Rotulagem e os cafés especiais

Rotular um produto é dizer ao consumidor através de um selo ou etiqueta o conteúdo da embalagem com informações que sejam relevantes para a compra do mesmo. Em minha opinião, e no caso do café, a rotulagem deveria assegurar um padrão mínimo de qualidade e segurança alimentar na bebida café. De certo modo, a IN16 atende esta demanda, apesar de não ser um programa de certificação e de não colocar um rótulo "IN16" nas embalagens de café.

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Rotular um produto é dizer ao consumidor através de um selo ou etiqueta o conteúdo da embalagem com informações que sejam relevantes para a compra do mesmo.

A rotulagem é sim um tema fundamental para qualquer tipo de produto no agronegócio, afinal, estamos vivendo plenamente a era da informação. Pela primeira vez na história, os seres humanos possuem mais informação do que são capazes de lidar. Esta informação navega por diversos meios, físicos e digitais até chegar à mente do consumidor.

Quanto mais informação o consumidor tem, mais exigente ele fica quanto à qualidade dos produtos que consome. Por isso, passar informações com credibilidade e precisão são fundamentais.

A rotulagem de produtos é portanto uma tendência muito forte e diversas ações nesse sentido estão acontecendo em diversas cadeias do agronegócio. Mas o que estas normas e procedimentos definem é um PADRÃO MÍNIMO DE QUALIDADE. E normalmente, a preocupação principal dos governos é com a SEGURANÇA ALIMENTAR. Ou seja, os produtos oferecidos à população não causam danos à saúde humana.

Em minha opinião, e no caso do café, a rotulagem deveria assegurar um padrão mínimo de qualidade e segurança alimentar na bebida café. De certo modo, a IN16 atende esta demanda, apesar de não ser um programa de certificação e de não colocar um rótulo "IN16" nas embalagens de café.

Agora, o gosto e a preferência pelos tipos de café devem continuar sendo decididos pelos consumidores. Se o consumidor gostar do sabor, ele vai querer mais.

E sabe por quê? Porque as preferências de cada um variam de acordo com a cultura, hábitos, conhecimento, educação e uma série de outros fatores intangíveis. Os árabes gostam da bebida riada. Os americanos gostam de tomar café "de balde". Os italianos preferem o espresso. O brasileiro ama um café bem coado, encorpado e aromático. Para cada povo, existe uma bebida ideal. Quem está certo e quem está errado? Ninguém.

Cabe aos fornecedores de café do mundo todo, produtores, torrefadores e cafeterias atenderem aos desejos dos consumidores e ao mesmo tempo buscar influenciar seus hábitos de consumo. É claro, cada um buscará sempre a melhor vantagem competitiva. Um exemplo emblemático disto é a Starbucks, responsável pela explosão no consumo de cafés especiais em diversos países.

Agora, vamos analisar a questão da rotulagem em cafés especiais, gourmet, diferenciados e etc. Estes cafés estão posicionados de forma diferente no mercado. Estes possuem atributos considerados "especiais", que não são comumente encontrados em produtos similares, da mesma categoria.

O grande entrave ao rotular estes produtos é que suas características são tão específicas que estabelecer claramente suas qualidades seria muito oneroso. Justamente porque muitas vezes estas características são subjetivas e dependem daquela que as classifica. Veja um exemplo, o que é um café socialmente justo? O que é um café gourmet? O consumidor comum pode perceber as nuances de aroma e sabor que um cupper profissional pode?

Estes cafés também precisam de estratégias especiais de marketing e de comunicação com o mercado. E este é um dos fatores que ajuda com que sejam considerados "especiais". O maior exemplo disto é a Nespresso e sua gama de sabores espetaculares. A Nespresso conseguiu, por exemplo, vender um tipo de café cujo conteúdo seria menosprezado por boa parte dos especialistas de café no mundo: aproximadamente 70% de café Robusta. O preço de cada cápsula no Brasil? R$ 3,00. Uma quebra de paradigma, não acha?

Tudo isto é resultado de uma seleção cuidadosa dos fornecedores e uma estratégia de marketing e comunicação fantástica. Se é bom ou ruim, deixe o consumidor decidir. Este tipo de café Nespresso faz muito sucesso na Tailândia, onde a maioria dos consumidores gosta de misturar seu sabor marcante ao leite.

Outro ponto importante é que ao rotular todos os tipos de café, incluindo complexas análises sensoriais, se acaba a vantagem competitiva que muitas associações de produtores estão desenvolvendo, justamente ao promover as características únicas de seus cafés. Sejam elas baseadas em atributos sensoriais ou na região de origem. Sem contar que podemos correr o risco de caprichar tanto nas informações que os consumidores não entenderão nada. Pergunte para alguém num supermercado da capital o que é um "café bebida dura"...

Outro detalhe importante que é bom ter sempre em mente. Se eu sou o dono do meu "rótulo", se eu controlo minha produção, meu marketing e distribuição, eu sempre poderei fazer o que quiser com meu produto. As indicações geográficas entram nesta categoria.

Minha recomendação final é procurar o rótulo ideal para seu produto. Aí fica a pergunta, onde eu quero colocar o meu café mesmo? Na xícara especial de qual consumidor?

Deixemos esta reflexão.

Leia mais sobre o assunto:

Paulo Henrique Leme fala de rotulagem de café especial

Desafios da cafeicultura no marketing: Os Novos Cafés do Brasil
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Material escrito por:

Paulo Henrique Leme

Paulo Henrique Leme

Professor na Universidade Federal de Lavras na área de marketing e empreendedorismo, mestre e doutor na área de Estratégia, Marketing e Inovação. Consultor em marketing e estratégia no agronegócio, especializado em café, certificações e origem.

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Paulo Henrique Leme
PAULO HENRIQUE LEME

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 08/02/2011

Caro Nelson,

Com certeza a IN16 pode se tornar uma ferramenta em prol da qualidade. Ela não será a solução para todos os problemas, mas é muito importante.

Apenas para esclarecer um ponto. Defendo que toda e qualquer certificação de cafés "especiais" ou "gourmet" seja feita por certificadoras e associações de classe. Na minha opinião, não é o papel do governo fiscalizar a qualidade dos produtos gourmet oferecidos no mercado. Já imaginou se o governo italiano resolvesse fiscalizar todos os tipos de vinhos produzidos na Itália por suas qualidades organolépticas?

Fazer marketing da alta qualidade é um investimento muito caro. Para atingir novos mercados e consumidores dispostos a pagar é preciso muita estratégia de vendas e posicionamento do produto.

Muito obrigado pelo comentário!

Um abraço,

Paulo Henrique Leme
Paulo Henrique Leme
PAULO HENRIQUE LEME

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 08/02/2011

Caro Fernando,

Concordo com muitos pontos mencionados por você. Confesso que não conheço a fundo a IN16, e meu objetivo foi apenas analisá-la como uma forma de estabelecer critérios de qualidade no mercado de café. Sob esta ótica, ela é excelente. Que ela enfrentará problemas para ser implementada, também não há dúvida. O fato é que ela pode ser uma ferramenta poderosa para todas pessoas que acreditam na qualidade.

Um abraço,

Paulo Henrique Leme
Nelson Barrizzelli
NELSON BARRIZZELLI

ANDRADAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 07/02/2011

Meus prezados. Por mais que se critique as dificuldades para a implantação da IN16 ela é um passo importante para a moralizáção do mercado de cafés especiais. E a ABIC deu um passo gigantesco nessa direçcão, apesar de todas as críiticas e pressões contrárias. Por ser cafeicultor, procurei agregar valor ao meu produto com uma marca de café gourmet. Como nunca comercializei cafés processados (só verde), fiquei assombrado com a "picaretagem" que campei na comercialização de café processado no Brasil. Já encontrei cafés riados com o rótulo de café gourmet. O resultado final é que o consumidor continua sem saber o que efetivamente significa um café de qualidade, uma vez que vários "gourmets" disponíveis no mercado são iguais ou piores do que os piores cafés vendidos em almofadas a menos de R$ 8,00 no ponto de venda. Restaurantes que cobram até R$ 180,00 por uma refeição e R$ 4,00 por um café, servem produtos que, em outras circunstâncias, estragariam o almoço ou jantar de pessoas acostumadas a encerrar suas refeições com produtos de alta qualidade. Mas quando indago nesses locais como o consumidor reage a esses cafés, o maitre me olha com surpresa e afirma que nunca ninguém reclama. Minha esperança é que a IN16, algum dia, coloque ordem na casa, com maior ou menor dificuldade, uma vez que dessa forma será possível ensinar o brasileiro a tomar o café verdadeiramente bom e a valorizar esse cafe. Sem minimizar a importância do trabalho da Nestlé no sentido de ensinar o brasileiro a tomar um bom café, quero lembrar que entre seus blends existem cafés importados da China, da Índia e de outros lugares exóticos, sem considerar que os cafés brasileiros que compõem esses blends, foram exportados para a Europa na forma de café verde. Lá foram processados (agregou-se valor fora do país) e voltaram para o Brasil com um preço absolutamente incompatível com a média do mercado brasileiro, onerando, além disso, nossa balança de pagamentos sem nenhuma necessidade.
Fernando de Souza Barros jr.
FERNANDO DE SOUZA BARROS JR.

SÃO PAULO - SÃO PAULO - TRADER

EM 05/02/2011


Prezado Paulo Henrique.

A ABIC correu no Minitério da Agicultura fez a IN16 e pegou a assinatura do Ministro Vagner Rossi nem bem ele tomou posse! Agora o que surprendeu são 2
coisas. 1- O curso e a hablitação dos classificadores que vão atuar na fiscalização
dos cafés nos Supermercados será bancado pela ABIC.2- 2 fiscalizações anuais
em datas pré determinadas! E tudo bancado pela ABIC.
Nós achamos que o direito de fiscalizar será de todo cidadão consumidor e contribuinte que poderá pegar o café e levar no Adolfo Lutz ou em Lavras para a
análise e uma vez caracterizada a fraude a empresa de Torrefação deverá ser punida e até poderá perder seu selo de qualidade tão divulgado.
Quanto a rotulagem eles para não faze-la correram e fizeram a IN 16 e quando
viram que tinham dado um tiro no pé resolveram bancar até a fiscalização segundo um artigo que li! O Preto verde e ardido(PVA) tambem largamente utilizado é o tipo de café que deveria ser jogado fora,expurgado. O ardido por exemplo pode trazer doenças ao ser humana pois absorve fungos e se fomos análizá-lo ele não poderia ser torrado! Me parece segundo estudo que estamos
anlizando que compramos 5% de água no café torrado e moido trazendo prejúiso
ao consumidor! Enfim coisas que só vemos aqui no Brasil. Portanto vamos ficar atentos.

Abraço e até mais.