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O cafeeiro possui ou não raiz pivotante?

ESPAÇO ABERTO

EM 31/03/2021

5 MIN DE LEITURA

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Por Prof. José Donizeti Alves*

As dicotiledôneas são uma classe de plantas que possuem dois tipos básicos de sistema radicular: fasciculada e pivotante, que tem como exemplos o milho e o café, respectivamente. O sistema pivotante se caracteriza por possuir uma raiz principal, que penetra verticalmente no solo e de onde partem as raízes laterais ou secundárias que se ramificam em terciárias e assim por diante. Em outras palavras, o sistema pivotante possui uma raiz principal e várias laterais de secunda e terceira ordens.

Apesar da simplicidade desta descrição, ainda persiste a dúvida se o cafeeiro possui ou não raiz pivotante. A resposta é sim, o cafeeiro possui raiz pivotante. Na minha opinião, esta dúvida é consequência do conceito equivocado de que uma raiz só é pivotante se ela atingir grandes profundidades. De fato, cafeeiros antigos, originados de sementes colocadas diretamente em solos com boas características químicas e físicas, a raiz pivotante chegava a atingir até 2 m de profundidade. Penso então que esta imagem permanece até hoje no imaginário popular. A partir do momento em que o sistema de plantio do café mudou do semeio direto na cova para a utilização de mudas formadas em saquinhos, o tamanho da raiz pivotante também mudou, passando de muito profunda para pouco desenvolvida. Isto porque, no momento do plantio, cortam-se os primeiros centímetros do fundo do saquinho eliminando a parte enovelada de raízes e assim evita-se o pião-torto. Esta prática provoca a perda da dominância apical da raiz pivotante atrofiando-a e induzindo-a a emitir ramificações ou bifurcações. Por este motivo a raiz pivotante do café, quase sempre, nunca ultrapassa os primeiros 45 cm do solo.

Em um trabalho de campo realizado em S. S. do Paraiso, Alves e Livramento (2003) observaram que da raiz pivotante, de até 50 cm de profundidade, partem raízes laterais que crescem paralelamente à superfície do solo chegando a atingir 2,0 m de comprimento, de sorte que raízes de plantas adjacentes comumente se entrelaçam chegando a ultrapassar o eixo da planta vizinha. Este tipo de raiz possui grande capacidade de lançar raízes secundárias e de ordem superior, que se concentram na região correspondente à projeção da copa. Também foi possível observar, neste trabalho, que as raízes que bifurcaram da raiz pivotante facilmente ultrapassaram os 2,0 m de profundidade. Em conjunto, os resultados mostraram que não existe uma camada limite entre o crescimento de raízes de plantas vizinhas e sim um entrelaçamento, formando uma malha contínua de raízes, de planta para planta e em profundidade.

O cafeeiro é uma planta que possui uma equivalência de crescimento e troca de metabólitos entre raiz e parte aérea, de modo que, quanto maior o vigor da parte aérea em termos de enfolhamento, mais desenvolvido é o sistema radicular e vice-versa. Esta equivalência faz com que o fluxo de carboidratos produzidos pelas folhas até as raízes e a exportação de minerais e água das raízes até a parte aérea, maximizem o crescimento das duas partes em um processo de retroalimentação em que ambas se beneficiam. Quando os frutos de uma lavoura em alta produção atingem as fases de expansão e granação, e passam a demandar quantidades extras de minerais, água e carboidratos, entre outros metabólitos, é que vamos saber se parte aérea e raiz das plantas estão realmente em equilíbrio. Nesta fase, lavouras que vão produzir muito no ano em vigor, cujas plantas visualmente estão vigorosas e sadias tanto no aspecto nutricional quando fitossanitário, bem enfolhadas, com alta carga de frutos e entrando na fase de amadurecimento, o sistema radicular (que não está visível) deve estar profundo e bem ramificado e, portanto, o equilíbrio parte aérea-raiz está adequado às demandas das plantas. Neste caso, a descrição morfológica do sistema radicular ao longo do perfil do solo, com destaque para a existência de uma malha contínua de radicelas, bem como a presença maciça de raízes em profundidade, explica como as lavouras de café, que em sua grande maioria são oriundas de mudas de saquinhos, conseguem altas produtividades mesmo com crescimento restrito da raiz pivotante.

O problema é quando ocorre um distúrbio na parte aérea ou raiz e provoca um realinhamento entre as partes de forma a restabelecer o equilíbrio. Um bom exemplo disso é quando plantas isoladas na lavoura passam a sofrer distúrbios fisiológicos como desfolha, acompanhada ou não de seca de ponteiros nessa fase de desenvolvimento dos frutos. Na maioria das vezes essas plantas, por alguma razão, não estavam com o sistema radicular tão desenvolvido como o das demais, de modo que suas raízes davam conta de suprir as demandas da parte aérea quando estas não eram tão grandes.   

Como os frutos são drenos preferenciais, notadamente nas fases de crescimento ativo e granação, eles passam a canalizar a importação de carboidratos, água e minerais, tornando deficitários os drenos mais fracos como as raízes que, sob alta competição dos frutos, chegam a definhar e morrer. Na sequência, a exportação de água e minerais para a parte aérea diminui sensivelmente, e a carência desses elementos dão origem aos distúrbios fisiológicos citados acima, que são irreversíveis.

Uma boa qualidade de plantio é a base de uma lavoura longeva. Para tanto, adquirir mudas de qualidade, com caule grosso, folhas verde-escuras, sistema radicular bem desenvolvido e proporcional à parte aérea e livres de pragas e doenças, é o primeiro passo para o sucesso.

Concluindo, ao nosso ver, (i) a prática de se eliminar os primeiros centímetros da raiz pivotante no fundo do saquinho; (ii) os métodos avançados de cultivo do café e (iii) o melhoramento genético que, ao visar o vigor da parte aérea, a produtividade e a resistência a fatores bióticos e abióticos, fizeram chegar a um ótimo equilíbrio raiz/parte aérea nas modernas variedades de café, condicionando o sistema radicular a crescer e a se desenvolver lateralmente e em profundidade.

Este é o padrão morfológico que se espera dos cafés de uma propriedade de alto rendimento. Fora disso, algo está errado e precisa ser corrigido.

*Prof. Dr. José Donizeti Alves é engenheiro agrônomo, possui Mestrado em Fisiologia Vegetal (UFV), Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas (UFV) e Pós-doutorado em Fisiologia Molecular pela The Ohio State University (Columbus, Ohio, USA) e pela University of Missouri (Columbia, Missouri, USA). Com 36 anos de experiência na área de Fisiologia do Cafeeiro, iniciou sua carreira de pesquisador na EPAMIG (Viçosa, MG) e posteriormente na Universidade Federal de Lavras (UFLA), onde se aposentou no ano passado, mas, continua atuando ativamente como professor-orientador no Programa de Pós-Graduação em Fisiologia Vegetal

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