O primeiro-ministro Ahmed Abiy não nega as ambições expansionistas, como tampouco esconde sua insatisfação com o fato do país não ter acesso ao mar e aos poucos recursos hídricos. A consequência disso é um aumento de tensões com os vizinhos do leste, por conta da saída para o Golfo de Aden, mas também com países ao norte, como Sudão e Egito, pelo controle dos recursos hídricos do Nilo.
Enquanto a Etiópia entende que a construção da Grande Barragem do Renascimento é vital para o seu desenvolvimento econômico, egípcios e sudaneses ficaram extremamente preocupados com a possibilidade de perder uma parte da água proveniente das montanhas etíopes.
Além disso, logo após a vitória do conflito na região do Tigray, novos conflitos internos emergiram nas regiões de Oromia e Amhara – nada menos do que duas das maiores regiões do país. Nestes casos, diferenças étnicas, baixa presença do governo e problemas econômicos são as principais causas de confrontos.
Em um primeiro momento, a desorganização e a instabilidade causadas por esses conflitos terão impacto direto na produção de café local, já que a região de Oromia é uma das principais produtoras do país e conta com uma das maiores cooperativas do mundo em número de associados.
Segundo, há uma grande questão quanto à exportação do café. Com uma logística que já é complicada em tempos relativamente estáveis, levando por volta de três semanas para exportar o café através do país vizinho, o Djibuti, a Etiópia segue dependente de um porto estrangeiro para escoar sua produção.
Terceiro, tanta instabilidade tem como consequência a dificuldade de planejar e investir na produção. A renovação dos cafeeiros do país se mostra urgente. E por último, a inflação, que é uma consequência direta de todos estes problemas. No país, a renda per capita, ajustada pelo poder de compra, é de US$ 3 mil anuais – pouco mais de dez por cento da renda brasileira, que atualmente está em US$ 20.500, segundo dados do Banco Mundial.
Portanto, mais um outro conflito ligado à uma saída etíope para o mar, envolveria Somália, Eritréia, Djibuti e se somaria a outras crises regionais, como as do Iêmen, do Irã e do Sudão, com a totalidade dos Estados da região em algum tipo de instabilidade.
Por ser um conflito aberto contra paramilitares internos em Oromia e Amhara, e um conflito não declarado com os vizinhos, a questão parece não levantar muito interesse internacional, talvez porque ainda não tenha afetado as rotas de navegação pelo mar Vermelho.
Mesmo que algo maior na Etiópia aconteça, o envolvimento de países externos tende a ser menor. Apesar de a Otan possuir três bases militares em Djibuti, o conflito ucraniano é a prioridade no momento. E os Estados Unidos têm se mantido indiferentes à situação na região desde a eleição de Donald Trump.
O presidente norte-americano tem sido enfático ao demonstrar sua falta de interesse em países do continente, com exceção daqueles que possam providenciar recursos naturais como petróleo, gás e terras raras, o que não é o caso da Etiópia.
Até agora, todas estas instabilidades parecem não alterar a cadeia do café etíope, já que, segundo estatísticas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e da Organização Internacional do Café, a produção tem se mostrado resiliente, chegando até mesmo a aumentar nos últimos anos.
Se por um lado parece inevitável que o conflito escale, por outro a cadeia do café local parece se mostrar não só estável como próspera. Pode-se perguntar, portanto, se os agricultores locais possuem uma resistência heróica, se os envolvidos na cadeia local já aprenderam a trabalhar sob a pressão das crises ou se as estatísticas que demonstram um crescimento estão equivocadas. Nada impede que mais de uma alternativa seja correta.