Conforme se pode observar no gráfico abaixo, o déficit hídrico na região de Varginha - MG no final do mês de setembro era de 220,5 mm.

Fonte: Estações de Avisos Fitossanitários, Boletim de Avisos Nº 109. SETEMBRO/2007, do Ministério de Agricultura Pecuária e Abastecimento SFA/SSV - MG
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Nas duas literaturas citadas a seguir: O livro Cultura De Café No Brasil - Manual de Recomendações. Publicado pelo extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC) em 1985 e no Informe Agropecuário, Ano 11 - n0 126 de junho de 1985. Publicação esta resultado de convênio entre a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG); Escola Superior de Agricultura de Lavras (ESAL) atualmente, Universidade Federal de Lavras; Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); e Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Ambas as literaturas consideram como região marginal para o cultivo de café aquelas que apresentam déficit hídrico na faixa de 150 e 200mm e região inapta para o cultivo regiões que tenham déficit hídrico acima de 200mm. É lógico que dependendo do tipo de solo o dano provocado na cultura do café pelo déficit hídrico pode ser maior ou menor já a partir de 150mm.
Se já estamos com um déficit hídrico acima dos 200mm, na região do sul de Minas há de se prever que a queda da futura safra já está sacramentada, independentemente de vir ou não a chover nos próximos dias. Há de se ressaltar que em todo o estado de Minas Geras a situação é de déficit hídrico elevado no solo e é semelhante a da região sul do estado. Na região da Zona da Mata de Minas, segunda região produtora de café do estado, também está sem chuvas desde o mês de abril, o déficit hídrico se assemelha ao da região sul, mostrado no gráfico anterior. Aliás, a falta de chuvas está generalizada em todo o estado de Minas Gerais.
Esta situação de déficit hídrico me faz lembrar o ocorrido no ano de 1985/1986. Eu estava no meu primeiro ano de trabalho com a cultura de café, como Agrônomo. Naquele ano as chuvas só ocorreram em novembro. O Brasil havia colhido uma safra de 32,50 milhões de sacas em 1986 e no ano seguinte em 1987 colheu 13,5 milhões de sacas.
Como pode ser observado no gráfico abaixo o preço do café disparou. Indo a mais de 220 centavos de dólares por libra peso.

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E como se pode também observar no gráfico a seguir, o preço da saca de café ao nível de produtor se elevou consideravelmente em dólares.

Fonte: IBGE, 2007
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Como profissional que trabalha e estuda a cultura do café em todas as suas fases e os seus aspectos econômicos e sociais, não posso garantir que o mesmo efeito no preço irá acontecer na atualidade. Mas há uma grande probabilidade de acontecer o mesmo que naquela época, no entanto algumas ponderações devem ser levadas em consideração, vejamos:
• Em 1985/1986/1987 os estoques de café tanto no Brasil como nos demais países tanto produtores como consumidores eram altos e na atualidade os estoques de café, em todo o mundo, estão nos níveis mais baixos dos últimos tempos.
• A demanda de café no mundo cresce a uma taxa de 1,5% ao ano e a demanda de café no mercado doméstico cresce aqui no Brasil a uma taxa de 2% ao ano. O consumo doméstico gira em torno de 17 milhões de sacas e a exportação em torno de 27 milhões de sacas, assim o Brasil terá que ter produção média em torno de 44 milhões de sacas ano somente para abastecer o mercado interno e externo sem nenhuma sobra para fazer estoque.
• A logística na atualidade é bem mais eficiente que o daquela época. Se se gastava um determinado tempo para que o café saísse das fazendas até aos países consumidores esse tempo na atualidade é bem menor.
• Na atualidade, quase todos os mercados trabalham com estoque baixo. É o famoso "just on time". As empresas importadoras só adquirem quantidade de produtos suficiente para lhes abastecerem por um pequeno período de tempo.
• O preço do café em dólar já está em um patamar bem elevado. O fator que está impedindo ao produtor brasileiro de auferir renda maior é o câmbio.
• Naquela época praticamente todo o comércio de café era feito somente no físico aqui no Brasil e na atualidade há várias formas dos produtores comercializarem o café antecipadamente, tais como: CPR, contrato de antecipação de venda no mercado futuro com as empresas importadoras, troca de café por insumos com as empresas produtoras de insumos e etc. Todos estes mecanismos de comercialização já garantem uma certa quantidade de café disponível no mercado.

Fonte: Banco Mundial, 2004
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Há um fato também muito importante a ser considerado é que nos últimos tempos houve uma enorme concentração da renda gerada pelo café nos países consumidores. Como pode ser observado nos gráficos acima, os países produtores de café perderam renda para os países consumidores, portanto o repasse da renda ou seja de elevação de preço para o produtor não tem ocorrido na mesma proporção da elevação de preço para os consumidores dos países importadores. Basta observar no gráfico de cotação em NY que os picos de preço estão decrescentes.
Em 1991 os países produtores ficavam com 30% da renda gerada com o café, no ano de 2001 a porcentagem da renda que ficou com os países produtores diminuiu para 8% e já há determinados estudos apontando que atualmente a porcentagem da renda que os países produtores ficam é de 5%. Como há uma perspectiva de majoração dos preços da saca de café, é de fundamental importância os cafeicultores ficarem atentos a estacionalidade de preços da saca de café. Normalmente os preços seguem mais ou menos a tendência do gráfico abaixo.

Fonte: IBGE, 2007.
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É importante chamar a atenção que esta média foi ajustada estatisticamente e o gráfico reflete uma tendência relativa e não absoluta, assim há determinados anos em que o pico de preço ocorre em meses diferentes do mostrado no gráfico acima. Há anos em que o pico de preço ocorre em janeiro e em outros anos ocorre em fevereiro e outros anos em maio.
Uma boa sugestão é que o produtor tenha um amplo conhecimento do seu custo de produção. Tanto os custos fixos como os custos variáveis. Assim com a soma dos dois custos ele tem um conhecimento do seu custo total de produção de uma saca de café. De posse dos conhecimentos acima descritos é importante que o cafeicultor tenha uma percepção e uma visão do todo a respeito da variação do preço do café ao longo do tempo e da variação do preço do café no ano. Assim se o cafeicultor tem o conhecimento total do seu custo de produção ele terá uma grande probabilidade de efetuar a venda num patamar satisfatório.
Para evitar ficar segurando o produto e sonhando em ficar rico de uma só vez e acabar perdendo as oportunidades de comercializar o seu café em um patamar de preço razoável, o aconselhável é o velho ditado de nunca colocar todos ovos na mesma cesta e o produtor comercializar o seu café parceladamente e assim o produtor obter uma boa média de preço na saca de café.
É importantíssimo o produtor ficar atento e pensar a sua produção como um negócio, uma empresa, onde as ferramentas da administração rural, tais como, o planejamento, a organização, a direção, e o controle esteja sendo utilizado. O custo de produção está elevadíssimo. Em dois anos, determinados insumos quase que dobraram de preço e a elevação do salário mínimo e queda do dólar em relação ao Real piorou mais ainda a situação. Hoje um salário mínimo com os encargos fica próximo de US$ 300,00 por mês e, neste caso, em particular o café cultivado em região montanhosa, o que torna obrigatoriamente intensiva o uso de mão-de-obra, a situação de elevação dos custos é bem mais pronunciada.
Penso que quem conseguir deter uma parte do seu estoque a partir de dezembro deste ano, irá comercializar café a um preço bem acima dos patamares atuais, pois no atual cenário, a próxima colheita, safra de café a ser colhida em 2008, tão sonhada e desejada grande safra, já foi pro saco. Dessa forma o estoque mundial reduzirá tão drasticamente que o cenário será de escassez e o tão sonhado excedente de produção, passará a ser um grande déficit.
Agora chega de prosa que o saco encheu. Até a próxima.
