
Piraju, no Sudoeste de São Paulo, acaba de realizar o "5º Concurso de Qualidade do Café", em etapa regional que visa identificar os melhores cafés do Estado. O grande diferencial, no entanto, está na melhoria da qualidade dos cafés que há menos de uma década nem ousavam participar de concursos deste gênero.
Às margens do Rio Paranapanema, barrado por diversas hidroelétricas, a região apresenta condições climáticas que dificultam a secagem do café. A tecnologia do cereja descascado veio comprovar que cuidados no pós-colheita resultam em melhorias na bebida com agregação de valor ao produto.
Prova disso é que o café produzido em Piraju tem alcançado premiações em concursos nacionais importantes e conquistado uma nova imagem no mercado. O melhor é que os avanços conquistados pelos cafeicultores que investem na tecnologia do cereja descascado serviram de incentivo para os demais produtores, que também foram em busca de conhecimento e passaram a dar mais atenção no manejo pós-colheita. A novidade deste ano é que o Concurso de Qualidade, antes restrito ao cereja descascado, também premiou os melhores cafés naturais de terreiro.
Qualidade e associativismo
O exemplo de Piraju consolida a importância das campanhas de qualidade que o Estado de São Paulo vem desenvolvendo desde 1998. É a demonstração de que a adoção de tecnologia aliada aos cuidados na pré e pós-colheita podem resultar em grãos com melhor valor no mercado. O incentivo maior veio da Associação dos Produtores de Café Descascado de Piraju e Região (Proced), fundada em 1999 por um grupo de 20 produtores.
Com histórico de uma cafeicultura centenária, a região de Piraju, assim como as demais regiões produtoras, perceberam a necessidade de atender às exigências de qualidade para conquista de mercado. "Não basta produzir café. Além da orientação técnica, o produtor também precisa de assessoria gerencial, administrativa e tecnológica para ter bons resultados econômicos", destaca o chefe da Casa da Agricultura de Piraju/CATI, Paulo Sérgio Vianna Mattosinho, acrescentando que a região vem resgatando sua tradição como pólo cafeicultor com base na qualidade superior do produto.
Impacto econômico e social
Piraju faz parte do Escritório Regional de Ourinhos (EDR), responsável pela quarta maior produção de café do Estado de São Paulo, atrás apenas das tradicionais áreas cafeicultoras, como São João da Boa Vista, Franca e Marília. Em anos de safra alta, como a recém colhida, Piraju produz cerca de 500 mil sacas de café.
A cafeicultura é a atividade de maior impacto na agropecuária de Piraju e região, com a função social de gerar emprego, renda e evitar o êxodo rural. Como acontece em muitos municípios brasileiros, a dependência na monocultura do café faz com que a economia sofra as oscilações de produção e preço.
A realização da 22ª Festa do Café de Piraju (FECAP), de 6 a 10 de setembro, depois de 10 anos sem o tradicional evento, também vem confirmar a retomada da cafeicultura na região. Desta vez, associada a uma profunda mudança tecnológica, que estimulou a busca por competitividade e aperfeiçoamento das práticas agrícolas para produção de café com qualidade superior, tanto para o cereja descascado, quanto com para o natural de terreiro.
Antes e depois do cereja descascado
Antes da adesão à tecnologia do cereja descascado, a região carregava o estigma de tradicional produtora de café classificado como rio e riado. "Para produzir café de qualidade superior nesta região, onde o inverno é chuvoso e muito úmido, o descascador de café chega a ser uma necessidade", destaca o presidente da Proced, Sérgio Garcia Júnior.

Ele lembra que a participação em concursos de qualidade contribuiu para alterar a imagem dos cafés no Oeste de São Paulo. "Hoje o setor recebe as amostras com outros olhos", considera. Em 2001, o café de Piraju foi considerado o melhor do Brasil no concurso nacional da torrefadora Illycaffè.
Apesar de ter um grupo seleto de produtores, a Proced disponibiliza seus serviços de rebeneficiamento, prova, comercialização e armazenagem a todos os cafeicultores da região. A parte penosa de vender o café diferenciado é facilitada pelos canais de comercialização mantidos pela associação, que investe na busca por indústrias que valorizam esses cafés. Além disso, a entidade incentiva a capacitação e atualização dos produtores.
Investimento e rentabilidade
Especialista no agronegócio café e economista do Instituto de Economia Agrícola (IEA), Celso Luís Rodrigues Vegro elaborou um estudo de caso com a análise de custos, rentabilidade e de investimentos na produção de café cereja descascado na região de Piraju, concluindo pela viabilidade da tecnologia em aumentar a qualidade do produto e por angariar substantivos ágios de preços.
Agora, Vegro, se dedica à avaliação do impacto da tecnologia do cereja descascado no Estado de São Paulo, nas principais regiões produtoras, em estudo financiado pelo Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café (CBP&D/Café), administrado pela Embrapa Café.
Segundo o pesquisador, o comando do ágio praticado para o cereja descascado é estabelecido pela oferta e demanda pelo produto. Especificamente em Piraju, o ágio fica em torno de 30%, comparado ao café natural, pois, nas condições climáticas da região, o aumento da qualidade é significativo.
Vegro explica que a rentabilidade está associada à capacidade do cafeicultor em conseguir maior proporção de grãos cerejas descascados, em média 20% a 25% da safra, sendo importante o planejamento para renovação das lavouras com introdução de materiais precoces, médios e tardios e adoção de colheita seletiva, quando os preços compensarem tal rotina. O pesquisador complementa que os equipamentos para descascar o café são modulares e a tecnologia flexível e adaptável às mais distintas realidades da cafeicultura paulista.
Outro incentivo da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo é o financiamento por meio do Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista/Banco do Agronegócio Paulista (Feap/Banagro) para a aquisição de equipamentos.
Mais conhecimento, mais qualidade!
Ronaldo Moreira Ferreira faz parte da terceira geração de cafeicultores em Piraju e do grupo que acreditou no cereja descascado como fator de diferenciação no mercado. Depois que investiu na tecnologia, chegou a vender a saca de café premiado em concurso a mais de R$ 700,00. Ele aponta como vantagem adicional ao aumento da qualidade dos grãos cereja, a melhoria também dos grãos verdes, que separados, recebem tratamento diferenciado no terreiro, com secagem mais lenta e resultado positivo na classificação da bebida.
"Nós passamos a ter mais cuidado com todos os tipos de café", acrescenta, lembrando que é preciso conhecimento e profissionalismo para lidar com uma lavoura que chega a ter 10 floradas, como ocorreu na safra passada. O preparo do cereja descascado permite redução do tempo de seca no terreiro e do volume de armazenagem.
Ferreira também é um produtor diferenciado. Ele acredita na importância de adaptar as tecnologias às demandas da região e também de avaliar e identificar as melhores cultivares para suas condições de cultivo.
O produtor mantém em sua propriedade uma coleção de 29 cultivares, fornecidos pelo Instituto Agronômico (IAC), em campo demonstrativo, em parceria com a Casa da Agricultura de Piraju. Nesta área também é realizado o monitoramento de pragas e doenças, pela pesquisadora da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), Adriana Novais Martins.
Caminho certo
O primeiro desafio dos produtores desta região foi buscar formas de driblar o problema da umidade, descascando o café e mantendo parte da mucilagem, a goma que cobre o grão depois de descascado. A mudança exigiu mais conhecimento e, como conseqüência, trouxe mais qualidade.
Com essa estratégia, até 30% da safra é vendida no segmento de cafés especiais, que têm mercado garantido e preços acima daqueles praticados para as commodities. O desafio agora é manter o processo de inovação em busca de redução de custos e, principalmente, explorar novos mercados externos para esse café de qualidade.