Diante desse cenário, diferentes elos da cadeia cafeeira – de empresas e torrefadoras a cooperativas, organizações técnicas e produtores – passaram a articular iniciativas conjuntas para tornar a produção mais resiliente às mudanças climáticas.
“O principal desafio para a cafeicultura brasileira hoje é a mudança climática. Os dados de colheita comprovam isso. Antes o fator climático era a geada, que acontecia a cada 15 ou 20 anos, agora é uma mistura de seca e altas temperaturas, por isso temos que pensar em agricultura regenerativa”, diz Carlos Brando, sócio-fundador da consultoria P&A, que no Brasil coordena os trabalhos da Plataforma Global do Café (GCP, na sigla em inglês).
Mas, afinal, o que é cafeicultura regenerativa? De acordo com a GCP, a “cafeicultura regenerativa é um sistema de produção em que as práticas implementadas aumentam a resiliência e adaptação dos cultivos frente aos efeitos das mudanças climáticas, por meio da promoção da saúde do solo, da produtividade das colheitas, do estoque de carbono, da conservação da água e da biodiversidade, garantindo os serviços ecossistêmicos e contribuindo para a prosperidade e bem-estar social do produtor”. “Para nós, a agricultura regenerativa é qualquer prática dentro da lavoura ou da vegetação nativa que melhore as condições de solo e, consequentemente, a conservação da água”, sintetiza Fabiane Sebaio, secretária-executiva do Consórcio Cerrado das Águas (CCA).
No Brasil, esta temática começou a aparecer em 2014, quando o país viveu uma das piores secas de sua história, confirmando a questão hídrica como grande gargalo, sobretudo no Cerrado Mineiro, cada ano mais dependente de irrigação. O episódio repetiu-se em 2021. A região, que costuma produzir, em média, 6 milhões de sacas de café, viu a produção despencar para 4 milhões em função da seca – mais de cinco meses sem chuva – e da geada.
Neste contexto, o Consórcio Cerrado das Águas – uma plataforma multi-stakeholder, pré-competitiva, que reúne empresas, cooperativas, ONGs, setor público e órgãos técnicos na busca por resiliência hídrica no Cerrado Mineiro – é um dos exemplos de como a agenda de sustentabilidade do café vem sendo construída de forma coletiva. O embrião do que seria o CCA surgiu em 2010, depois de um estudo do pesquisador Eduardo Assad, uma modelagem que mostrava que os cafezais nas principais regiões – hoje produtoras – se tornariam inviáveis se a temperatura continuasse aumentando, como previsto pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
A pesquisa acende um alerta e a Nespresso encomenda outro estudo que confirma os recursos hídricos como o maior entrave do Cerrado Mineiro, a principal origem fornecedora da empresa no Brasil. “Na época surgiu o lema do que seria o Consórcio Cerrado das Águas: ‘A água de hoje é fruto da paisagem que construímos’”, explica Guilherme Amado, conselheiro do CCA. Em 2015, a marca premium de café em cápsulas da Nestlé começou a articulação que deu origem ao CCA.
Inicialmente, o consórcio tinha quatro associados, mas hoje congrega Nescafé, Nespresso, Lavazza, Cofco Internacional, Volcafe, Daterra, NKG Stockler, JDE Peet’s, EISA, X-Farm, Starbucks Farmer Support Center, Fundação Ernesto Illy, Federação dos Cafeicultores do Cerrado Mineiro, Expocaccer, Cooxupé, Sebrae, Imaflora e CerVivo, entre outros.
Ao entrar no CCA, o associado se compromete a ficar, no mínimo, cinco anos e contribuir com US$ 15 mil/ano. O consórcio também capta recursos de fundos – uma das primeiras captações, de US$ 400 mil, foi do Critical Ecosystem Partnership Fund (CEPF), que permitiu iniciar o Programa de Investimento no Produtor Consciente (PIPC). Pela iniciativa, a equipe do CCA visita os fazendeiros, faz o Plano de Adaptação Climática (PAC), o produtor recebe as ações propostas e diz quais concorda em implementar.
Na maior parte dos casos, o consórcio faz as ações necessárias na vegetação nativa e a contrapartida do produtor é realizar as atividades necessárias na lavoura. “O formato do apoio vai depender do edital vigente. Por exemplo: com o Funbio [Fundo de Biodiversidade Brasileiro, que destinou R$ 4,6 milhões ao CCA], o produtor não gasta nada para restaurar a vegetação nativa. Já a Cargill disponibiliza recursos para ajudá-lo no processo de transição na lavoura, mas não há verba para restauração”, explica Fabiane.
O foco inicial das ações do consórcio foram as bacias hidrográficas – do Córrego Feio, em Patrocínio (MG), do Ribeirão Grande, na Serra do Salitre (MG), do Rio Santo Inácio, em Coromandel (MG), e do Araras, em Araguari (MG) –, pelo entendimento de que a bacia hidrográfica é a unidade de gestão de recursos hídricos mais adequada para trabalhar a melhora da quantidade e qualidade de água. Por isso, foram desenvolvidas com os produtores atividades ligadas a conservação, reflorestamento e enriquecimento da mata nativa, e boas práticas na parte da produção, como o plantio de forrageiras nas entrelinhas dos cafezais, que ajudam a sequestrar carbono e preservar a água.
No entanto, um estudo contratado pelo CCA apontou que a forma mais efetiva de aumentar a resiliência climática no Cerrado Mineiro é via Corredor de Paisagens Regenerativas, que se estende de Unaí até Sacramento e, depois, de Carmo do Paranaíba até Araguari. São mil quilômetros em formato de cruz, envolvendo 2 mil propriedades. “Como vamos atuar agora? Vamos continuar atuando nessas bacias hidrográficas. Não queremos perder esse resultado, mas passamos a atender produtores fora dessas bacias e dentro desse grande corredor”, explica Fabiane.
Segundo ela, os associados entenderam o trabalho no pré-competitivo. “A água impacta todos. É indiferente, se é uma ou outra empresa, se é produtor disso ou daquilo, por isso devemos nos unir”, diz ela. Agora, o desafio do CCA é envolver outras cadeias, uma vez que o estudo do Corredor de Paisagens Regenerativas evidenciou que apenas 4% do uso da terra nessa área é atividade cafeeira. A maior parte (27%) é pastagem, seguida pela soja, com 16%.
Programas de sustentabilidade
Maior produtor de café do mundo, o Brasil é campo fértil para as principais empresas e torrefações do setor, que desenvolvem programas de sustentabilidade com os produtores há muitos anos.
Muitas dessas iniciativas são desenvolvidas em parceria com cooperativas, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil, ampliando o alcance das práticas sustentáveis no campo.
A Nespresso é um exemplo. Seu programa Nespresso AAA Sustainable Quality chegou ao Brasil em 2005, um ano antes da marca aterrissar no país. Focado em qualidade sustentável, o programa incentiva produtores a adotar práticas alinhadas à certificação Rainforest Alliance.
Em 2023, com os desafios climáticos cada vez mais evidentes, a agricultura regenerativa passa a ser foco do Nespresso AAA, que conta com um time de 20 consultores. Eles acompanham cerca de 600 fazendas, que somam 112 mil hectares no país e fornecem 30% do volume de café comprado pela marca. Atualmente, 90% do café brasileiro vem de propriedades com práticas regenerativas. “Nas outras 18 origens onde compramos café, é 83%. O Brasil puxa a média para cima”, diz Daniel Motyl, gerente regional de Qualidade Sustentável da Nespresso Brasil.
Para apoiar os fornecedores na transição para a agricultura regenerativa, a Nespresso lançou, em 2024, um pacote agronômico de R$ 5,4 milhões. Nele, o produtor escolhe um talhão na fazenda para ser regenerativo, banca metade dos custos e a Nespresso entra com 50% do investimento, que pode ser em produtos biológicos, compostos orgânicos, biochar em lugar de fertilizantes sintéticos, entre outros. “A
partir do segundo ano, muitos produtores expandiram as práticas para 100% da fazenda, ou seja, foi um empurrãozinho que a gente deu”, comenta Motyl.
No ano passado, só no Brasil, o investimento da Nespresso em sustentabilidade foi de R$ 75 milhões. “Grande parte desse valor é referente ao pagamento do prêmio de sustentabilidade, algo entre 5% e 10% a mais que o preço do café”, esclarece. “Este valor também inclui os R$ 5 milhões para financiar o time de assistência técnica que roda as fazendas para coletar dados e pensar em planos de ação para garantir evolução contínua dos produtores nos nossos projetos”, acrescenta.
Um desses projetos, finalizado recentemente, contou com a pesquisadora Madelaine Venzon, da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), que instalou unidades demonstrativas em dez fazendas do Cerrado Mineiro com estratégias de controle biológico conservativo. Em outras palavras, ela escolheu plantas de cobertura para serem semeadas entre as linhas dos cafezais e implantou linhas de biodiversidade, com árvores e arbustos que atraem os predadores naturais das pragas do cafeeiro. O resultado foi surpreendente. “Teve uma redução de 44% na infestação de bicho mineiro – principal praga da região – nos sistemas regenerativos, na comparação com sistemas convencionais”, explica o gerente da Nespresso. Com a redução das pragas, diminuiu-se a necessidade de agroquímicos e, consequentemente, as emissões de carbono.
Com o objetivo de ser Netzero até 2050, a Nespresso fez mais um anúncio em 2025: R$ 2 milhões de prêmio regenerativo para os produtores mais avançados na adoção dessas práticas. A gratificação veio após a cobrança dos fornecedores: “Fiz todo investimento. E agora? Qual é meu benefício?”. Por sinal, a pergunta “Quem vai pagar a conta da transição para a agricultura regenerativa?” tem sido a grande indagação dos produtores.
Investir em agricultura regenerativa dá resultados, mas não da noite para o dia. O fornecedor da Nespresso, Marcelo Montanari, é um exemplo. Hoje, grande parte de seus cafezais em Patrocínio (MG) são regenerativos, mas ele mantém um talhão no sistema convencional para fazer comparações. Três anos após a implementação das práticas regenerativas, a fazenda registrou um aumento de 9% na produtividade, além de aumentar a resiliência climática.
Mas nem todos os produtores têm condições de bancar os custos da transição – e isso já está no radar da cadeia. “O Consórcio Cerrado das Águas tem buscado mecanismos financeiros que sustentem a transição do produtor para a agricultura regenerativa”, diz Fabiane.
Qualidade na xícara
A torrefadora italiana illy atua há décadas no Brasil. O Prêmio Ernesto Illy de Qualidade Sustentável do Café para Espresso, lançado em 1991, foi a primeira competição de café do país, um divisor de águas por ensinar aos produtores as práticas na lavoura e no pós-colheita que resultam numa bebida de excelência.
Desde 1999, a torrefadora tem um programa de recompensa voltado aos cafeicultores brasileiros que fornecem para a marca. O clube estimula a troca de conhecimento entre os produtores e divulga conteúdos e seminários, entre eles os treinamentos para aumentar a qualidade e promover a sustentabilidade, organizados por meio da parceria da illy com o Centro de Conhecimento em Agronegócios (Pensa – USP). Todo este histórico levou a família illy a cunhar o termo “agricultura virtuosa”, uma forma de produzir em harmonia com a natureza, diminuindo o uso de agroquímicos e aumentando a adoção de práticas sustentáveis que cuidam do solo. Posteriormente, aderiram ao termo adotado pelo mercado: agricultura regenerativa.
“A agricultura regenerativa está no centro da nossa estratégia de sustentabilidade. Ela representa uma abordagem que vai além da conservação, com o objetivo de restaurar a saúde do solo, aumentar a biodiversidade, reduzir o uso de insumos químicos e água, promovendo um ciclo virtuoso que beneficia o ambiente, os produtores e a qualidade do café”, explica David Brussa, diretor de Qualidade Total e Sustentabilidade da illy. “As mudanças climáticas são uma ameaça real para o cultivo do café. As práticas regenerativas ajudam a criar sistemas resilientes, capazes de se adaptar, assegurando a sustentabilidade do setor a longo prazo”, complementa.
Mais do que isso, este modo de produção resulta em cafés mais aromáticos, complexos e consistentes. Prova disso é que duas fazendas brasileiras que implementaram as práticas venceram a edição internacional do Prêmio Ernesto Illy em 2023 e 2024. A Agropecuária São Mateus, do Cerrado Mineiro, foi a primeira brasileira a receber o troféu. No ano seguinte, os irmãos Matheus e Nathan Sanglard, da Fazenda Serra do Boné, de Araponga (MG), repetiram o feito.
A história do compromisso ambiental
A sustentabilidade na cadeia cafeeira não é um tema recente. Desde o final dos anos 1980, o setor vem pensando no desenvolvimento sustentável baseado na tríade social, ambiental e econômica. “No início, falava-se muito do social e ambiental, mas, sem o lado econômico, o produtor não consegue implementar os outros pilares. A ordem está invertida, o econômico tem que vir antes”, diz Brando.
Quatro décadas depois, a preocupação com o aquecimento do planeta levou os fundos globais a fortalecerem as políticas ESG, sigla em inglês para melhores práticas ambientais, sociais e de governança. O marco deste movimento foi uma carta escrita em 2021 por Larry Fink, CEO da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, às empresas investidoras. Na mensagem, ele cobrava das companhias um planejamento para se tornarem carbono neutro e aumentarem a diversidade étnica e de gênero nos conselhos e na força de trabalho.
No entanto, casos de greenwashing – prática em que os dados de sustentabilidade são mascarados para simular o compromisso ESG e atrair investimentos sem um comprometimento real – levaram muitos a desconfiar das três letrinhas. “As empresas pensaram no ‘environment’ delas, no social dos funcionários, na governança da companhia, na proteção do crédito de carbono. Mas o ESG não se aplicava aos produtos que elas compravam”, comenta Brando.
No meio dessa confusão, as mudanças climáticas faziam estragos. Em 2021, o Brasil registrou uma seca prolongada seguida por uma geada, que afetou seriamente os cafezais. Neste contexto, as práticas de agricultura regenerativa ganharam cada vez mais destaque. “Não se trata de uma reinvenção da agricultura, são boas práticas agrícolas que cuidam do solo e ajudam a lavoura a ser mais sustentável e resiliente às mudanças climáticas”, diz o fundador da P&A. “Agricultura regenerativa é um instrumento para atingir o tripé econômico, social e ambiental da sustentabilidade”, acrescenta.
Na GCP, a temática vem sendo discutida desde 2024 com os diferentes elos da cadeia (exportadores, torrefadores, órgãos de assistência técnica e extensão rural, pesquisadores, empresas de agroquímicos, biológicos, entre outros). Juntos, eles chegaram aos Sete Elementos da Cafeicultura Regenerativa confira gráfico abaixo, cuja finalidade é cuidar do solo, construir fertilidade em profundidade e aumentar a quantidade de matéria orgânica, o que ajuda na retenção de água e conservação física do solo. Segundo Eduardo Sampaio, consultor da GCP, não se trata de algo novo. “Desde a década de 50 e 60, tivemos grandes professores que foram os pioneiros em trabalhar estes conceitos e vislumbrar o futuro: Elke Jurandy Bran Nogueira Cardoso [Esalq] e Joana Döbereiner [UFRJ] estudavam biologia do solo, Ana Primavesi [UFSM] foi ícone nos estudos de agroecologia, e Edmar Kiehl [Esalq] foi especialista em matéria orgânica e criador do adubo organomineral”, finaliza Sampaio.
Consórcio Cerrado das Águas em números
- 4 mil hectares em transição para práticas regenerativas
- 200 hectares em processo de restauração ecológica
- 25 Planos de Adaptação Climática em implantação
- Corredor Regenerativo com meta de 20 mil hectares até 2030
Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.