Cuidados práticos na hora da colheita

O nicho de cafés especiais para espresso vem ocupando um espaço cada vez maior entre os consumidores, por oferecer uma bebida com mais aroma e sabor. Esse mercado tem crescido entre dez e quinze por cento ao ano em todo o mundo - tendência que deve ser mantida nos próximos dez anos - enquanto os cafés tradicionais, comercializados como commodity, crescem apenas 1 a 1,5% ao ano.

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O nicho de cafés especiais para espresso vem ocupando um espaço cada vez maior entre os consumidores, por oferecer uma bebida com mais aroma e sabor. Esse mercado tem crescido entre dez e quinze por cento ao ano em todo o mundo - tendência que deve ser mantida nos próximos dez anos - enquanto os cafés tradicionais, comercializados como commodity, crescem apenas 1 a 1,5% ao ano.

Uma característica peculiar do espresso, forma de preparo com extração mais rápida, alta pressão e temperatura, é que ela amplifica as características de sabor e aroma da bebida, oferecendo, ao mesmo tempo, menos cafeína. Devido a isso, se os grãos forem de boa qualidade, o espresso é excelente; se não forem, é terrível.

Por isso, uma xícara de bom nível só pode ser obtida com grãos de qualidade superior, sem a presença de defeitos capitais, que exige do cafeicultor cuidados especiais desde a colheita, o preparo, o armazenamento e o beneficiamento.

Apesar de requerer tanta cautela, esse segmento também é interessante ao produtor, porque oferece remuneração em patamares superiores à praticada pelo mercado de cafés indiferenciados.

Muitas vezes, porém, por desconhecimento ou falta de cuidado, o produtor que busca a qualidade tropeça em duas etapas fundamentais: na colheita, muitas vezes iniciada antes do prazo ideal, e na secagem, um dos pontos mais críticos do processo de preparo do café.

Esses dois aspectos, que tem norteado muitos dos cursos, palestras e workshops promovidos pela torrefadora italiana illycaffè nas regiões produtoras, por meio do Clube illy do Café e da Universidade illy do Café - unilly, podem significar a diferença entre uma safra de qualidade superior e um café commodity, com sabor e preço inferiores.

A colheita é a única etapa na qual os grãos imaturos, provenientes de frutos verdes - que deixam a bebida mais amarga, adstringente e sem aroma - podem ser evitados. Por isso, antes de iniciar a colheita, o produtor deve verificar o estágio de maturação dos frutos: basta colher algumas amostragens aleatoriamente na parte alta, média e baixa da planta, em dois lados e calcular a porcentagem dos frutos em cada estágio. A incidência de frutos verdes e verdoengos deverá ser a menor possível, em torno de 5%.

Depois da colheita, o café deve ser conduzido o mais rapidamente possível para o lavador e a seguir sem água escorrendo para o terreiro de secagem para evitar a fermentação indesejável.

A secagem, etapa naturalmente delicada, o é ainda mais entre os cafés descascados, segmento que vêm ocupando um espaço cada vez maior.

O cuidado deve começar já na escolha do terreiro, que deve ter tamanho adequado, ser bem localizado (nunca em baixadas úmidas), de preferência ter superfície permeável e com boa declividade. Antes da colheita, o terreiro deve ser limpo e passar por manutenção.

O café, que não pode chegar ao terreiro com água, deve ser espalhado em camadas bem finas, movimentado o dia todo sem parar, para perder umidade. Nesta fase inicial de secagem o café precisa de mais ventilação e menos calor. Por isso se recomenda terreiros bem localizados, exposto ao sol e bem ventilados. No final da tarde, já nos primeiros dias, os frutos devem ser colocados em leiras, no sentido da declividade do terreiro, para favorecer a homogeneização da secagem e evitar o orvalho da noite. Quando o café atingir o estágio de meia seca (ao redor de 20% de umidade no grão), ele deve ser amontoado e coberto com lona de pano, nunca de plástico preto, para ser protegido da umidade da chuva e do orvalho, e continuar a homogeneização. Pode também, ser colocado no secador.

O secador deve ser limpo e passar por manutenção antes do início da safra, para não misturar com grãos da safra anterior e garantir que cumpra sua função. O produtor deve dar preferência aos secadores de fogo indireto, nos quais é mais fácil controlar a temperatura e fumaça. A carga deve ter lotes homogêneos, permitindo boa ventilação e sem calor excessivo. A rigor, especialmente no início da secagem, a ventilação é mais importante do que a temperatura.

Não se devem misturar lotes, e o secador deve ter a carga completa antes de iniciar a secagem. A lenha normalmente utilizada deverá ser bem seca para evitar perda de energia e cheiro de fumaça.

Os cafés descascados exigem uma secagem mais lenta, em temperatura nunca superior a 40ºC, com intervalos para descanso e igualação. A seca contínua deverá sempre ser evitada.

No final do processo, o grão deverá ter um teor máximo de umidade de 11%, pois grãos muito úmidos se deterioram e contaminam os outros. É importante aferir se o instrumento usado para mensurar a umidade está adequadamente calibrado.

A armazenagem deverá ser sempre feita em local que tenha boas condições de ventilação, no escuro, sem umidade e temperatura nunca superior a 22ºC.

Pássaros, cujas fezes podem causar contaminação, e produtos químicos, que podem transmitir gostos e cheiros indesejáveis, não devem ficar nas tulhas e armazéns que abrigam o café. Antes de ir para beneficiamento, o café deve permanecer pelo menos 30 dias em descanso.

Assim, o grão manterá sua qualidade por um período maior de tempo e permitirá aos torrefadores prepararem blends capazes de satisfazer os mais exigentes consumidores. Os cafés preparados dessa maneira podem ser inscritos nos prêmios de qualidade - como o Prêmio Ernesto Illy de Qualidade do Café para 'Espresso', promovido anualmente pela illycaffè desde 1991.
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Aldir Alves Teixeira

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Aldir Alves Teixeira
ALDIR ALVES TEIXEIRA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 20/07/2010

"Prezado Robledo Rene de Moraes",

A umidade de 11% pode ser conseguida no terreiro suspenso, que em geral, é mais utilizado para o café descascado ou despolpado.
Lembre-se que durante a noite o café fica em descanso, mesmo estando no terreiro suspenso.
O café colocado no terreiro suspenso deve, no início da secagem, ser colocado em camadas finas e com revolvimento constantemente. No final da tarde ele deve ser coberto com um lençol de pano. Esse descanço durante a noite é suficiente e muito importante para a igualação do café. Na manhã seguinte o pano é retirado e a secagem continua.
Na medida que o café vai secando a camada pode ser mais grossa.
Com essa operação o café chegará aos 11%, quando deverá ser armazenado com casca.
Atenciosamente
Aldir Alves Teixeira
Robledo Rene de Moraes
ROBLEDO RENE DE MORAES

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/07/2010

Dr Aldir, boa tarde.
Essa umidade de 11% pode ser conseguida de modo contínuo em terreiro suspenso, ou deve-se dar o descanso mesmo nesse caso?
José Adauto de Almeida
JOSÉ ADAUTO DE ALMEIDA

MARUMBI - PARANÁ - PROVA/ESPECIALISTA EM QUALIDADE DE CAFÉ

EM 23/08/2009

Dr. Aldir, muito importante este seu artigo. Sabemos que "qualidade é o produtor que faz", mas é necessário que exista uma maior valorização, em todos os níveis, do café verde, pois os pequenos e médios produtores estão defasados de uma infraestrutura miníma necessária para realizar colheita e pós colheita corretamente.

Qual seria a umidade mínima para armazenar um café em coco e depois retorná-lo ao terreiro para completar a seca? E por quantos dias pode ficar armazenado com esta umidade mínima?

Atenciosamente,

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado José Adauto de Almeida,

Eu acho que você tem toda razão. A empresa para a qual eu trabalho, a torrefadora italiana illycaffè, lider em qualidade, adquire todo o café de alta qualidade brasileiro, que analisamos e aprovamos, por valor sempre superior ao mais alto pago pelo mercado.

A infra-estrutura pode ser simples. Precisamos é conhecer o passo a passo para mantermos a qualidade, sem aumentarmos o custo de produção. Existem regras simples e básicas que sempre procuramos passar para os cafeicultores.

O teor de umidade do grão que é armazenado, quer para café em coco, pergaminho ou beneficiado deve ser de no máximo 11%. Com este teor de umidade o café se mantém por um longo período sem perder suas caracteristicas físicas e sensoriais. É muito importante que o armazém seja escuro, com baixa umidade relativa e com temperatura amena que não ultrapasse 22ºC. Além do teor de umidade do grão, é muito importante verificar o aspecto de seca, que deve ser homogêneo, indicando que todos os grãos tenham a mesma umidade.

Se fizer uma pré-secagem, você pode deixar o café com 15 a 18ºC por poucos dias e depois dar o acabamento no terreiro ou secador. Aliás, durante a secagem é muito bom que seja com períodos de descanso, pois, o produto final será muito melhor, com um aspecto de seca boa. Nunca recomendamos uma secagem contínua no secador.

Estamos às ordens para outros esclarecimentos.

Atenciosamente,

Aldir Alves Teixeira