* Por Xico Graziano
Duas fantásticas homenagens foram recentemente prestadas aos agricultores. A primeira foi em New Orleans, nos Estados Unidos, durante o intervalo do Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano. A segunda desfilou na passarela do carnaval carioca. Ambas atingiram, em todo o mundo, milhões de pessoas.
O longo comercial veiculado nos EUA aproveitou a maior audiência da televisão para reproduzir imagens retratando a vida no campo, sob a narração, esplêndida, de um texto elaborado em 1978 pelo radialista Paul Harvey. O vídeo é emocionante Oferecida ao agricultor. existente "dentro de cada um de nós", quase uma oração, intitulada E Deus fez o agricultor, prendeu a atenção dos ouvintes (confira aqui o vídeo).
Os EUA jamais deixaram de prestigiar seus agricultores, os colonizadores. Ruralismo, por lá, soa positivo, mesmo que bucólico em certas situações. Sempre se cultivou nos EUA o hábito de venerar a origem da nação, os empreendedores de outrora. Não difere muito do que ocorre na Europa, onde os produtores rurais são protegidos, fartamente subsidiados, para que mantenham bela a paisagem, protejam o modo de vida, defendam a cultura originária e estimulem o turismo campestre. Nos países desenvolvidos a moderna sociedade curte o berço do passado.
Carnaval do Rio de Janeiro. Na madrugada da folia, em plena Marquês de Sapucaí, a escola de Vila Isabel desfila sob o inusitado enredo A Vila canta o Brasil celeiro do mundo - Água no feijão que chegou mais um. O público se levanta, aplaude, dança, se entusiasma. Incrível. A agricultura brasileira, homenageada, indiretamente se sagrou campeã do carnaval carioca.
O lindo samba, de autoria de Arlindo Cruz, Martinho da Vila, André Diniz, Tunico da Vila e Leonel, ganhou os corações citadinos enaltecendo a lide rural (confira aqui mais a respeito).
Aqui, no Brasil, ao contrário dos EUA, os agricultores costumam ser tratados com certo desdém pela sociedade urbana, que enxerga os homens do campo, depreciativamente, como "caipiras". Vem de longe tal desprestígio, cujas razões nunca foram devidamente explicadas. Certamente o rápido e maciço êxodo rural contribuiu para gerar essa imagem negativa. O moderno erguia-se na cidade e agricultura virou sinônimo de atraso.
O ambientalismo recente tem dado lenha para essa visão distorcida sobre o campo. Começa pelo desmatamento. Antes, desmatar era sinônimo de progresso e todas as nações ricas ocuparam a totalidade das suas áreas agriculturáveis. Agora, porém, a preocupação com a biodiversidade rema contra a expansão agrícola. O Brasil, que ainda dispõe de muita terra boa para explorar, ficou na contramão do relógio da História. Derrubou, leva bordoada.
Futebol americano, carnaval, agricultura, a criação divina. Misturados com boas doses emoção e alegria, esses díspares elementos resultaram em espetaculares lances de marketing rural, valorizando os agricultores, seu labor, sua cultura. Oxalá a comunicação entre os mundos urbano e rural flua mais fácil a partir de agora.
Caipira, sim, com muito orgulho. E respeitado.
* Agrônomo, foi secretário de agricultura e secretário do meio ambiente do estado de São Paulo
As informações são de O Estado de São Paulo, adaptadas pelo CaféPoint.
Marketing rural
"Aqui, no Brasil, ao contrário dos EUA, os agricultores costumam ser tratados com certo desdém pela sociedade urbana, que enxerga os homens do campo, depreciativamente, como 'caipiras'. Vem de longe tal desprestígio, cujas razões nunca foram devidamente explicadas". Por Xico Graziano
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