[O texto a seguir é a continuação da entrevista com o engenheiro Eduardo Carvalhaes, da tradicional empresa de exportação de cafés Escritório Carvalhaes, publicada na edição de junho-julho-agosto de 2025 da Revista Espresso. Optamos por reproduzir, da edição impressa, a introdução ao bate-papo].
Foto: Agência Ophelia
Com mais de 40 anos no setor cafeeiro e à frente, com o irmão Nelson, do centenário Escritório Carvalhaes, em Santos, Eduardo Carvalhaes é uma das vozes mais respeitadas da cafeicultura brasileira.
Na conversa com a Espresso, ele analisa as mudanças que transformaram o comércio do café, o novo papel do exportador e os impactos das novas tecnologias e novas exigências globais. Testemunha ocular da história recente do grão no país, ele acompanhou o fim do Instituto Brasileiro do Café, o surgimento do mercado livre, os anos de inflação alta e a estabilização da economia com o Plano Real.
Entre dados, memórias e visão de futuro, Carvalhaes comenta sobre o Brasil, seu papel como liderança mundial e seus desafios, e revela o sonho de ver os 300 anos da chegada do café ao Brasil sendo devidamente comemorados. Para ele, o país reúne clima, cultura, pesquisa e técnica, mas corre riscos se não investir em pesquisa, leis claras e visão estratégica para enfrentar a realidade do mercado atual. Confira a entrevista a seguir, feita ao vivo em Santos.
Em meio a tantas incertezas, o que você diria para produtores que estão começando a plantar café ou querendo expandir a produção?
Acho que o conhecimento já existe. Há no Brasil uma rede de agrônomos e instituições de pesquisa, escolas, como a Esalq, a Embrapa, o Instituto Agronômico de Campinas. Este é o grande diferencial dos cafés do Brasil.
Então, a primeira coisa é ter conhecimento da tecnologia de hoje. É inviável um produtor fazer o que existia há 20, 30 anos. Me lembro, há muito tempo, de ver uma palestra no Paraná de um especialista em cafés sobre cuidados na lavoura. Quando ele terminou a palestra, um produtor antigo da região falou: “olha, o senhor me desculpe, muito bonito, mas eu não faço assim como o senhor falou. Faço como meu pai fazia, e meu avô já fazia assim. É uma tradição da família”. Aí a resposta do especialista foi: “olha, quero dizer para o senhor que vocês estão errando há três gerações”.
Isso mudou. A diferença do Brasil é a tecnologia no café. O produtor precisa estudar, entender de terroir, rastreabilidade, qualidade. Hoje, o improviso não funciona mais. É um negócio técnico, exigente, e quem quiser começar tem que estar muito bem preparado e assessorado. (1199)
Como você vê a situação brasileira hoje em termos de pesquisa e, particularmente, a intenção, pelo governo, de venda da fazenda Santa Elisa, em Campinas?
O Estado de São Paulo foi pioneiro em pesquisa e enriqueceu com o café. O conhecimento sempre foi uma prioridade em São Paulo e tem que continuar a ser. Precisamos investir cada vez mais em pesquisa. E pesquisa, muitas vezes, tem que ser pura, não necessariamente aplicada.
Sou um defensor do Instituto Agronômico de Campinas. É preciso reinvestir, colocar dinheiro na mão dos pesquisadores, dar estrutura para que trabalhem. Sobre a terra que querem vender, da fazenda Santa Elisa, sou radicalmente contra. Dizem que é a parte que fica do outro lado da estrada, mas ali está a parte histórica, o acervo de cafeeiros mais importante do mundo. Conversei com o pessoal do IAC e eles dizem que toda a área é utilizada.
O IAC, fundado por D. Pedro II, é um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento, político e econômico, do estado de São Paulo no século XX. É um patrimônio histórico do estado de São Paulo e do Brasil. Tem de ser preservado.
Se tiver alguma área que não seja mais usada, que se transforme num parque, mas um parque ligado à história do café. Fazer um bairro residencial ali seria um absurdo. Vai haver invasão das terras usadas para pesquisa, pode alterar o microclima, a direção dos ventos, o regime de sol, tudo isso em razão de prédios. (1411)
O Boletim Carvalhaes, semanal, é publicado desde 1933, e lido por todo o setor de café. O que é preciso para fazer uma boa análise do mercado?
Sempre li muito, acho que o conhecimento fora do café é muito importante. Vejo muita gente focada só no que está acontecendo no café, esquecendo que ele faz parte da economia brasileira e mundial, da cultura. Outra questão é o problema da síntese. Tento nas cinco, seis primeiras linhas do boletim traduzir o que aconteceu. Os produtores gostam disso, porque ninguém mais tem tempo para ler nada. Esse também é outro problema. Aliás, o boletim tem, desde o começo, só uma página. Objetividade. Acho que o boletim é um resumo do que aconteceu numa determinada semana e que deve ficar para a história. É um resumo também para quem não é do mercado, pois não entro em detalhes técnicos. Ele vai sendo formado na minha cabeça a semana inteira. Na sexta, faço algumas leituras, consulto o boletim anterior e, aí, ele sai. Outra coisa que percebo é que, quando alguém está sem tempo e precisa correr para pegar uma informação com credibilidade, pega no boletim. Escrevo o boletim desde meados dos anos 1990. Quem escrevia antes era um primo-irmão do meu pai, ele se aposentou, parou de escrever, e eu peguei o boletim do dia para a noite. E parecia fácil, viu? Mas condensar tudo num boletim…
Na época em que ele surgiu, em 1933, tinha histórias de família nele. Meus tios Álvaro e Nelson, que o redigiam na sexta para publicá-lo no sábado, brigavam porque cada um queria escrever do seu jeito, às vezes tinham opiniões diferentes. Daí, chegavam a um consenso e o boletim saía. Eles rodavam o boletim num mimeógrafo, em casa. Pegavam filhos e sobrinhos para dobrar o boletim, um a um, colocar no envelope com o logotipo do escritório, e, na segunda de manhã, o boletim ia para o correio. Quer dizer, o produtor ia receber só no outro fim de semana. Atualmente, imprimimos apenas três exemplares para nosso arquivo. Temos, encadernada, a coleção completa. (1989)
E como é que foi o seu trabalho com o Museu do Café? E o que esse trabalho representa hoje para vocês?
Hoje, sou conselheiro do museu. Tempos atrás, o centro de Santos estava esvaziando. Então, a liderança do comércio varejista montou um grupo para trabalhar nessa questão e me convidou para participar. Depois de estudos, descobrimos que realmente tínhamos que trabalhar para o centro. São Paulo tinha acabado de montar a Associação Viva o Centro, inspirada na associação que atuou na restauração do centro histórico da cidade de Boston, e eles nos ajudaram a montar uma em Santos, a Associação Centro Vivo, da qual me tornei presidente. A ideia era ter o apoio da população, montar um museu a céu aberto e revitalizar a economia do centro.
Logo depois de fundada a Associação, recebi a visita de um arquiteto especializado em restauração, e ele disse que a torre da Bolsa Oficial do Café corria risco de desabar. Fizeram um estudo para nós com fotos e me encarreguei de cuidar do assunto. Conversei com autoridades locais e entreguei cópia do estudo para um assessor do governador Mário Covas, recém-eleito. Mais tarde, encontrei a filha do Mário Covas, Renata, que enviou uma cópia do estudo para o pai. Logo depois, um representante do governo avisou que o prédio seria restaurado, mas que a contrapartida do comércio de café era instalar nele um Museu do Café.
Tivemos de montar uma associação de amigos. Tem muita história no meio, mas o fato é que liguei para um monte de gente em São Paulo, de entidades como Abic, Abecafé, Abics, Sociedade Rural Brasileira, Sindicafesp, CNA, CNC, juntei os segmentos todos e instalamos a associação.
O Museu do Café nasceu em março de 1998, nos andares térreo e mezzanino da Bolsa Oficial de Café. Também fizemos, em 1999, o Centro de Preparação do Café, com o apoio do Sindicafesp, em São Paulo, dirigido na época pelo Nathan Herszkowicz. Conseguimos montar uma cafeteria, que foi um modelo na época. Aí começamos a ter uma renda. Fomos aperfeiçoando o contrato com o Estado e o museu foi crescendo. Acabei sendo o rosto do movimento, mas dezenas de lideranças e entidades trabalharam no processo.
Sempre digo que o maior acervo do Museu do Café é o prédio, que é único no mundo. Você vai achar palácios muito mais bonitos, muito mais ricos em qualquer cidade europeia, mas com essa história, de ser um prédio construído pelo dinheiro do café para fazer uma bolsa de café, uma avançada comercialização, na frente do maior porto exportador de café do mundo, é única.
Mas o museu nunca vai estar pronto. Vai crescer muito, pois temos planos e sonhos. Ano que vem, por exemplo, vamos abrir uma nova exposição de longa duração. O problema de sermos agora uma OS [Organização Social] é que só podemos fazer projetos para um determinado número de anos, porque não sabemos se vamos continuar gerindo o museu ou não. O importante é que o museu está de pé e vai se consolidar e crescer mais, ano após ano.