
Ramo plagiotrópico de cafeeiro (final de outubro de 2006).
Foto: Carlos Fidélis.
Engenheiro agrônomo e consultor na região de Ribeirão Preto, José Mario Jorge questiona
principalmente as causas para o fenômeno e se há tempo e condições para futuras floradas. Ele ressalta o momento alinhamento entre custos e preços do café, em que uma quebra de safra trará ainda mais dificuldade e exigirá mais atenção do produtor.
Apreensão em todas as regiões
Engenheiro agrônomo e cafeicultor na região de Viçosa/MG, Antônio de Pádua Nacif, primeiro gerente geral da Embrapa Café, diz que em sua região o problema está generalizado, com floradas tímidas e pouca diferenciação de gemas. "Para minha lavoura, de potencial para 40-50 sacas por hectare, até agora não deu flor nem para 10%. Na esperança de não ficar no zero, estou rezando para uma florada tardia, mas está sem jeito", desabafa.
O pesquisador da Epamig, Antônio de Pádua Alvarenga reitera que casos semelhantes estão ocorrendo em lavouras na mesma região, a Zona da Mata Mineira. Em Caratinga/MG, o consultor Rodrigo Sobreira acredita que lavouras que tiveram baixa carga na safra passada estão respondendo melhor à florada. Ele comenta que lavouras em altitudes entre 600 e 800 metros já foram registradas três floradas, enquanto em altitudes mais elevadas a primeira florada foi fraca e os produtores aguardam outra maior.
No Triângulo Mineiro, Ramon Olini Rocha, presidente da Associação dos Cafeicultores de Araguari, conta que mesmo com as chuvas de setembro, as floradas foram pequenas e desuniformes. "Um fato atípico para o cerrado mineiro, onde comumente as floradas são concentradas devido ao estresse natural com a alta evapotranspiração nos meses de agosto e setembro", afirma.
Consultor na região de Araguari, Eduardo Mosca comenta que lavouras que produziram acima de 55 sacas não vão repetir a produtividade e acrescenta sua preocupação no aumento médio da temperatura, em alguns casos de até dois graus. Na região de Coromandel/MG, o engenheiro agrônomo Luís Américo Paseto lembra da bienalidade natural da produção, quando já era esperada redução para próxima safra.
Safra 2007 menor que o esperado
Gestor de negócios da maior cooperativa de café do mundo, a Cooxupé, Antônio Augusto Ribeiro de Magalhães Filho acrescenta que a frustração da florada também ocorreu de maneira generalizada no Sul de Minas e que a estimativa de quebra para a próxima safra em cerca de 37% deverá ser ainda maior, quando serão mensurados as floradas e seu pegamento, em avaliação no final de novembro. "As floradas têm sido expressiva apenas em lavouras submetidas a podas ou que estavam descansadas".
O representante da Cooxupé comenta que as lavouras mais novas, salvo as irrigadas, sofreram demais a seca em função do baixo volume radicular e apresentarão produtividade muito aquém de seu potencial (quebras superiores a 50% do que prometiam). Nas lavouras mais velhas, mesmo aquelas que saíram da safra em boas condições vegetativas, houve apenas duas floradas pequenas, sem sinais de que novos florescimentos acontecerão.
Também no sul de Minas, o gerente de comercialização da Cooperativa de Cafeicultores de Três Pontas (Cocatrel), Manoel Rabelo Piedade é enfático: "A florada não vingou. Cafeeiros que tiveram carga plena este ano devem produzir quase nada em 2007", avalia.
Na Alta Mogiana, SP, o representante da Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas (Coocapec), Ricardo Lima de Andrade, informa que na região de Franca o pegamento das floradas manifesta-se conforme as condições das lavouras. O grupo que tem despertado mais apreensão inclui as lavouras que vieram de baixa carga ou safra zero, onde a frustração da florada também se manifesta de forma acentuada, com ramos sem diferenciação floral ou rosetas com baixo pegamento.
Coordenador do recém criado Grupo Técnico Café Cooperativas, da Syngenta, Marcos Roberto Dutra comenta que a situação é preocupante na avaliação de representantes de dez cooperativas de café (Capebe, Cocapec, Coocatrel, Coopama, Cooparaíso, Cooperrita, Coopinhal, Cooxupé, Minasul e Unicoop).
"O baixo índice de floração deverá refletir em quebra na próxima safra na ordem de 50% em relação à safra anterior (41,6 milhões de sacas). Se as lavouras não estiverem apresentando novos botões florais já desenvolvidos, muito provavelmente não teremos uma nova florada, o que preocupa ainda mais os membros do grupo", avalia.
Explicação científica
Os pesquisadores do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Ecofisiologia e Biofísica do Instituto Agronômico (IAC), Joel Irineu Fahl, Marcelo Bento Paes de Camargo e Maria Luiza Carvalho Carelli, apresentam uma explicação para o fenômeno de baixa frutificação. Eles citam o fenômeno como ocorrência generalizada, abrangendo lavouras com alto e baixo potencial produtivo, com exceção das culturas novas e das que receberam, no ano anterior, podas de decote e esqueletamento (desponte). Eles observam que algumas variedades como a Obatã e a Mundo Novo apresentaram quebra na frutificação mais intensa do que outras, como a Catuaí.
"A quebra na produção pode estar relacionada com as condições climáticas reinantes no período indutivo das gemas florais do cafeeiro, que abrange o período de fevereiro a meados de junho. A análise das temperaturas médias decendiais de algumas das regiões cafeicultoras, mostra que no mês de janeiro até final de março ocorreram temperaturas médias bem superiores às médias históricas para as regiões de Campinas e Mococa, que ilustram o que ocorreu nas demais regiões, em menor ou maior intensidade. Ainda no período indutivo, durante os meses abril/maio, foram observadas quedas acentuadas nas temperaturas médias, em relação à média histórica, fato este que também pode levar a redução na indução floral. Potencializando os prováveis efeitos das temperaturas extremas, também foi verificado a ocorrência de déficit hídrico no período indutivo, atípico nos meses de janeiro/fevereiro. Em adição, o período de deficiência hídrica foi antecipado, com inicio já no final de março, e mais prolongado em relação ao que ocorre normalmente".
Eles acrescentam que essas condições climáticas atípicas e adversas, para o processo de floração do cafeeiro, certamente foram as causas principais para a baixa indução floral. As plantas apresentam ramos plagiotrópicos vigorosos, com mais de 12 nós produtivos, mas com ausência de estruturas reprodutivas, mesmo após as chuvas que ocorreram a partir de agosto, com intensidade suficiente para causar a abertura dos botões florais. Em conseqüência da baixa indução de gemas florais, proporcionado pelas condições climáticas anteriormente descritas, tem-se observado uma intensificação do desenvolvimento de ramos plagiotrópicos de 2ª ordem.
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