Tenho viajado por muitos lugares, divulgando a certificação Rainforest Alliance. O mais interessante são as muitas histórias que ouvi, além de exemplos de criatividade para solucionar problemas envolvendo a cultura do café. A intenção deste artigo é apenas dividir algumas atitudes que me marcaram, sem mais pretensões. Portanto, não citarei onde, quando, nem com quem ocorreram.
Uma delas envolve um projeto de desenvolvimento regional que proporcionava melhores condições de vida aos cafeicultores, por meio de trabalho e oportunidades. Um programa de cultivo de espécies crioulas de milho e feijão, nas entrelinhas do café, foi criado junto a órgãos competentes de pesquisa e extensão. Muitos produtores já desenvolvem outros cultivos nas entrelinhas do café, mas a grande sacada deste caso foi buscar espécies mais rústicas, adaptadas à região. Isso possibilitou uma menor dependência de insumos externos, em tempos de alta nos preços. As sementes, neste caso, eram também multiplicadas em cada colheita e disseminadas na região. Como resultado, controle de mato, fonte de alimentos e incremento de renda.
Neste mesmo local, os funcionários públicos recebem um vale que pode ser utilizado numa feira local. Nesta feira, formada apenas por produtores regionais, estão os cafeicultores que produzem, além do café, frutas, hortaliças, condimentos, pães, manteiga, artesanatos, enfim, tudo aquilo que suas aptidões e recursos permitirem. Os baixos preços do café atingem menos esses produtores e a cidade toda ganha. A feira tomou tamanha proporção que não apenas os funcionários públicos a freqüentam, como também os demais moradores da cidade.
Em outra ocasião, um grupo de pequenos cafeicultores - média de 4 hectares cada - conseguiu apoio para construir um centro de beneficiamento comunitário. Neste local, coordenado pelo produtor mais treinado para tal função, é recebida a colheita, feita a secagem e beneficiamento do grão, que depois volta ensacado para cada sítio, onde é guardado em locais simples, porém adequados. Esta mesma comunidade, bem organizada e comprometida, recicla e vende o lixo produzido, direcionando a receita obtida para obras e compra de equipamentos para a escola local. Já conseguiram também apoio para construir uma biblioteca, alguns computadores com internet e fossas sépticas para todos. Como resultado, redução de custos pelo trabalho em conjunto, redução de doenças pela coleta do lixo e melhor qualidade de vida para a comunidade.
Estive uma vez em um sítio de 5 hectares, onde além do café e do leite produzidos, havia ali toda a sorte de plantas cultiváveis. A biodiversidade era tanta que se ouvia uma sinfonia de pássaros, atraídos para tal paraíso. Uma vida simples, sem dúvida, mas a riqueza alimentar era tanta que seu proprietário precisava ir poucas vezes à cidade comprar comida. Ao contrário, quando ia, era para vender seus diversificados excedentes. A alta dos preços dos alimentos não lhe causava dor de cabeça, enquanto seu vizinho reclamava dos preços no supermercado.
Casos de aumento de maior disponibilidade de água pela conservação de nascentes e rios também não são raros. No entanto, entre muito o que venho aprendendo em minhas viagens, se tivesse que eleger o caso mais marcante, diria que foi o de um produtor de 2 hectares de café, afastado 30 km da cidade por estrada de terra entre as montanhas, que em sua sábia humildade agradecia diariamente o pouco que possuía. Conseguiu com força de vontade e trabalho mobilizar a vizinhança, construir uma pequena igreja, uma escola e pretendia restaurar toda uma faixa de rio até a nascente, pois dizia ser a água a maior riqueza deste mundo. Já havia convencido seus vizinhos à empreitada. Sua casa era pequena, aconchegante e bem cuidada.
No fundo, o que marcou mesmo foi café oferecido, selecionado e torrado ali mesmo. Entre uma xícara e outra, ouvi o cafeicultor dizer que, longe de qualquer ilusão, não pretendia um dia se tornar um grande produtor. Ele tinha a certeza que devia fazer o melhor, trabalhar muito, não culpar ninguém por suas dificuldades, mas procurar superá-las. Ele tinha a certeza de ser feliz com o que tinha: segundo suas palavras, seguiria vivendo honestamente, junto a Deus e à natureza.
Brasil de vários cafés e exemplos
Estive uma vez em um sítio de 5 hectares, onde além do café e do leite produzidos, havia ali toda a sorte de plantas cultiváveis. Uma vida simples, sem dúvida, mas a riqueza alimentar era tanta que seu proprietário precisava ir poucas vezes à cidade comprar comida. Ao contrário, quando ia, era para vender seus diversificados excedentes. A alta dos preços dos alimentos não lhe causava dor de cabeça, enquanto seu vizinho reclamava dos preços no supermercado.
Publicado por: Rodrigo Cascalles
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Material escrito por:
Rodrigo Cascalles
Eng. Agrônomo (ESALQ/USP) e Executive Coach (Sociedade Brasileira de Coaching). Tem por objetivo contribuir no aumento da sustentabilidade e dos resultados positivos na agricultura.
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