Por que Blend?- 2, por Ensei Neto

E qual seria a lógica para se fazer um <i>Blend</i>? Ensei Neto, especialista em qualidade de cafés especiais, escreve sobre os caminhos distintos para se criar um <i>blend</i>, sempre tendo em mente que o fundamento é um só: EQUILÍBRIO!

Publicado em: - 3 minutos de leitura

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E qual seria a lógica para se fazer um Blend?

Podemos dizer que existem dois caminhos distintos: um é o que norteia a elaboração de um produto para a grande massa consumidora, e outro, mais elaborado, privilegia sutilezas.

O mercado de Cafés Especiais (= Alta Qualidade Sensorial) é estimado entre 4% a 5% do mercado global de café, que é da ordem de 145 milhões de sacas de 60 kg (de café cru), que, estatísticamente, corresponde à média de produção desse padrão de produto inclusive nas fazendas de café. Portanto, 95% do volume de café que está no mercado consumidor é de cafés de preços mais competitivos, das grandes indústrias de torrefação e que tem distribuição feita principalmente nas grandes redes de varejo.

Nos países do Norte é comum você encontrar o "Morning Blend" ou o "House Blend". O que caracterizaria cada um?

Figura 1


O café é uma bebida que provoca percepções como Acidez, Doçura,Corpo (que é diretamente relacionado com a Doçura) e Amargor (exclusivamente devido à presença da cafeína e outros companheiros clorogênicos). Vamos partir do princípio que estamos falando de cafés honestos, com o mínimo de adstringência, que é o famoso repuxamento da mucosa da boca com sensação de secura, e total ausência de problemas graves de bebida. Num café desta categoria percebemos de forma intensa os três primeiros atributos, enquanto que o Amargor somente surge em destaque caso os anteriores estejam em muito menor proporção.

Com base nessas percepções, a estrutura básica de um Blendcontém um Café de Base, que deve ser limpo (sem defeitos de bebida), de bom nível de doçura e pouca acidez, um Café para Ajustar Acidez (ou Modulador de Acidez) e um terceiro café, que seria o "tempero" para dar, digamos, um toque especial como uma nota floral ou frutada. Em geral, o Morning Blend, como o próprio nome diz, indicado para começar o dia, tem um perfil sensorial ligeiro, bem esperto, como deve ser um café para ligeiramente chacoalhar nosso espírito e torná-lo pronto para mais um dia de labuta.

Fica claro que com as inúmeras origens de café e as possibilidades de composição, mesmo como o de um bem básico Morning Blend, a quantidade de produtos se torna grandiosamente incontável!

Tecnicamente o que diferencia um Café Especial de um Café Comum está no nível de qualidade. Quanto mais livre de defeitos de bebidas, tanto mais nítidas as notas de Aroma e Sabor se tornam. Seria, comparando, como ter um vidro limpo e outro embaçado. Você enxerga com nitidez se não houver sujeiras ou vapor embaçando a transparência do vidro; quanto mais limpo, mais nítido fica o que se observa do outro lado!

Neste segmento, são empregados cafés de excelente qualidade com atributos sensoriais muito bem definidos (ah, nada como ficar livre da "visão embaçada".!) e apesar de se utilizar da mesma lógica para produzir os Blends de preços mais competitivos, os resultados podem ser simplesmente fantásticos. Na foto ao lado temos um Blend do dinamarquês Coffee Collective: 50% Daterra, Cerrado Mineiro, Brasil; 25% Finca Vista Hermosa, Guatemala; 25% Adado Yirgacheffee, Ethiopia.

Figura 2


Observe que o brasileiro Daterra produzido no Cerrado Mineiro corresponde a metade da composição. Cafés do Cerrado Mineiro tem como característica básica a delicada acidez, muitas vezes suplantada pela doçura devida a uma correta colheita de frutos maduros. Como disse antes, é a base do Blend! Acidez discreta, de sabor limpo (= sem defeitos de bebida) e boa doçura que, por conseguinte, leva a uma bebida encorpada. Base sempre tem maior participação.

A função do etíope Adado, da mítica Yirgacheffee, é a de modular a acidez do Blend, uma vez que esses cafés têm grande acidez Cítrica por vezes combinada com a do Ácido Fosfórico. Finalmente, o guatemalteco Finca Vista Hermosa com suas notas minerais e intenso floral dá o toque de elegante exuberância à bebida.

Veja que interessante o rótulo deste vinho argentino, o Gestos 2008 da Finca Flichman.

Figura 3


É corte de mesma uva, a simbólica Malbec, originada em duas regiões diferentes: uma a 1.100 m de altitude e outra a 700 m. Solos, climas e, portanto, respostas diferentes (sim, os territórios são diferentes!). Enquanto uma parte dá brilho pela acidez, outra confere corpo pela maior doçura.

No café também existem Blends elaborados dessa mesma forma, quando são utilizadas sementes de mesma variedade, mas de diferentes origens. O resultado pode ser muito bacana!

O fundamento ao se criar um Blend é um só: EQUILÍBRIO!

Nunca uma acidez excessiva, que pode se tornar torturante num espresso, por melhores que tenham sido avaliadas sensorialmente cada fração!

O importante é que tudo fique em seu devido lugar, como um competente time de futebol cheio de gênios da bola.
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Material escrito por:

Ensei Neto

Ensei Neto

Especialista em Cafés Especiais. Consultor em Qualidade e Marketing, Planejamento Estratégico e Desenvolvimento de Produtos & Novos Mercados. Juiz Certificado SCAA e Q Grader Licenciado.

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Eleandro Gomes
ELEANDRO GOMES

SÃO PAULO - SÃO PAULO - CAFETERIAS E PONTOS DE VENDA DE PRODUTOS DE CAFÉ

EM 15/03/2012

Parabéns por tocar neste tema tão atual como o de Blends de café, realmente EQUILIBRIO é fundamental para que você tenha uma bebida perfeita em suas essências. Convido você a degustar um Nespresso, que provém exatamente desta cultura de bebida perfeita e equilibrada!

Abraços.
GINOAZZOLINI NETO
GINOAZZOLINI NETO

LONDRINA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 04/03/2012

Caro articulista,

Suas explicações tornam um assunto complexo (blend ) em algo fácil. Mas, o marketing em torno dos cafés de qualidade vão proporcionar aos brasileiros bebidas de excelente qualidade. Artigos desta qualidade, além de proporcionar conhecimento, motivam os cafeicultores a produzir cada vez mais cafés de qualidade. Mas, faço uma perguntinha apimentada: como tomar o café de varrição? Ele possibilita um blend?
Pedro Paulo de Faria Ronca
PEDRO PAULO DE FARIA RONCA

RIBEIRÃO PRETO - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 09/02/2012

Prezado Ensei, ótimo artigo pra entender melhor como são constituídos os blends e a complexidade do café.

Sempre ouvimos dizer que o Brasil é a base de muitos cafés, e ótima base quando a qualidade é alta. Entretanto gostaria de saber se temos potencial para oferecer cafés para serem como os 25% da  Yirgacheffee.

Temos visto uma explosão de novos cafés no Brasil, com investimento dos produtores em altíssima qualidade, microlotes e os naturais únicos. A variabilidade de regiões e climas e condições de produção no Brasil nos possibilita também competir para ser os 25% que equilibram e diferenciam o blend?

Acredito fortemente que no futuro teremos um rótulo de café interessante como desse vinho que você mostrou. Espero que não demore muito.

Obrigado e Parabéns pelo artigo.