Café Especial, por Xico Graziano
Não existe segredo, mas sim trabalho apurado. Um cafezal somente gera produto de qualidade especial se for muito bem cuidado, na adubação das plantas, no controle de pragas e doenças, na colheita do fruto maduro e, por fim, no trato dos grãos durante o processo de pós-colheita, seca e beneficiamento.
Publicado em: - 4 minutos de leitura
Ocorre que as 22 sacas oriundas dos cafezais da fazenda Rainha, situada no município de São Sebastião da Grama, ali dentro da Mogiana paulista, venceram o 12º concurso chamado Cup of Excelence, promovido pela Associação Brasileira de Cafés Especiais. Outros produtores selecionados compuseram 25 lotes de excelente bebida, todos eles arrematados por elevadíssimos preços no referido leilão (18/01).
Um consórcio asiático comprou o lote campeão, entre vários estrangeiros que disputaram no tapa a primazia de comercializar um café inesquecível. Reconhecer a qualidade e, melhor ainda, pagar um bom diferencial por ela, estimula os cafeicultores a investir em boas práticas agrícolas. Custa mais, porém vale a pena.
Não existe segredo, mas sim trabalho apurado. Um cafezal somente gera produto de qualidade especial se for muito bem cuidado, na adubação das plantas, no controle de pragas e doenças, na colheita do fruto maduro e, por fim, no trato dos grãos durante o processo de pós-colheita, seca e beneficiamento. Esse zelo agronômico, porém, ainda será insuficiente se as condições ambientais não forem propícias.
Café, para dar excelente bebida, precisa estar plantado em terrenos com elevada altitude, acima de 800 metros, no mínimo. Nas encostas da Serra da Mantiqueira, por exemplo, seja do lado paulista ou mineiro, os cafezais encontram excelente clima, onde as noites frias são essenciais. Durante a colheita, normalmente entre julho e outubro, o tempo precisa estar seco, sem chuvas. Senão, o grão de café pode "arder", perdendo sabor.
Comandada por uma mulher, Ana Cecília, a fazenda Rainha apresenta 280 hectares de cafezais localizados até a altitude de 1300 metros. Possui um sistema de gestão ambiental de última linha, controlando minuciosamente cada gleba de produção, anotando tudo - da tecnologia, do trabalho humano ou dos fenômenos naturais - como se fosse um diário feminino. Esmero no campo.
Nessas condições, seu café adquire características que os degustadores classificam como "bebida mole, adocicada, acidez equilibrada, aromas intensos". Parece coisa de enólogo. Origem certificada, nome próprio, assim os produtores e distribuidores começam a customizar o apreciador de café, ganhando clientela sofisticada. Caso do Café Orfeu, controlador da fazenda Rainha.
O trabalho de marketing baseado na qualidade da bebida começou a mudar o mercado de café no Brasil desde 1989. Nessa época, 67% dos brasileiros pesquisados pela Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC) acreditavam que café bom era exportado, restando aqui dentro a porcaria. A ABIC criou um selo de qualidade e resolveu enfrentar as costumeiras fraudes na composição do café torrado e moído distribuído no país. Havia de tudo. Grãos de café estragados, misturados com casca, ou pior, acrescido de palha de arroz, até areia colocavam no pó-de-café para aumentar o peso. Sempre muito adoçada, a bebida tradicional escondia tais mazelas.
O "selo de pureza" da ABIC pegou. E os consumidores começaram a ficar mais espertos com a qualidade do café que adquiriam, conferindo no rótulo da embalagem a etiqueta de garantia. Nessa mesma época, as modernas máquinas de café expresso começaram a vencer o velho coador nos botecos da cidade. A disputa do expresso na xícara contra o cafezinho no copo contou com a ajuda da medicina, que progressivamente desmistificava a fama de que beber café fazia mal à saúde, dava gastrite. Pelo contrário, pesquisadores médicos passaram a recomendar a bebida no combate ao estresse, inclusive, à depressão humana, graças ao efeito estimulador, não apenas da cafeína, mas também dos polifenóis que contém.
A somatória de fatores positivos resultou, globalmente, no estímulo ao consumo de café, cuja qualidade melhorou, e muito. O mercado, demandando mais, puxou os preços, estimulando os produtores rurais com boa remuneração. Criou-se um círculo virtuoso que agrada a todos. Países que nunca participaram do mundo cafeeiro despertaram para a oportunidade surgida. Assim, o longínquo Vietnan se tornou o segundo maior produtor mundial de café. Quem diria!
Robusta se chama a espécie de café plantada pelos vietnamitas. Poucos sabem, mas existem duas espécies básicas: o Coffea arábica e o Coffea canephora, esta conhecida como café robusta. A primeira, mais delicada, se originou na Etiópia; a segunda, mais rústica, surgiu na costa atlântica da África. O arábica sempre predominou, pois sua bebida é mais expressiva, com paladar marcante. Já o robusta, embora apresente teor mais elevado de cafeína, oferece uma bebida meio sem graça. Figurava na segunda linha da cafeicultura mundial.
Tudo mudou, todavia, com a chegada do café expresso. Sabem o por quê? Acontece que aquela espuma da xícara, apreciada pelos consumidores, somente se consegue misturando um pouco do robusta no pó do arábica, técnica que gera o blendcaracterístico das marcas de expresso. Foi a sorte dos capixabas. No Espírito Santo, os pesquisadores agrícolas investiram, há anos, na lavoura do café robusta, fazendo-o ganhar produtividade. Dominam hoje esse veio do mercado.
Anda animada a cafeicultura nacional. Investe na qualidade, faz bons negócios e dorme alimentando um sonho: ver cada chinês tomando uma xícara de café expresso. Café, e agricultores, especiais.
Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no CaféPoint.
Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!
Material escrito por:
Xico Graziano
Acessar todos os materiaisDeixe sua opinião!

LONDRINA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 04/03/2012
TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 13/02/2012
Durante muito tempo o café Conilon foi caracterizado como uma bebida neutra, encorpada e com pronunciado amargor. No entanto, com os trabalhos de análise sensorial iniciados há alguns anos, pode-se perceber a grande diversidade de aromas e sabores que possui, e que esse café também apresenta qualidade.
CAMBUQUIRA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 09/02/2012

CAMPANHA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 08/02/2012

INCONFIDENTES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 08/02/2012
Na minha região em Inconfidentes- MG, os produtores sente vontade de fazer cafés de qualidade superior, o clima é bom a altitude adequada, porém, os incentivos à produção de café de melhor qualidade quase não existe, apenas paga-se um adicional de R$ 30,00 a R$ 40,00 se o café berber, porém, as empresas que comercializam café por aqui, não falam para o produtor o que bebeu, se é duro, mole, e assim o produtor acaba vendendo um café de excelente qualidade por preço de café convencional, eu vejo aqui na minha região, produtores que colhem o café em ótimas circunstâncias e acabam sendo pouco recompensados por seu esforço. O resultado final de tudo isso é que o produtor desanima e acaba por diminuir o zelo, e a produzir verdadeiramente café convencional, que é mais barato de ser produzido, e que demanda menos empenho para se conseguir.
Penso que se as empresas investissem nesse mercado, dessem incentivos para se produzir com qualidade, garanto que não só na minha região, mas em qualquer região cujo clima, solo e altitude possibilite, haverá bons e excelentes cafés.
Parabéns pela matéria, continue na luta.
Wilyan Rafael da Costa
http://www.cafeeconsultoriasantaterezinha.blogspot.com
CAMBUQUIRA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 08/02/2012

ANHEMBI - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS
EM 08/02/2012

BAURU - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 07/02/2012
Parabens Xico Graziano.

ANDRADAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 07/02/2012
1. O selo da Abic não é "Selo de Qualidade" e sim "Selo de Pureza". Isto significa que dentro da embalagem com esse selo existe café, independentemente da qualidade que ele possui. Pode ser raspa de terreiro, escolha, rio zona, etc. Como é café, tem o "Selo". Se pessoas com experiência e vivência no setor agrícola faz essa confusão, o que diremos dos pobres consumidores acostumados a tomar o que lhe empurram.
2. A ABIC tem um excelente PROGRAMA DE QUALIDADE e seria bom se todos os torrefadores aderissem a esse programa, em lugar de lutar no mercado por preços ao consumidor cada vez mais baixos.
3. Lamento que no artigo não tenha nenhuma citação ao fato de sermos grandes exportadores de café in natura e agora, recentemente, importadores de café processado. Como se sabe o valor agregado está naquilo que se adiciona à commoditie. No ano passado foram US$ 42 milhões. Como certamente muitos cafeicultures ficaram surpresos com o preço aferido por uma saca de café citado no início do artigo, quero deixar claro que cápsulas equivalentes a 1 saco de café de 60 quilos, estão sendo vendidas ao consumidor ao preço equivalente a R$ 17.142,00 o saco. Supondo-se por absurdo que a Nestle só pusesse nas capsulas de Nespresso café comprado a R$ 5.400,00 cada 60 quilos, ainda assim o lucro seria muito significativo. Precisamos aprender a fazer marketing com o nosso café que não fica devendo nada a qualquer café alta qualidade produzido no exterior.
Um abraço.
MARUMBI - PARANÁ - PROVA/ESPECIALISTA EM QUALIDADE DE CAFÉ
EM 07/02/2012

VILA VELHA - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 07/02/2012
Abraço,
Marcos

TUPÃ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 07/02/2012
Um grande abraço
Chico Simões
VITÓRIA - ESPÍRITO SANTO
EM 07/02/2012

VILA VELHA - ESPÍRITO SANTO
EM 07/02/2012
Se preparem para surpresas numa rodada cega de robustas e arábicas.

VITÓRIA - ESPÍRITO SANTO - PROVA/ESPECIALISTA EM QUALIDADE DE CAFÉ
EM 07/02/2012
Gostaria que provasse alguns cafés Conilon que temos identificado aqui no Espirito Santo para ver que não são "sem graça". Fica o convite.
Arthur Fiorott