Colheita do café ganha ritmo, mas segue atrasada nas principais regiões produtoras

Levantamentos de cooperativas mostram retomada da colheita em julho, mas o atraso provocado pelas chuvas de junho mantém o mercado atento à qualidade dos cafés e aos riscos climáticos para a próxima safra

Publicado em: - 3 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

A colheita da safra brasileira de café voltou a acelerar no começo de julho, com o retorno do tempo seco nas principais regiões produtoras. Levantamentos divulgados por cooperativas e pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) indicam, porém, que os trabalhos continuam atrasados em relação ao mesmo período do ano passado, após um junho marcado por chuvas acima da média.

O cenário mantém o mercado em alerta. Em entrevista à Reuters na segunda-feira (13), o diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Celírio Inácio da Silva, afirmou que um episódio intenso de El Niño poderá reduzir a produção brasileira entre 15% e 20%, caso o calor excessivo e a irregularidade das chuvas se confirmem durante a florada.

As chuvas incomuns registradas em junho — que especialistas ouvidos pela Reuters avaliam poder já estar relacionadas à atuação do El Niño no Sudeste do Brasil — interromperam a colheita em importantes áreas produtoras de café arábica. Além disso, o excesso de umidade favoreceu a incidência de ferrugem em cultivares mais suscetíveis e elevou as preocupações com a qualidade dos cafés, segundo instituições do setor.

Os levantamentos regionais confirmam esse cenário. Até 10 de julho, levantamento da Cooxupé — que reúne cerca de 22 mil cafeicultores em mais de 370 municípios de Minas Gerais e São Paulo — contabilizou uma colheita de 38,6%, com avanço de 45,1% no Sul de Minas, 40% nas Matas de Minas, 37,8% na Média Mogiana paulista e 28% no Cerrado Mineiro.

No mesmo dia 10, a Expocacer, cooperativa que reúne 805 produtores no Cerrado Mineiro, calculou colheita de 40% da safra, estimada em 2,86 milhões de sacas. No mesmo período de 2025, esse percentual era de 45%. Segundo a cooperativa, o atraso se deve à safra maior prevista para este ano e às chuvas registradas em junho. Com condições favoráveis no início deste mês, as operações de colheita e pós-colheita aceleraram no Cerrado, embora a previsão de novas precipitações em municípios como Patrocínio mantenha os cafeicultores em alerta.

Levantamento do Sistema Faemg/Senar, divulgado em 8 de julho com base em cerca de 900 propriedades assistidas pelo programa ATeG, apontou situação semelhante no Sul de Minas, onde apenas 30% da colheita havia sido concluída, contra 52% no mesmo período da safra anterior. Segundo os técnicos de campo, 97% das propriedades relataram atrasos provocados pelas chuvas de junho.

Na Alta Mogiana, a Cocapec também registrou impactos do excesso de precipitações. Segundo o gerente comercial da cooperativa, William Feiria, "em junho, a colheita praticamente não andou". Embora a expectativa seja acelerar os trabalhos nas próximas semanas, a cooperativa, que reúne cerca de 3 mil cooperados em 18 municípios de São Paulo e Minas Gerais, já observa aumento na ocorrência de cafés fermentados, ainda que sem crescimento significativo de cafés riados.

Café conilon

A Cooabriel, responsável por cerca de 15% da produção de conilon do Espírito Santo e que reúne 9,7 mil cooperados no Estado e no sul da Bahia, informou no fim de junho que a colheita avançava para cerca de 70% de sua área de atuação e deverá ser concluída até o fim deste mês. Em março, a cooperativa projetou redução de até 15% na safra de seus cooperados.

Mercado segue em alerta 

Com a colheita ainda em andamento, o mercado voltou a concentrar as atenções não apenas na qualidade dos cafés recém-colhidos, mas também nos possíveis efeitos do El Niño sobre o próximo ciclo produtivo.

Em sua análise mais recente, o Cepea alerta que temperaturas mais elevadas nos próximos meses poderão comprometer a florada e o enchimento dos grãos da safra 2027/28. Com estoques globais ainda reduzidos, a recuperação da produção brasileira continua sendo considerada fundamental para recompor a oferta mundial de café arábica.

A preocupação ganhou força após declarações do diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Celírio Inácio da Silva. Em entrevista à Reuters, ele afirmou que um episódio intenso de El Niño poderá reduzir a produção brasileira entre 15% e 20%, caso o calor excessivo e a irregularidade das chuvas se confirmem durante a florada.

No Espírito Santo, onde a produção de conilon deverá recuar cerca de 15% neste ano em razão da bienalidade da cultura, produtores já demonstram preocupação com os possíveis reflexos do fenômeno climático sobre a próxima safra. Em entrevista à Reuters, o presidente da Cooabriel, Luiz Carlos Bastianello, afirmou que os cafeicultores temem o prolongamento dos períodos de seca e de calor intenso até janeiro de 2027. "O calor é o principal risco para uma quebra acentuada da safra. A partir de 27°C, o canéfora reduz o metabolismo e, aos 35°C, ele o suspende", disse. Bastianello ponderou, contudo, que ainda é cedo para estimar os impactos do El Niño sobre a safra de 2027.

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Equipe CaféPoint

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe CaféPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.