De acordo com Antonio Carlos Michelotto, gerente técnico da Ipanema Coffees, de Alfenas/MG, a situação não é diferente do que tem sido ouvido na região, ou seja, a florada foi fraca. Na sua opinião, isso já era previsto, na maioria das áreas, uma vez que, foi recém colhida uma alta safra em áreas sem irrigação. Porém, segundo ele, a ocorrência do problema em áreas irrigadas carece de explicação, podendo estar relacionado com altas amplitudes térmicas diárias.
Aguinaldo José de Lima, cafeicultor na região de Patrocínio e superintendente do CIC, confirma a ocorrência de floradas fracas em lavouras relativamente boas, após uma grande colheita. No entanto, o clima no Cerrado Mineiro foi ótimo, desde novembro do ano passado até final de maio. Apenas em agosto, as plantas começaram a demonstrar estresse com temperaturas muito altas, porém as chuvas logo vieram e não pararam mais.
No entanto, as floradas não correspondem a esses fatores. Lavouras mais adultas ou velhas, mesmo irrigadas, apresentam os sintomas de pouca floração. Apenas plantas de até segunda produção, lavouras esqueletadas, decotadas e ou podadas, que vêm com sua primeira carga após o manejo, apresentaram boas floradas e prometem boa carga.
Para o engenheiro agrônomo Pedro Paulo de Faria Ronca, da Via Verde Consultoria Agropecuária em Sistemas Tropicais, a florada, de maneira geral, é decepcionante. Mas, como ainda estão aparecendo algumas pequenas floradas atrasadas, ainda é cedo pra definir projeções para o próximo ano.
Guilherme Capobianco Porto, também agrônomo da Via Verde, ainda tem observado plantas florescendo, tanto no Sul de Minas quanto na Mogiana Paulista, mas tem a sensação de que a próxima safra sentirá a seca na época da indução floral e terá maturação desigual.
O cafeicultor Marcelo Carneiro, de Entre Folhas/MG, relata que na sua fazenda que se situa numa região mais baixa, em torno de 650 mts de altitude, a florada foi intensa e teve bom pegamento, como atestam as fotos que enviou para a seção Foto em Destaque. Mas, principalmente nas áreas de maior altitude (em torno de 900 mts) tem havido reclamação generalizada por não ter ocorrido florada significativa e, para a maioria dos produtores, não há perspectiva de uma boa florada tardia em dezembro. A situação se complica ainda mais, pois muitos produtores colheram pouco neste ano, devido à seca de janeiro e fevereiro passados.
Outros agrônomos e cafeicultores têm dado depoimentos sobre o tema no Fórum Técnico do CaféPoint e em cartas enviadas após a publicação do artigo "A floração do cafeeiro arábica e a frustração da florada de 2006", de autoria do professor Alemar Braga Rena.
O pesquisador Antonio Fernando Guerra, da Embrapa Cerrados, que trabalha com manejo de irrigação do cafeeiro utilizando déficit hídrico controlado, chama a atenção para um fato que observou juntamente com o agrônomo Guy Carvalho, no cerrado baiano e no Sul de Minas.
Em algumas áreas criteriosamente irrigadas, os cafeeiros cresceram o suficiente para repetir a boa safra passada, no entanto, nos novos nós não havia nem sinal de gemas reprodutivas. Foi notado que nas lavouras de áreas experimentais, que tinham bom suprimento de fósforo, haverá repetição da safra, enquanto que as lavouras cujos ramos cresceram sem diferenciar gemas reprodutivas, apresentavam deficiência no nutriente.
Outras evidências encontradas seriam que os cafeeiros novos, que ainda tem estoque de fósforo na cova, não apresentam o problema; os cafeeiros produzem mais gemas reprodutivas no lado do sol indicando que essas gemas são diferenciadas antes do que as do lado da sombra, o que demonstra que as plantas se ajustam em função do aporte nutricional e, finalmente, cafeeiros recém podados não apresentam esse problema, pois acumulam carboidratos para a safra seguinte.
Guerra salienta que essa não é sua área específica de atuação e indaga se a recomendação de fósforo para os cafeeiros em produção é adequada para que haja produção todos os anos ou as doses recomendadas pode estar admitindo como certa a produção bienal do cafeeiro?
O engenheiro agrônomo Gianno Brito, cafeicultor e consultor na região de Vitória da Conquista/BA, deu o depoimento que mais difere do que é visto nas demais regiões. Na sua região, praticamente ainda não ocorreu florada. Apenas nas lavouras que não produziram este ano e em cafezais novos, já houve floração, mas, nos demais, já ocorre uma diferenciação para uma florada razoável.
Brito acredita que possivelmente não ocorrerá o problema visto no Sudeste País, pelo menos, não em tal proporção, pois as chuvas foram muito boas no período de inverno, na sua região. Ele tem dúvidas quanto a origem do problema ter sido a ocorrência de altas temperaturas, pois em Pirapora, que deve ser o lugar mais quente deste país onde se planta café, a florada foi muito boa, relata.
Por outro lado, dados enviados pela Somar Meteorologia mostram que, em Varginha, no Sul de Minas, todos os meses deste ano foram mais quentes que o normal. Veja a tabela:
