Café, o fim de um ciclo
Nossa cafeicultura passa hoje pelo mesmo desafio pelo qual passaram indústrias que migraram de países ricos para o 3º Mundo. Um grupo de cafeicultores e pessoas interessadas em nossa produção de café vem discutindo na Sociedade Rural Brasileira o tema "Caminhos para o café". As discussões formais e informais nos levaram a conclusões surpreendentes.
Um grupo de cafeicultores e pessoas interessadas em nossa produção de café vem discutindo na Sociedade Rural Brasileira o tema "Caminhos para o café". As discussões formais e informais nos levaram a conclusões surpreendentes.
Estamos assistindo ao fim de um ciclo, durante o qual um único produto foi o principal em nossa pauta de exportações e financiou parte importante da industrialização do país. Em décadas recentes, o café foi perdendo sua importância relativa, graças à progressiva diversificação de nossa economia e à perda de competitividade do produtor brasileiro de café.
O Brasil ainda é o maior produtor de café, o maior exportador, mas, mesmo numa fase de preços internacionais relativamente favoráveis, nosso produtor não tem obtido retorno adequado. Somos os produtores mais eficientes, temos uma estrutura de comercialização muito competitiva e com baixos custos e temos o segundo maior mercado consumidor.
Mas, ao mesmo tempo, o progressivo desenvolvimento de nossa economia leva ao encarecimento da mão de obra. O principal impacto na cafeicultura dessa mudança altamente benéfica para o país é a perda de competitividade do produtor tradicional em regiões de montanha, que tem uso intensivo da mão de obra.
Num negócio em que a mão de obra representa mais de 50% do custo da produção, um produtor que paga a um colhedor US$ 500 mensais não tem como competir com produtores da América Latina, da África e da Ásia, que buscam esse valor como renda anual. Como todos os demais países produtores são menos desenvolvidos que o Brasil e não têm alternativas de diversificação da agricultura, o aumento de custos para o produtor brasileiro não se reflete num aumento de preços no mercado internacional.
Nossa cafeicultura passa hoje pelo mesmo desafio pelo qual passaram indústrias intensivas em mão de obra que, aos poucos, migraram de países ricos para o Terceiro Mundo. Além disso, durante esse mesmo período, a indústria do café passou por uma progressiva substituição do café arábica, de mais alto custo e com maior potencial de qualidade, pelo café robusta, produzido em regiões de menor altitude, com menor custo.
O produtor de robusta, que abastecia 25% do consumo mundial há 30 anos, hoje tem uma participação de 40% no mercado mundial de café.
Nosso produtor tradicional se vê em situação similar à da indústria automobilística americana, que sempre esteve na vanguarda do negócio, mas agora vem sendo substituída por produtores mais competitivos.
Tudo isso levou a um recorrente endividamento de um grande número de cafeicultores, que não têm nenhuma perspectiva de gerar resultado na produção para abater a dívida, enquanto continuam contribuindo para uma oferta excedente do produto, o que pressiona contra eventuais ganhos de preço que recuperem a competitividade da cafeicultura.
Precisamos buscar uma regra de saída para esses produtores que lhes reduza a dívida com o compromisso de erradicação da parte ineficiente do parque produtivo. Isso levaria à redução da área e ao aumento da produtividade, com consequente redução das exportações, provocando um aumento das cotações internacionais sem impacto negativo na receita exterior.
Ajudar a saída de agricultores menos competitivos pode também dar impulso a uma reforma agrária pacífica e viável. A expansão da cafeicultura tem vindo da produção familiar: o café é, possivelmente, a cultura mais adequada a uma propriedade familiar, por ser uma produção intensiva no uso da terra e da mão de obra.
Ela é mais viável na propriedade familiar, que não é sujeita ao nosso pesado custo Brasil de altos encargos sociais, juros altos, altos impostos sobre a produção e custos crescentes de licenciamento e adequação ambiental.
Defender a redução da dívida de agricultores é tabu no Brasil, onde os bancos têm conseguido sempre renegociações que resolvem os seus problemas, mas não necessariamente os dos produtores. Mas problemas graves exigem soluções drásticas, e o fundo que financia a cafeicultura foi criado com recursos provenientes dela com o objetivo de viabilizá-la.
Essa dívida impagável deprime mercados, leva a uma crescente desilusão e angústia os produtores responsáveis que buscam solver seus compromissos e serve de desculpa para os irresponsáveis. E perpetua uma discussão das entidades representativas em torno de periódicas renegociações e alongamentos, quando deveriam estar desenvolvendo estratégias de longo prazo para a recuperação da competitividade, sem as quais nossa cafeicultura permanecerá nesse impasse dos últimos anos.
Material escrito por:
Marcelo Vieira
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Luiz Marcos Suplicy Hafers
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UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 06/02/2010
Não atuo diretamente com a cultura do café, porém vejo situação semelhante em outros segmentos que, na minha opinião, não vejo outra saída a não ser pela busca de maior eficiência em todos os processos, desde a produção até a comercialização.
Reforçando os comentários do Sr Arthur, a participação em cooperativas e a atuação forte do produtor, contribuindo p/ maior eficiência das mesmas, poderia, a meu ver, ajudar muito a amenizar esta situação crítica do produtor.
Também penso que, dentro das possibilidades de cada produtor, a diversificação, sem perder foco, escolhendo atividades que promovam sinergias entre si (Ex: Integração lavoura pecuária floresta) poderiam ajudar a diminuir os riscos do produtor.
CAMBUQUIRA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 30/01/2010
Permita-me discordar de seu pensamento, bem como do grupo Sociedade Rural Brasileira, de São Paulo.
Pelo menos no que diz respeito a cafeicultura do sul de minas, voces estão enganados, com esta proposta. A extratificação aqui demonstra que 80% dos produtores são pequenos ou seja de 1 a 20 ha. 17% são médio fazendas entre 20 e 99 ha e apenas 3% tem mais de 100 ha.
O que tem que mudar é a forma com que as fazendas tem sua gestão, e os produtores não mais se individar através de financiar investimentos através dos reursos oriundos do custeio da atividade. Reduzir desperdícios dentro da fazenda, comprar em grupos, vender através de cooperativas, enfim verticalizar sua produção, aprimorar sua qualidade, para agregar valor ao produto.
A colonização atraves da reforma agraria no Brasil, até agora tem se mostrado mais um favelamento no campo, do que resultados praticos, mas estender o PRONAF aos pequenos produtores isso sim poderá viabilizar o seu endividamento.
Espero ter contribuido para suas inquietudes.
GUAXUPÉ - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 26/01/2010

MUQUI - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 22/01/2010
Não podemos nos esquecer que a produção de robusta no Brasil nos últimos anos é quase constante , a produção do mesmo no Vietnã que é assustadora.

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 14/01/2010
Estamos de acordo. A produção de cafe vai ficar no grande (maior do que voce insinua) e no pequeno familiar mas tambem competente. Ao medio nem competente. O que precisamos, por causa do impacto social e cultural é dar uma rota de saida para esse lavrador e deixar claro que na situação atual ele vai definhar e terminar mal. Nos preços atuais mal "veve". A 400 contos da para trocar o trator e pintar a casa. Meu medo é de uma repetiçao de grande alta que vai estimular plantios da forma antiga e colher com preços baixos outra vez. Tudo como dantes no quartel de Abrantes.
Precisamos discutir com coragem e alertar a soluções e perigos
Atenciosamente
Luiz Hafers
TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - COMÉRCIO DE CAFÉ (B2B)
EM 13/01/2010
Em primeiro lugar, parabéns pelo artigo e pela coragem de abordar o tema numa linha que muitas vezes causa reações intempestivas de algumas partes envolvidas.
Há algum tempo, tenho dito que acredito que um grande percentual do café produzido no Brasil vem dos produtores mais competitivos. Quais sejam, as fazendas mecanizadas porte médio-grande de arábica que têm escala de produção, os produtores familiares que têm bons níveis de produtividade e não estão sujeitos aos custos dos encargos trabalhistas, produtores que atuam em nichos de qualidade e os produtores de conilon que estão em dia com o pacote tecnológico desenvolvido pelo Incaper.
Isto posto, o problema dos produtores menos competitivos deixa de ser meramente econômico para ser um problema social, pois é bem possível que a supressão de sua contribuição de sua parcela na produção total do Brasil não tenha um impacto tão expressivo na participação do país no mercado internacional. É um processo de concentração semelhante ao que já foi demonstrado pelo prof. Sebastião Teixeira Gomes, da UFV, no caso do leite. Creio que uma tabulação dos dados do censo agropecuário 2006 possa demonstrar até que ponto esta hipótese é correta.
Seguindo na linha da confirmação da hipótese, gostei bastante de sua sugestão da reforma agrária (leia-se reforma agrária, não os assentamentos que hoje existem). E por outro lado gostaria de sugerir que, para muitos casos nos quais há aptidões específicas, caminhos como o tomado no caso do conilon podem resgatar a competitividade - para o conilon, o pacote tecnológico, bem abrangente, trouxe uma revolução nos níveis de produtividade. Mas, antes de mais nada, o gerenciamento dos custos é cada vez mais crucial e continua a ser o calcanhar de aquiles de nosso setor produtivo.
Mais uma vez dou-lhes os parabéns, a eterna questão das dívidas só terá uma solução duradoura se analisada pelo prisma da competitividade dos produtores.
Abraços e feliz ano novo,
Renato Fernandes