Venezuela: queda na produção força país a importar café

No início do século XX, a Venezuela era um dos maiores países exportadores de café do mundo. Em agosto, pela primeira vez, a escassez do produto obrigou o país a importar café do Brasil, mesmo com os venezuelanos dizendo que este não se iguala à qualidade dos grãos locais do tipo arábica.

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No início do século XX, a Venezuela era um dos maiores países exportadores de café do mundo. Em agosto, pela primeira vez, a escassez do produto obrigou o país a importar café do Brasil, mesmo com os venezuelanos dizendo que este não se iguala à qualidade dos grãos locais do tipo arábica.

"Quando eu era jovem, não havia uma única família nesta cidade que não tinha algo a ver com o café. Era o coração de nossa cultura", diz Don Luis Paparoni, quase com 90 anos, cujo pai emigrou da Sicília, na Itália, e estabeleceu uma das plantações mais produtivas de café nos Andes, nos anos 20. Ele lembra-se dos dias em que a "Hacienda La Victoria" mandava café para Nova York e Hamburgo; hoje, a única renda é a gerada pelos turistas que visitam o museu estatal instalado em suas dependências.

Os produtores acusam a intervenção desajeitada do governo do presidente Hugo Chávez pelos problemas com o café, embora governos sucessivos pouco fizeram para interromper o declínio do setor cafeeiro na Venezuela, concentrado as atenções na exploração de reservas de petróleo do país.

Em agosto deste ano, a falta do produto levou Chávez a expropriar as duas maiores torrefadoras do país, a Fama de América e a Café Madrid, responsáveis por quase 80% da produção. Ele atribuiu a escassez à ocultação de estoques, especulação e contrabando. "Continuaremos estatizando monopólios para torná-los negócios produtivos nas mãos dos trabalhadores, da revolução", disse Chávez.

Os controles de preços tornaram as coisas ainda pior. Quantidades cada vez maiores de café e de outras mercadorias são contrabandeadas para o exterior, para serem vendidas a preços internacionais.

De acordo com analistas, vários dos problemas que atingem a produção de café são causados precisamente por esse tipo de intervenção pública. As expropriações, assim como a agressiva campanha de reforma agrária, geraram um clima de incerteza, que prejudicou os investimentos.

María Marcelina Chacón, dona de uma das poucas fazendas de café que sobrevivem nas encostas acima de Santa Cruz de Mora, reclama que com os proibitivos controles de preços espremendo os lucros e a alta nos custos ela não tem mais condições de pagar pesticidas suficientes ou trabalhadores. Ela receia que a colheita deste ano mal chegará a 150 quilos, cerca de 10% do que produzia há menos de dez anos.

Esses problemas, agravados pela demanda em alta decorrente da valorização do petróleo, vêm sendo a causa dos problemas periódicos de escassez de alimentos básicos. A solução de curto prazo do governo para o problema são as importações em massa, possibilitadas pela abundante oferta de câmbio gerada pelas exportações de petróleo. As importações de alimentos quadriplicaram nos últimos dez anos no país, de US$ 60 para mais de US$ 250 por pessoa por ano, diz Hiram Gaviria, ex-ministro de Agricultura. As importações equivalem a quase 70% do consumo de alimentos no país, que ostenta vastas áreas de terras férteis ociosas.

A produção de café foi prejudicada. A Venezuela, que chegou a rivalizar com a Colômbia em produção, produz menos de 1% do café mundial. Teme-se que a produção de café possa cair para menos de 45 mil toneladas neste ano, bem abaixo das 70 mil toneladas necessárias para satisfazer o consumo nacional.

Paparoni substituiu a maioria de seus pés de café com pastagens e continua a cultivar uma quantidade pequena de grãos apenas para "preservar a tradição".

A reportagem é do jornal Valor Econômico, resumida e adaptada pela Equipe CaféPoint.
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