Falhas no controle da ferrugem do cafeeiro se deve ao aparecimento de novas raças do patógeno ou aplicações inadequadas de fungicidas?
O que acontece no caso de fungicidas, é que a aplicação consecutiva de um mesmo ingrediente ativo em uma lavoura por um longo período de tempo, pode induzir mudanças genéticas no patógeno, fazendo com que aqueles indivíduos mais "tolerantes" ao fungicida sobrevivam e passem a multiplicar na área. Assim, novas aplicações do mesmo ingrediente ativo passam a não fazer mais efeito naquela área. Dizemos então que se trata de um caso de resistência do patógeno ao um determinado grupo de fungicidas. Os fungicidas cúpricos devido ao seu amplo mecanismo de ação desempenham importante papel evitando o aparecimento de isolados resistentes.
Publicado em: - 5 minutos de leitura
Em adição, vários cultivares resistentes foram desenvolvidos pelos programas de melhoramento do cafeeiro, mas mesmo utilizando cultivares portadores de genes de resistência, a ferrugem vem causando problema em algumas regiões e o controle químico ainda se faz necessário por dois motivos. O primeiro e mais importante está relacionado às outras doenças que podem ocorrer no cafeeiro.
Deve-se ter em mente que o cultivares melhorados apresentam genes de resistência para a ferrugem. Observações de campo e alguns poucos trabalhos de pesquisa, vem mostrando que estes materiais podem ser mais suscetíveis a Cercospora coffeicola e a seca de ramos do cafeeiro. Daí a importância de integrar outras medidas de controle, além do químico, em áreas cultivadas com materiais resistentes.
O segundo diz respeito à habilidade que o agente causal da ferrugem do cafeeiro, tem de se adaptar com facilidade aos materiais portadores de genes de resistência. Ainda faltam estudos para comprovar se os isolados presentes nestes materiais constituem mesmo uma nova raça do patógeno. O último levantamento envolvendo a coleta de isolados de ferrugem em diferentes variedades e regiões do Brasil, foi realizado a mais de 21 anos atrás. Naquela época foram identificadas 12 raças de ferrugem no país.
Um erro muito comum é a preocupação de muitos profissionais ligados à cafeicultura, relacionando a aplicação de fungicidas com o aparecimento de novas raças de ferrugem. Uma coisa não tem nada a ver com a outra e os conceitos básicos de fitopatologia muitas vezes são perdidos ao longo do tempo.
A determinação de raças de ferrugem, na verdade, envolve a resposta de determinados isolados do patógeno quando inoculados num grupo de plantas de café contendo genes de resistência conhecidos (diferenciadores de raças). Assim sendo, envolve a interação de genes avirulência do patógeno com genes de resistência do hospedeiro.
Poucas instituições de pesquisa no país apresentam a coleção de diferenciadores capazes de identificar raças de ferrugem. A coleção completa está presente em Portugal, no Centro de Investigações das Ferrugens do Cafeeiro (CIFC), que é uma instituição de pesquisa capaz de identificar os isolados de ferrugem coletados em várias partes do mundo. O CIFC já identificou mais de 45 raças de ferrugem, em materiais do mundo inteiro. Atualmente não sabemos quantas destas existem no Brasil.
O que acontece no caso de fungicidas, é que a aplicação consecutiva de um mesmo ingrediente ativo em uma lavoura por um longo período de tempo, pode induzir mudanças genéticas no patógeno, fazendo com que aqueles indivíduos mais "tolerantes" ao fungicida sobrevivam e passem a multiplicar na área.
Assim, novas aplicações do mesmo ingrediente ativo passam a não fazer mais efeito naquela área. Dizemos então que se trata de um caso de resistência do patógeno ao um determinado grupo de fungicidas. Os fungicidas cúpricos devido ao seu amplo mecanismo de ação desempenham importante papel evitando o aparecimento de isolados resistentes.
Cada grupo químico de fungicidas (cúpricos, triazóis, estrobilurinas, dentre outros) apresenta um mecanismo de ação que atua especificamente em uma ou várias rotas metabólicas do patógeno (dependendo se o produto é sistêmico ou protetor). Em geral estas rotas metabólicas não estão sob controle genético de genes ligados a resistência das plantas.
Portanto, não existem evidências que a falha de controle devido a aplicação de fungicidas esteja relacionada ao aparecimento de raças do patógeno. São conceitos e interpretações totalmente diferentes.
O que geralmente observamos são falhas no controle advindas de uma série de erros envolvendo a aplicação de fungicidas. Dentre eles destacam-se:
1- A época inadequada de aplicações. Muitos produtores deixam para realizar o controle da ferrugem quando a doença já está instalada na lavoura e os resultados são variados. Resultados de pesquisa mostraram que a maioria dos fungicidas sistêmicos utilizados na cafeicultura não apresenta bom efeito curativo, quando aplicados em plantas com índice acima de 15% de ferrugem. Se optar por fungicidas cúpricos esse índice não deve passar de 8%.
2- Aplicação antecipada de produtos via solo sem complementação foliar do tratamento nos meses de março/abril está comprometendo a eficácia desse tratamento. Estes produtos necessitam de água no solo para serem absorvidos pelas raízes e também de um período de tempo para serem translocadas para parte aérea da planta até que o ingrediente ativo atinja concentrações adequadas na folhas capazes de controlar a doença.
O efeito residual destes produtos dura em média 60 dias, a partir do qual a concentração do ingrediente ativo vai reduzindo nas folhas. Como conseqüência, a doença começa evoluir e pode haver necessidade de complementar o tratamento com aplicações foliares de fungicidas protetores ou sistêmicos.
3- Atomizações fora do alvo (o fungicida não atinge a parte de baixo das folhas, principalmente quando se usa produtos protetores). A ferrugem do cafeeiro é um fungo que penetra e multiplica apenas na parte de baixo da folha do cafeeiro. Logo este é o alvo a ser protegido.
4- Aplicação dos fungicidas sistêmicos nas horas mais quentes do dia compromete a absorção dos produtos pelas folhas do cafeeiro. Além disso, os produtos podem sofrer outras perdas (volatilização, por exemplo), secar muito rapidamente na superfície da planta e ser decomposto pela luz.
5- Aplicação de produtos com a folhagem molhada dificulta a aderência dos produtos nas folhas do cafeeiro. Do mesmo modo a ocorrência de chuvas logo após a aplicação de fungicidas sistêmicos e protetores pode "lavar" os produtos das folhas. Em geral necessita-se de no mínimo 4 horas para os protetores e 2 horas para os sistêmicos sem chuva ou sem irrigação.
6- A mistura de outros produtos químicos à calda de pulverização pode reduzir a eficácia do fungicida usado no controle da ferrugem do cafeeiro. Experimento de casa de vegetação e campo mostrou uma perda de 7 a 10% na eficácia de determinados triazóis, quando misturados a Calda Viçosa, visando o controle da ferrugem e o fornecimento simultâneo de micronutrientes no cafeeiro.
7- Na maioria das vezes a falta de conhecimento e treinamento dos aplicadores de fungicidas associado a manutenção e regulagem inadequada dos pulverizadores tem sido apontado como as principais causas observadas na maioria dos casos de falhas do controle da doença.
Ainda não existem relatos oficiais de ocorrência de resistência do agente causal da ferrugem aos ingredientes ativos presentes no mercado. Logo, a perda de eficiência do controle em algumas regiões do país se deve mais aos problemas relacionados à tecnologia de aplicação (aplicar um bom produto, no local certo e na hora certa) do que as especulações em relação ao surgimento de isolados resistentes.
Por outro lado, em áreas cultivadas com cultivares resistentes o aparecimento de novas raças de ferrugem pode ocorrer perfeitamente nestes materiais, em função da necessidade do patógeno evoluir para garantir sua sobrevivência na natureza. Fenômeno que ocorre independente do controle químico. Neste caso, o controle químico pode ser utilizado de maneira integrada com as variedades resistentes, evitando o aparecimento de novas raças.
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Material escrito por:
Antônio F. Souza
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JANDAIA DO SUL - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 19/05/2008
Daí a importância de se fazer uma orientação bem feita e acompanhada dos profissionais, com soluções combinadas, devido ao fato de que os produtores muitas vezes não seguem as orientações prescritas.
Meus cumprimentos ao autor e ao CaféPoint!

FRANCA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 16/01/2008
No presente caso, o artigo faz com que nós técnicos, refresquemos a memória e nos lembremos dos conceitos básicos que aprendemos nas escolas de agronomia. De fato, é muito fácil jogar a culpa do insucesso no controle simplesmente no aparecimento de raças resistentes, sem antes investigarmos nossos próprios erros ou descasos.
Entretanto, uma deficiência levantada, ainda fica "no ar": como atingir eficientemente a página inferior das folhas do cafeeiro, se os pulverizadores existentes no mercado fazem justamente o contrário?
Exceção feita às partes da folhagem que estão no terço médio e superior das plantas, o restante (barra), onde a incidência de ferrugem é maior, é impulsionada para baixo, provocando uma aplicação da calda sobre a página superior das folhas.
Lanço a questão: há como melhorar isto? O projeto dos pulverizadores não teria que ser mudado? Há como fazer com que os bicos inferiores lancem o jato para cima, levantando as folhas?
Com a palavra os Srs. projetistas das indústrias e os departamentos de mecânica das faculdades de agronomia.
Cumprimento o autor e o CaféPoint pelo artigo.
Se algum leitor tiver sugestão, ou se eu estiver muito "por fora" e ela já existir, que me perdoem, mas enviem suas idéias.

COQUEIRAL - MINAS GERAIS - PRESTADOR DE SERVIÇO
EM 15/01/2008