Café conilon: o desafio da valorização do produto
O café representa quase a metade do PIB agrícola do Estado e é a principal atividade em 80% dos municípios capixabas. No entanto, a principal variedade produzida na região -conhecida como conilon- é vista como inferior, destinada principalmente a fazer volume nos "blends" (misturas) das empresas de solúvel e torrado e moído. O fato de o conilon ser considerado um produto de qualidade inferior ao arábica leva pesquisadores e compradores a darem pouca atenção à qualidade. Resultado: pouco cuidado no beneficiamento e secagem dos grãos. Para que essa imagem e qualidade mude, investimentos na cadeia são necessários.
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O café representa quase a metade do PIB agrícola do Estado e é a principal atividade em 80% dos municípios capixabas.
No entanto, a principal variedade produzida na região -conhecida como conilon- é vista como inferior, destinada principalmente a fazer volume nos "blends" (misturas) das empresas de solúvel e torrado e moído.
O conilon distingue-se do café arábica por ter alta concentração de cafeína e não possuir um aroma e sabor valorizados pelo mercado.
Devido a essa reputação negativa, chegou-se a pensar em proibir seu cultivo em solo brasileiro.
Nos anos 70, entretanto, uma política deliberada de desenvolvimento da agricultura do Espírito Santo foi decisiva para a formação do parque cafeeiro de conilon no Brasil. A topografia acidentada, aliada às altas temperaturas e umidade, tinha no conilon uma das poucas alternativas rentáveis para os produtores rurais.
Mas não foi apenas a falta de opção dos produtores que levou o conilon a despontar no Espírito Santo. Destaca-se, em primeiro lugar, a forma de organização da produção rural. A maior parte dos cafés capixabas é oriunda de propriedades familiares com menos de 50 hectares. Ela utilizam principalmente a meação como mão de obra. Os meeiros moram nas propriedades e dividem o trabalho, assim como o risco da atividade.
Dado o crescimento do salário dos trabalhadores no campo, a meação tornou-se um importante ganho competitivo para ambos -proprietário e meeiro-, que adotam também a diversificação como forma de maximizar seus ganhos.
Em segundo lugar, esse desempenho se deve à pesquisa e aos investimentos feitos pelos produtores. Nos últimos 15 anos, a produção foi acompanhada por um aumento de mais de 200% na produtividade, que passou da média de 9 para 28 sacas por hectare.
O Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural) tem um papel importante nesse desempenho. Destacam-se o desenvolvimento e a multiplicação de clones de variedades geneticamente superiores, a implantação de jardins clonais nos municípios cafeeiros, a renovação do parque cafeeiro e a disseminação da tecnologia de fertirrigação nas propriedades. Tamanho investimento, porém, não atinge o restante da cadeia produtiva. O fato de o conilon ser considerado um produto de qualidade inferior ao arábica leva pesquisadores e compradores a darem pouca atenção à qualidade. Resultado: pouco cuidado no beneficiamento e secagem dos grãos.
Ao que parece, essa história não vai ficar assim. No mercado internacional, já há quem valorize o café conilon, cujos cuidados e apresentação vêm progressivamente acompanhando o padrão dos mais nobres cafés arábica.
Exemplo é o café da região de Karnatka, na Índia, apreciado e valorizado pelos consumidores. Para que o café capixaba aproveite essas oportunidades, investimentos no restante da cadeia são necessários.
A matéria é de Sylvia Saes, professora do Departamento de Administração da FEA-USP, para o jornal Folha de S.Paulo, adaptada pela Equipe CaféPoint.
E você, o que acha que é preciso para cadeia do conilon superar o desafio de conquistar os consumidores e profissionais como o barista?
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BOA ESPERANÇA - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 21/07/2010
Uma pergunta, não seria a modalidade de integração, séria e éticamente exercida pela indústria de torrefação ou mesmo das tradings do setor de exportação, uma solução para a questão "excelência-preço"?
PATROCÍNIO - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 21/07/2010
Belo debate!
Gostaria de abordar 3 pontos como contribuição:
1) O grande desafio de qualquer negócio é o de bem comercializar, pois envolve controle do processo produtivo, conhecimento do seu produto e marketing. Na medida que o produtor tem, principalmente, maior conhecimento do que está vendendo, melhora sua comunicação com o mercado (= marketing). Claro deve ficar que é necessário dedicação constante e grande objetividade nas ações para o sucesso, preferencialmente em modelo de coletividade.
2) O mercado é muito dinâmico e a busca por alternativas de matérias-primas ou para o lançamento de novos produtos irá continuar permanentemente. E cada dia se torna ainda mais competitivo, isto em todos os setores. O Conilon e o Robusta já conquistaram seu espaço no café, devendo conviver harmonicamente com as sempre apreciadas variedades de arabica. Isto caminha muito mais para sinergia do que para uma batalha campal. Portanto, melhorar a qualidade é o primeiro passo para a conquista do mercado.
3) Um bom Conilon ou Robusta sempre será melhor e preferível a um sofrível arabica, seja ele um Mundo Novo, Icatu ou mesmo um Bourbon. Para que o consumo siga vigoroso em seu crescimento é importante que produtos voltados para os consumidores mais sensíveis aos preços sejam melhorados e até reposicionados. Dar a oportunidade de consumir algo agradável é fundamental para despertar o interesse por produtos de maior valor e conceito mais sofisticado. Fazer bem feito é sempre desejável. Ganha o mercado, ganha o produtor, ganham todos.
Ah, só para finalizar: experimentei o Karnatka há 5 anos atrás e fiquei impressionado pela sua qualidade. Quando voltei ao Brasil comentei com o Renato Fernandes, da Bahia, que de pronto me apresentou amostras de cafés conilon muito bem preparados e que se mostraram muito bons na xícara. Portanto, pessoal, o caminho está aberto e é questão de empreender.
Grande abraço
Ensei Neto

LINHARES - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 20/07/2010
Cleia,
De tudo que se discutiu até agora sobre qualidade de conilon, sua sugestão é merecedora de destaque e vai abrir com certeza novas portas para o conilon de qualidade. Havendo demanda por este café, isto vai refletir no preço e o produtor poderá investir com maior segurança, o que não é possível fazer hoje.
Nos do conilon somos gratos à sua contribuição.

PROVA/ESPECIALISTA EM QUALIDADE DE CAFÉ
EM 20/07/2010
Muito já está se fazendo para termos café conilon de qualidade aqui no Brasil e me lembro muito bem de ter discutido isso ano passado com o Arthur Fiorott. Quem já teve a oportunidade como eu de fazer um espresso com um blend composto com conilon de qualidade, sabe do que eu estou falando, e se não sabe, deveria procurar e provar. Vai se surpreender!
Mas para os baristas mudarem sua visão sobre um um blend com café conillon de boa qualidade, precisamos ter produtores que acreditem no mercado que tem, e empresas que apostem nestes blends.
O caminho eu acredito não será fácil, mas é cada vez mais possível, e viável.
Eu mudei minha visão, mas porque estou sempre disposta a provar, provar e provar!
Eu creio que o desafio está em convencer mais e mais baristas a provarem estes blends e às cafeterias com torrefação a aceitar um desafio: o de compor um blend com cafés conilon de qualidade e ofertarem aos seus clientes.
É uma excelente oportunidade para quem quer investir por exemplo em cafés categoria superior! Deixo aqui o desafio!

MUQUI - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 17/07/2010
MIMOSO DO SUL - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 15/07/2010

VILA VELHA - ESPÍRITO SANTO
EM 15/07/2010
Apoio o Sr. Thomazini, é hora de acreditar e arregaçar as mangas

LINHARES - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 14/07/2010
Você sabe que os procedimentos básicos para colher um café de qualidade é de conhecimento de quase todos os cafeicultores. Nos últimos três anos a qualidade do conilon melhorou muito, hoje poucos produtores colhem café verde. O nosso problema está no processo de secagem. O normal é aumentar a área plantada mantendo a mesma estrutura de secagem, e a cada ano que passa a relação quantidade de café produzido/secador vai aumentando. O próprio mercado não estimula o produtor investir em infra-estruturar. O preço de uma saca é o mesmo, independente do tempo de secagem. Sob esta ótica o produtor não está errado. Com o dinheiro de uma nova unidade de secagem ele planta mais cinco hectares. E a coisa vai rolando.
Quando você fala de um deságio de 50% para um café de terreiro, a princípio parece mentira, mas é verdade, entretanto, esta diferença não chega ao produtor. Este café, com certeza, vai atender a um mercado extremamente restrito. Por um deságio de 25% seríamos capazes de produzir anualmente, mais de um milhão de sacas de café conilon de altíssima qualidade. A questão não é produzir, e sim, a quem vender. Já formulamos está proposta a diversas empresas exportadoras, não encontramos compradores. Hoje, o mercado para esse tipo de café é muito pequeno, este é o problema. A questão é a seguinte: se eles conseguem através dos procedimentos eletrônicos separar dos cafés existentes, cafés de qualidade e em quantidade suficiente para atender o mercado. Por que pagar mais caro pelo nosso café. Em curto prazo a solução para o produtor de conilon é alta produtividade associada a um baixo custo de produção.
VITÓRIA - ESPÍRITO SANTO
EM 14/07/2010
Realmente hoje não é fácil vender Conilon de qualidade com um prêmio que deixe o produtor contente, porém discordo em partes da sua afirmação que fazer café de qualidade aumenta o custo. Na maioria das vezes podemos observar muitas perdas no processo de pós colheita que podem ser evitadas com a melhoria do processo. O ajuste de manejo de produção e pós colheita podem ajudar a diminuir o custo. Porém, quando falamos de investimento, você está correto. Creio que seja uma questão conceitual. Para produzir com melhor qualidade é necessário readequar a estrutura das propriedades e para isso é necessário investimento, mas do ponto de vista de custo por unidade produzida, é possível trabalhar com o mesmo custo atual ou até menor.
Essa semana tivemos notícias que um a Cooperativa do Norte capixaba fez vendas de Conilon Natural (terreiro) à R$230,00/sc de 60 kg. Isso nos dá um indicativo que já podemos agregar muito valor com a estrutura que já temos em algumas propriedades.

VIÇOSA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 14/07/2010
Os comentários de Mara Luiza Gonçalves Freitas, intitulado "Café conillon: 'O boi de piranha'", primeiramente publicado na revista Cafeicultura, e agora disponível no Peabirus, são muito pertinentes a este debate.
Saudações
Rena

CONCEIÇÃO DO CASTELO - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 14/07/2010
COLATINA - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 14/07/2010
Vemos no campo um grande interesse dos produtores em agregar valor ao produto, melhorando a qualidade pós colheita. Porém realmente, as melhorias em preço do café robusta superior não chegam à propriedade, não compensando os acréscimos nos custos de produção, seja em mão de obra, energia ou tempo.
Acredito que o processo passa pela união dos produtores em associações ou coopereativas, aumentando os volumes de qualidade além do fortalecimento nas decisões mais importantes, como a busca por um mercado mais transparente e justo.

LINHARES - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 13/07/2010

VIÇOSA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 13/07/2010
Ponto para o CafePoint ao abrir este debate sobre a dupla conilon x arábica. Se levado com respeito e sinceridade pelos debatedores, renderá muitos frutos de qualidade e mostrará que as coisas não são incompatíveis. São apenas diferentes nalguns aspectos, como são as cervejas, os vinhos, os cigarros etc. Há espaço para todos, respeitadas as peculiaridades e o gosto de cada um, que pode ser conquistado, por que não?
Rena

LINHARES - ESPÍRITO SANTO - PROVA/ESPECIALISTA EM QUALIDADE DE CAFÉ
EM 13/07/2010
Gostaria de parabenizar a senhora Sylvia Saes pelo relato da cadeia do Conilon no Estado do Espirito Santo.
O cafe robusta de Uganda ja e vendido a um valor acima do cotado em Londres, os cafes da variedade Robusta da Indonesia, especialmente da Ilha de Java ja sao valorizados, os cafes da India ( das regioes afetadas pelas moncoes) ja sao valorizados no mercado.
Realmente os cuidados na colheita e no pos colheita para os cafes conilon deixam a desejar, os produtores precisam melhorar bastante nesse quesito. Contudo ja tem produtores fazendo qualidade semelhante ou melhor do que os cafes que disse acima, porem concordo que falta volume para entegar ao mercado.
Um reposicionamento de imagem do conilon e necessario, ou seja, e necessario fazer branding desse produto.
A comparacao com o cafe arabica e importante, porem os cafes robusta possuem caracteristicas diferentes dos arabicas, sendo necessario avaliacoes especificas para esse cafe.
Acredito que essas sao algumas dicas para melhorarmos a qualidade dessa variedade.
VITÓRIA - ESPÍRITO SANTO
EM 13/07/2010
Sabemos, através de estudos, que o Conilon tem condições de atender às exigências de qualidade do mercado, mas além da atenção especial no processo produtivo, o aperfeiçoamento do processo de comercialização, cadeia de suprimento e competitividade podem ajudar muito a acelerar a evolução do mercado para Conilon de qualidade.
Programas estruturados de apoio ao cafeicultor, com orientações, treinamentos e visitas técnicas são extremamente importantes. Da mesma forma, esses programas devem contemplar atividades "fora da porteira" buscando a estruturação da comercialização desses cafés diferenciados, assim como criar uma imagem positiva desse produto. A utilização de conceitos de gestão de negócios, aliada ao conhecimento técnico para a produção de cafés de qualidade são indispensáveis para o sucesso desses programas. As cooperativas e associações também são extremamente importantes nesse processo.
Em resumo podemos dizer que os passos são os mesmos seguidos no passado pelos produtores, cooperativas e associações de café arábica.
Com o desenvolvimento de um bom produto e uma boa gestão do processo dentro e fora da porteira, o Conilon certamente terá sua diferenciação POSITIVA frente ao consumidor e aos profissionais do mercado.