O cenário mantém o mercado em alerta. Em entrevista à Reuters na segunda-feira (13), o diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Celírio Inácio da Silva, afirmou que um episódio intenso de El Niño poderá reduzir a produção brasileira entre 15% e 20%, caso o calor excessivo e a irregularidade das chuvas se confirmem durante a florada.
As chuvas incomuns registradas em junho — que especialistas ouvidos pela Reuters avaliam poder já estar relacionadas à atuação do El Niño no Sudeste do Brasil — interromperam a colheita em importantes áreas produtoras de café arábica. Além disso, o excesso de umidade favoreceu a incidência de ferrugem em cultivares mais suscetíveis e elevou as preocupações com a qualidade dos cafés, segundo instituições do setor.
Os levantamentos regionais confirmam esse cenário. Até 10 de julho, levantamento da Cooxupé — que reúne cerca de 22 mil cafeicultores em mais de 370 municípios de Minas Gerais e São Paulo — contabilizou uma colheita de 38,6%, com avanço de 45,1% no Sul de Minas, 40% nas Matas de Minas, 37,8% na Média Mogiana paulista e 28% no Cerrado Mineiro.
No mesmo dia 10, a Expocacer, cooperativa que reúne 805 produtores no Cerrado Mineiro, calculou colheita de 40% da safra, estimada em 2,86 milhões de sacas. No mesmo período de 2025, esse percentual era de 45%. Segundo a cooperativa, o atraso se deve à safra maior prevista para este ano e às chuvas registradas em junho. Com condições favoráveis no início deste mês, as operações de colheita e pós-colheita aceleraram no Cerrado, embora a previsão de novas precipitações em municípios como Patrocínio mantenha os cafeicultores em alerta.
Levantamento do Sistema Faemg/Senar, divulgado em 8 de julho com base em cerca de 900 propriedades assistidas pelo programa ATeG, apontou situação semelhante no Sul de Minas, onde apenas 30% da colheita havia sido concluída, contra 52% no mesmo período da safra anterior. Segundo os técnicos de campo, 97% das propriedades relataram atrasos provocados pelas chuvas de junho.
Na Alta Mogiana, a Cocapec também registrou impactos do excesso de precipitações. Segundo o gerente comercial da cooperativa, William Feiria, "em junho, a colheita praticamente não andou". Embora a expectativa seja acelerar os trabalhos nas próximas semanas, a cooperativa, que reúne cerca de 3 mil cooperados em 18 municípios de São Paulo e Minas Gerais, já observa aumento na ocorrência de cafés fermentados, ainda que sem crescimento significativo de cafés riados.
Café conilon
A Cooabriel, responsável por cerca de 15% da produção de conilon do Espírito Santo e que reúne 9,7 mil cooperados no Estado e no sul da Bahia, informou no fim de junho que a colheita avançava para cerca de 70% de sua área de atuação e deverá ser concluída até o fim deste mês. Em março, a cooperativa projetou redução de até 15% na safra de seus cooperados.
Mercado segue em alerta
Com a colheita ainda em andamento, o mercado voltou a concentrar as atenções não apenas na qualidade dos cafés recém-colhidos, mas também nos possíveis efeitos do El Niño sobre o próximo ciclo produtivo.
Em sua análise mais recente, o Cepea alerta que temperaturas mais elevadas nos próximos meses poderão comprometer a florada e o enchimento dos grãos da safra 2027/28. Com estoques globais ainda reduzidos, a recuperação da produção brasileira continua sendo considerada fundamental para recompor a oferta mundial de café arábica.
A preocupação ganhou força após declarações do diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Celírio Inácio da Silva. Em entrevista à Reuters, ele afirmou que um episódio intenso de El Niño poderá reduzir a produção brasileira entre 15% e 20%, caso o calor excessivo e a irregularidade das chuvas se confirmem durante a florada.
No Espírito Santo, onde a produção de conilon deverá recuar cerca de 15% neste ano em razão da bienalidade da cultura, produtores já demonstram preocupação com os possíveis reflexos do fenômeno climático sobre a próxima safra. Em entrevista à Reuters, o presidente da Cooabriel, Luiz Carlos Bastianello, afirmou que os cafeicultores temem o prolongamento dos períodos de seca e de calor intenso até janeiro de 2027. "O calor é o principal risco para uma quebra acentuada da safra. A partir de 27°C, o canéfora reduz o metabolismo e, aos 35°C, ele o suspende", disse. Bastianello ponderou, contudo, que ainda é cedo para estimar os impactos do El Niño sobre a safra de 2027.