Adubação: importância do cronograma de execução
Como as fases fenológicas do café irão variar de acordo com a altitude e a temperatura da região, cada produtor deve preparar seu próprio cronograma de execução de atividades. Sugiro que a coleta e análise das amostras de solo sejam realizadas, no máximo, em meados de maio. Assim, haverá segurança e tranqüilidade para a realização de todas as ações conforme o cronograma.
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O cronograma ordena os períodos do ano nos quais devemos executar determinada ação, dentro do programa de correção e adubação. Como veremos, o cronograma de execução é de fácil elaboração e pode proporcionar maior renda líquida, caso seja bem executado. Deve ficar claro que o cronograma trata de períodos, não de dias pré-estabelecidos, uma vez que a agricultura é extremamente dependente das variações climáticas regionais.
Primeiramente vamos explicitar as ações a serem desenvolvidas em um programa de correção e adubação.
a) Coleta e análise de solo - O tempo gasto é variável de acordo com o laboratório; em épocas de pico pode levar mais de um mês para se obter o resultado - a época mais adequada para coleta de amostras de solo é final de abril a meados de maio - mas o tempo de duração estimado é de 4 semanas.
b) Recomendação de corretivos e fertilizantes - Esta etapa é realizada por profissional especializado; não é comum que demore muito tempo, mas isso irá depender de outros fatores. Tempo de duração estimado = 2 semanas.
c) Compra de corretivos e fertilizantes - Esta etapa pode demandar tempo, uma vez que uma pesquisa de mercado é fundamental. Tempo de duração estimado = 2 semanas.
d) Aplicação de corretivos - calcário - A aplicação em si não demanda muito tempo, mas o calcário deve reagir no solo durante um período de, no mínimo, um mês, desde que ocorram chuvas, antes de se aplicarem os fertilizantes - sua aplicação deve ser realizada o mais cedo possível, para que não ocorram perdas. Tempo de duração estimado = 4 semanas (após o início das chuvas).
e) Aplicação de fertilizante fosfatado - Aplicado de uma só vez, um mês após a aplicação de calcário. Tempo de duração estimado = irrelevante.
f) Parcelamentos de fertilizantes contendo N e K - Devem começar um mês após a aplicação de calcário, nunca antes, pois sua eficiência será reduzida. Para o café, geralmente são realizados no mínimo três: na florada, na época do chumbinho e na época do enchimento de grão. Obviamente, se não houver irrigação na área, e não chover no período, o parcelamento deve se aproximar o máximo possível dessas fases fenológicas. Tempo de duração estimado = 14 semanas.
Caso o cronograma de execução atrase em qualquer das etapas, fica claro que a etapa posterior será comprometida, e o programa de correção e adubação irá se transformar em algo sem fundamento, com ações realizadas fora de sintonia com a realidade. Por exemplo: ano passado um cafeicultor me procurou, em novembro, com resultado de análise de solo em mãos, para que recomendasse calagem e adubação para sua lavoura. Obviamente tive que recusar o trabalho, pois, por mais que eu me esforçasse para fazer uma boa recomendação, todo o programa estaria comprometido, e os resultados propostos não seriam alcançados.
Supondo que eu gastasse uma semana para realizar a recomendação, o produtor levasse uma semana para adquirir o corretivo e que este demorasse quatro semanas para reagir com o solo, a primeira aplicação de P, N e K seria realizada em meados ou final de janeiro. Todos nós sabemos que isso seria um descalabro. Se anteciparmos a aplicação de P, N e K, em relação à aplicação de calcário, também estaríamos cometendo um equívoco.
Para que fique claro o acontecido, vamos seguir um raciocínio lógico que irá ajudar a melhor entender o processo:
1) Não existe recomendação de adubação sem análise de solo
Se a quantidade de fertilizante a ser aplicada é igual à quantidade de nutriente requerida pela cultura menos a quantidade de nutriente fornecida pelo solo versus o fator relativo ao aproveitamento do fertilizante, então não podemos recomendar determinada quantidade sem saber quanto o solo fornece: isso é básico.
2) Não existe compra de corretivos e fertilizantes sem a recomendação
Ora, como comprar determinadas quantidades de corretivos e fertilizantes sem saber se serão necessários, ou não, e em quais quantidades? O "achismo" não pode fazer parte da cafeicultura empresarial.
3) Não existe aplicação de fertilizantes sem que transcorra um mês após a aplicação de calcário
Se não transcorreram 30 dias, no mínimo, após a aplicação de calcário, e esta for necessária, de que adianta aplicar fertilizantes, se não houve tempo hábil para a reação do calcário com o solo? Se não esperarmos os 30 dias, terá sido este um recurso mal utilizado e aproveitado.
Como as fases fenológicas do café irão variar de acordo com a altitude e a temperatura da região, cada produtor deve preparar seu próprio cronograma de execução de atividades. Sugiro, apenas, que a coleta e análise das amostras de solo sejam realizadas, no máximo, em meados de maio. Assim, haverá segurança e tranqüilidade para a realização de todas as ações a serem executadas de acordo com o cronograma.
Alguns dirão que estou sendo muito detalhista, e que na "prática" as coisas não funcionam assim. Respondo dizendo que tenho visto alguns retornos econômicos muito interessantes, sem a aplicação de tecnologias extremamente avançadas, bastando, para isso, que os cafeicultores utilizem tecnologias baratas e eficientes, como o simples e fácil cronograma de execução de atividades.
Infelizmente, alguém deve ter elaborado a recomendação para o cafeicultor que me consultou, mesmo antes de tentar conscientizá-lo da importância de se seguir um cronograma de execução. Afinal, dinheiro é dinheiro, certo?
Material escrito por:
André Guarçoni M.
D.Sc. em Solos e Nutrição de Plantas pela Universidade Federal de Viçosa-MG. Pesquisador do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper)
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CAMACAN - BAHIA - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 12/02/2015

NOVA VENÉCIA - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 08/02/2015

SÃO JERÔNIMO DA SERRA - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO
EM 02/09/2013
Gostaria de sanar uma dúvida, sobre o uso do calcário + super simples.
Como citado em outros artigos, doses altas de calcario, que vai transformar em excesso de cálcio, e + e se aplicar super simples, com excesso de cálcio, pode ocorrer a reação que vai transformar o super simples em fosfato de cálcio..ai minha dúvida qual serua a melhor maneira de aplicação de calcario + super simples, no suco..Como evitar essa reação..

FRANCA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 09/01/2013
Você tem algum artigo sobre nutrição após o plantio?
O 1º ano e o 2º ano após o plantio.
Grato,
Ronald

RIO BANANAL - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 30/06/2010
VENDA NOVA DO IMIGRANTE - ESPÍRITO SANTO - PESQUISA/ENSINO
EM 30/07/2009
Além de não poder tecer comentários sobre produtos que têm marca registrada, desconheço o produto por você mencionado. Entretanto, para mim, o preço do kg de N nas diversas fontes é o fator determinante. É raro que um produto apresente benefícios capazes de superar seu mais alto custo. Mas, no caso desse produto, pode ser que isso aconteça, como deve informar o fabricante.
André Guarçoni M.

RIO BANANAL - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 30/07/2009
Obrigado pela atenção dada ao meu questionamento. Gostaria de fazer outra pergunta: Tem uma empresa que produz fertilizantes de liberação lenta, importado da Alemanha, com o objetivo de fornecer nitrogênio para o conilon no plantio por nove meses.
Você conhece este produto e suas vantagens?
VENDA NOVA DO IMIGRANTE - ESPÍRITO SANTO - PESQUISA/ENSINO
EM 29/07/2009
O nitrato de cálcio é um dos fertilizantes com a menor concentração de nitrogênio entre os atualmente comercializados (14 % de N). A forma do nutriente neste fertilizante é o nitrato (NO3-). Por isso, o nitrato de cálcio não perde nitrogênio por volatilização, nem acidifica o solo. No entanto, podem ocorrer elevadas perdas de nitrogênio por lixiviação, caso a adição desse fertilizante não seja parcelada em diversas aplicações. O nitrato de cálcio é também fonte de cálcio para as plantas, mas utilizá-lo com esse objetivo pode ser um desperdício de recursos, uma vez que o calcário é a fonte de cálcio mais barata que existe.
O nitrato de amônio é um fertilizante nitrogenado que apresenta, em média, 50 % de N na forma amoniacal (NH4+) e 50 % na forma nítrica (NO3-), sendo a concentração total de N igual a 32 %. Dessa forma, pode perder nitrogênio tanto por volatilização (NH4+), se aplicado sobre folhas caídas no chão, quanto por lixiviação (NO3-), se a ocorrência de chuvas for elevada e as aplicações não forem parceladas.
Ambos os fertilizantes são adequados ao fornecimento de N para o café, tanto o arábica quanto o robusta. Entretanto, o que irá definir qual fertilizante a ser utilizado, considerando essas e outras fontes de nitrogênio, será o preço do kg de N no fertilizante. A gama de fertilizantes nitrogenados no mercado é grande, e uma acurada pesquisa de preços é fundamental para que o custo de produção seja mantido no menor nível possível.
Agradeço o questionamento.
André Guarçoni M.

RIO BANANAL - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 28/07/2009
VENDA NOVA DO IMIGRANTE - ESPÍRITO SANTO - PESQUISA/ENSINO
EM 22/06/2009
A aplicação de fontes de Mg, via solo, para equilibrar a relação Ca:Mg, é eficiente. Basta que a fonte de Mg seja a mais barata, o que irá conferir maior eficiência econômica.
O "Sulfato de Mg" é uma fonte viável, especialmente por ser solúvel em água. Entretanto, é uma fonte que geralmente apresenta um custo mais elevado. Sua substituição por "Óxido de Mg", ou mesmo "Calcário Dolomítico; > 12 % de Mg", pode ser mais vantajosa economicamente.
Agradeço o questionamento.
André Guarçoni M.

TAMBAÚ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 01/06/2009
VENDA NOVA DO IMIGRANTE - ESPÍRITO SANTO - PESQUISA/ENSINO
EM 24/04/2009
A reação que poderia provocar perdas de nitrogênio, nesse caso, não tem ligação com a maior ou menor solubilidade dos fertilizantes nitrogenados, mas sim com a volatilização do nitrogênio (perda de N para o ar na forma de amônia).
O primeiro composto formado, ou liberado, quando adicionamos fertilizantes nitrogenados ao solo, exceto os fertilizantes nítricos, é o amônio (NH4+). O amônio, na presença de elevada concentração de OH-, transforma-se em amônia (NH3), que é um gás e se perde para a atmosfera.
Portanto, o condicionante para perdas de N por volatilização é uma elevada concentração de OH- no meio, salvo no caso do nitrogênio estar na forma nítrica (NO3-). Esta elevada concentração de OH- pode ocorrer por duas razões: hidrólise da uréia (a concentração de OH- se torna elevada em torno do grânulo) ou aplicação de corretivo. Assim, mesmo que o calcário leve "maior período de tempo para reagir completamente" (corrigindo o pH do solo), é muito provável que reações localizadas ocorram bem superficialmente no solo, elevando a concentração de OH-.
Se aplicarmos uréia nesse caso, as perdas serão muito elevadas, caso não chova ou façamos irrigação logo após a aplicação (lembre-se que a maioria das formulações NPK é formulada com uréia). Se for o sulfato de amônio, por exemplo, as perdas serão menores do que com uréia, mas mesmo assim podem ocorrer.
Além das perdas, temos o problema do balanço de nutrientes. Não adianta aplicar nitrogênio se a planta não absorve cálcio ou magnésio adequadamente.
Portanto, Frederico, considero que a aplicação de fertilizante nitrogenado logo após a aplicação de calcário não seja a prática mais correta. Seguir o cronograma, para mim, continua sendo a prática mais adequada.
Agradeço o questionamento.
André Guarçoni M.

MUZAMBINHO - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE CAFÉ
EM 17/04/2009
Com relação ao assunto do artigo, gostaria de dizer o seguinte: já ouvi dizer que não há problema em se aplicar o nitrogênio em cobertura nas adubações logo após a calagem, pois o nitrogênio é um nutriente altamente solúvel, e é absorvido pelo cafeeiro em poucas horas. Como o calcário vai reagir no solo a longo prazo, não haveria problemas em se aplicar o nitrogênio logo após a calagem, pois esses produtos são de solubilidades diferentes, e que poderia haver algum problema se fosse uma fonte de calcário calcinado, que reagiria mais rapidamente no solo.
O que vc acha dessas afirmações?
VENDA NOVA DO IMIGRANTE - ESPÍRITO SANTO
EM 08/04/2009
De fato a realidade observada no campo é exatamente essa, pois muitas vezes o nível de conhecimento fica a quem, dando muito mais importância às novidades tecnológicas (máquinas e equipamentos), do que propriamente a base que é a nutrição das plantas. Falando em cafeicultura, cabe ainda ressaltar que nossos solos não dispõem de fertilidade como há 80 anos atrás, e ainda assim os cafeicultores insistem em não praticar o cronograma.
Em nossos debates em sala de aula, observamos que como difusores do conhecimento, precisamos propagar essas informações, até mesmo para a sobrevivência da cafeicultura de forma sustentável e equilibrada. Como no encerramento do artigo, dinheiro é dinheiro, portanto é preciso fechar a torneira para contar os desperdícios.
ATT,