvia saes
Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)
Acessar todos os materiaisBruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
Acessar todos os materiaisDeixe sua opinião!
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 26/09/2008
Agradecemos os comentários. Realmente, a certificação é um tema dos mais atuais para a cafeicultura, e sua configuração ainda deve mudar bastante no futuro.
No que se refere aos regulamentos, é preciso tomar cuidado, já que a tentativa de imposição de regras nem sempre é o caminho mais recomendado; em alguns casos, tal atitude pode ser mesmo inócua, dada a capacidade considerável dos agentes em responderem às mudanças. As certificações da atualidade não deixam de ser uma tentativa de disciplinar o mercado em benefício de seus integrantes; no entanto, vemos que padrões paralelos acabam emergindo, indo estes além do selo.
Um ordenamento público não é necessariamente uma garantia de reversão desse quadro. Este é um detalhe muitas vezes esquecido por quem defende um Estado metido em todos os temas da vida pública, de preferência de forma rápida. Ficar correndo atrás dos detalhes do momento pode fazer com que o conjunto perca o sentido no longo prazo.
Atenciosamente,
Bruno e Sylvia
BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS
EM 23/09/2008
É bastante oportuno esse artigo de vocês.
Há uns 4 anos atrás, uns atacadistas queriam criar uma nova certificação pro segmento de frutas. Argumentei que já existiam diversas certificações no mercado e que uma boa análise do que tinha disponível no mercado podia ser útil para o negócio deles. Mas não estavam preocupados com o negócio "frutas", vislumbravam o negócio "certificação".
Existe uma miríade de novos "selos" disponíveis. Muitas certificações hoje disponíveis tentam criar um novo paradigma de mercado, o de a certificação ser importante por si só, sem ter foco no consumidor. Isso deve servir de alerta para produtores, cooperativas, indústrias, e todos os demais agentes envolvidos. Nunca deixem de pensar em quem paga as suas contas: "o consumidor".

MUZAMBINHO - MINAS GERAIS - ESTUDANTE
EM 22/09/2008
Parabéns pelo artigo e espero que o brasileiro aprenda a valorizar o seu produto e pagar um preço justo por ele.

RIO CLARO - SÃO PAULO - ESTUDANTE
EM 22/09/2008
Concordo com a carta da leitora que pede para continuar a publicação de artigos desse tipo. Indo até mais além, acho que deveria haver uma coluna semanal só sobre certificação, pois é um assunto que sempre vai estar em pauta, daqui para frente.
Grato pela atenção,
PATROCÍNIO - MINAS GERAIS
EM 18/09/2008
Excelente assunto pra ser pesquisado, destrinchado, alterado, esclarecido, direcionado, melhorado.
As diversas certificações às vezes confundem a nós que somos da cafeicultura. Imagimenos então a cabeça do consumidor. Ele tem obrigação de conhecer e entender tantos selos? Obviamente que não. O que é que estamos fazendo com a cafeicultura?
É necessário que se criem regulamentações sérias a respeito de certificações. Certificação deve ser algo que ateste qualidade e rastreabilidade ao produto, transmita sim, que o produto foi produzido num processo que não agride o meio ambiente, etc e tal. Mas paremos por aí, ou então produtor e consumidor vão se encher de tanto selo. E as embalagens ou sacarias vão parecer mais outdoors do que um produto ou matéria prima.

INCONFIDENTES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 16/09/2008
Tenho a certeza que, para a melhora da qualidade, o produtor precisa ser mensurado e vejo nas certificações esse caminho. Precisamos então da participação ou até a interferencia de Órgãos, (não saberia dizer quem), para se preocuparem com a idoneidade dessas certificadoras. Isso aconteceu com os produtos orgânicos, onde hoje já há uma regulamentação.
Parabéns pelo artigo e que ele seja contínuo para podermos ter um ponto de horizonte. Gostaria, se possível, ter uma resposta dos pesquisadores do artigo.