A participação de mercado crescente do Robusta e o futuro do consumo mundial
Em novo artigo ao CaféPoint, Carlos Brando argumenta as razões para o atual crescimento do uso dos cafés Robustas no 'blend mundial'. O consultor da P&A Marketing lembra todavia que "o consumo mundial está crescendo a um ritmo mais rápido do que a mudança de Arábica para Robusta" e que a tendência é que ambos se posicionem como produtos complementares e não concorrentes. Confira
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Uma linha de pensamento diz que em mercados onde tradicionalmente se consome mais Arábica – a maioria, senão todos os tradicionais importadores e consumidores já listados no parágrafo anterior – a maior participação de Robusta repele consumidores e faz com que o consumo caia por razões que variam desde maior conteúdo de cafeína do Robusta até sua suposta qualidade inferior. Como isso não parece estar acontecendo – o crescimento do consumo nestes mercados ficou mais lento, mas o consumo não diminuiu − será que um “novo apreço” por Robusta está se desenvolvendo ou sua qualidade melhorando ou outro?
O consumo em cafeterias é principalmente de bebidas de café com leite, saborizantes e outros ingredientes. Como estas misturas precisam de café “mais forte”, não é essencial ter cafés Arábica com mais corpo, maior qualidade ou mais caros, que agregam custos sem gerar benefícios perceptíveis para os consumidores. Sendo assim, os Robustas tem um lugar assegurado nestas bebidas. Um argumento similar prevalece para alguns países produtores na Ásia e, especialmente, para mercados emergentes onde cafés '3 em 1' – monodose de café solúvel com creme não lácteo e açúcar − estão ganhando novas versões '4 em 1', com a adição de sabores e outros ingredientes.
Não há dúvidas que Robustas mais limpos e melhor processados tem mais espaço em 'blends' Arábica-Robusta sem grandes mudanças nas características sensoriais percebidas pelos consumidores. Sabe-se que Robustas lavados e descascados (CD) são usados para substituir Arábicas em maiores proporções que Robustas naturais, o que explica a firme tendência de processamento via úmida para Robusta nas origens, isto é, nos países produtores. O polimento úmido de café Robusta verde apresenta apenas parte do mesmo efeito, razão pela qual os prêmios de preço para Robustas lavados são muito superiores do que para Robustas polidos em úmido.
Apesar das alegações de que mais Robusta no 'blend' de países habituados ao Arábica causará a queda do consumo, porque o Robusta tem mais cafeína que o Arábica e que a adição de mais Robusta reduzirá o consumo devido à qualidade, a evidência dos últimos dez anos aponta para um crescimento firme do consumo e para o aumento da participação de Robustas no 'blend mundial'. O solúvel é a bebida de entrada para o universo do café em países que tradicionalmente consomem chá, e estes países hoje representam o maior mercado de crescimento para o café. Dado seu baixo custo, o solúvel em pó – forma mais popular de café solúvel – não tem seu gosto substancialmente alterado (“melhorado, como diriam os puristas) se Arábicas mais caros forem usados em sua produção; a tendência para mais consumo e produção de Robusta veio para ficar.
Apesar de tudo que foi escrito acima sobre Robustas, as perspectivas são boas para Arábicas também. O consumo mundial está crescendo a um ritmo mais rápido que a mudança de Arábica para Robusta, e muitos consumidores que entram no mercado de café via bebidas solúveis (baseadas em Robusta), acabam por preferir o Arábica conforme eles adquirem o hábito e passam a conhecer mais sobre café.
Que impacto o maior consumo de Robusta terá na geopolítica da produção de café? Poderia isso estar por trás da queda dos preços dos Arábicas suaves em anos recentes? Será que a produção de café, especialmente de Robusta, se moverá para o leste, da América Latina e África para a Ásia, para estar mais próxima de novos mercados consumidores dinâmicos? Definitivamente faz sentido, no contexto de marketing, acabar com a discriminação contra o café Robusta e se aliar àqueles que estão explorando suas vantagens comparativas, e àqueles poucos que estão trabalhando para reposicionar o Robusta na escala de qualidade do café. Vamos nos abster do debate Arábica-Robusta e concentrar-nos em oferecer uma xícara de café que atenda às necessidades do consumidor e atraia novos consumidores em todos os segmentos de renda, com o mix correto de qualidade e preço.
Em tempo, a recente decisão do CDPC de criar um grupo de trabalho focado na indústria de solúvel, com o objetivo de expandir mercados para o produto nacional industrializado e agregar valor a ele, é muito bem-vinda. A indústria brasileira tem potencial para produzir 4,5 milhões de sacas de solúvel com a capacidade instalada atual – em 2011 exportamos aproximadamente 3 milhões de sacas − ; sendo que o consumo de café solúvel cresce em torno de 10% ao ano em países emergentes como China e Indonésia, sem mencionar os países produtores, como México, que são grandes consumidores de solúvel. Outra grandes oportunidade para a indústria nacional inclui o fornecimento de extrato concentrado de café, feito à base de solúvel, utilizado como matéria-prima de bebidas prontas como os cafés gelados (em lata), e a exportação de produtos inovadores como os cafés '3 em 1', tão apreciados pelos jovens em diferentes mercados asiáticos.
Finalmente, não podemos nos esquecer que como o solúvel é a porta de entrada em grandes mercados que hoje consomem chá, por exemplo China e Rússia, a introdução de marcas brasileiras de solúvel abre caminhos para marcas brasileiras de torrado e moído também, à medida que o mercado se consolida. Mais uma razão para que o Arábica e o Conilon brasileiros se posicionem como produto complementares e não concorrentes, e que a produção e a indústria tenham uma relação de parceria.
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Material escrito por:
Carlos Henrique Jorge Brando
Engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP; pós-graduação à nível de doutorado em economia e negócios no Massachusetts Institute of Technology (MIT), EUA; sócio da P&A Marketing Internacional, empresa de consultoria e marketing na área de café
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Com esse seu lúcido artigo estamos fechando 2012 com chave de ouro.Toda discriminação que o robusta sofreu ao longo de sua tão curta história no Brasil especialmente no Espírito Santo foi desfeita com denodo,trabalho e senso de oportunidade que pudemos antever,em meio ao arrazoado sem fundamento dos desavisados de plantão.A matéria que você aborda com maestria nos mostra a complementariedade do conilon com o arábica.Estamos juntos nesse trabalho de dar ao conilon a qualidade cada vez mais aguçada para que ele ajude ainda mais o aumento do consumo mundial do café,seja arábica ou robusta.
O futuro é altamente promissor para os dois cafés.
Feliz ano novo!
Frederico de Almeida Daher

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