Sylvia Saes: quando regulamentar o mercado?
Alguns representantes do setor defendem que a volatilidade de preços acentuada pelos movimentos dos mercados financeiros requer a regulamentação, em prol do produtor rural e da sua cadeia produtiva. Sempre é bom ressaltar que o histórico de quase cem anos de regulamentação mostrou que a política de defesa da valorização de preços do café não teve um final feliz para o setor: aumento da oferta e perda da participação do Brasil no mercado internacional.
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O presidente da França, Nicolas Sarkozy, foi um dos primeiros a levantar a bandeira contra "a especulação e a volatilidade dos preços agrícolas", propondo a criação de um estoque mundial de alimentos.
Esse movimento é o que faltava para que agentes do café brasileiro saíssem a público para propor uma política de preços mínimos para o mercado. Alguns representantes do setor defendem que a volatilidade de preços acentuada pelos movimentos dos mercados financeiros requer a regulamentação, em prol do produtor rural e da sua cadeia produtiva.
Sempre é bom ressaltar que o histórico de quase cem anos de regulamentação mostrou que a política de defesa da valorização de preços do café, apesar de ter engrossado as contas da balança comercial brasileira, não teve um final feliz para o setor: aumento da oferta e perda da participação do Brasil no mercado internacional.
As medidas que criam artificialmente soluções de curto prazo devem ter em conta os seus efeitos de longo prazo. É uma tarefa quase impossível definir artificialmente o preço ideal, considerando que os custos de produção não são homogêneos entre os produtores.
O preço estabelecido deve produzir incentivos adequados aos produtores de modo a garantir o bom funcionamento do mercado. Manter preço abaixo do de mercado cria uma expectativa negativa sobre os agentes, desestimula a produção e resulta em maior estreitamento da oferta no longo prazo.
Preços acima incentivam aumentos excessivos da produção, possibilitando a criação de mercado negro e necessidade de maior intervenção para coibir tais práticas.
Na atual conjuntura, de aumento dos preços e queda de estoque, qualquer medida visando conter os preços levaria à escassez do produto e ao desincentivo ao aumento e recuperação da oferta.
Nos casos de mercados reais, os determinantes de oferta e demanda são mais poderosos que medidas artificiais e explica por que estes funcionam melhor quando operam com o mínimo possível de intervenção. Isso não significa deixar oferta e demanda como os únicos juízes em um mercado que age de forma defasada tendo em vista a especificidade da produção agrícola.
Se a lei da oferta e da demanda é mais forte, uma forma de lidar com as falhas desse mercado é a adoção de incentivos aos agentes econômicos, como financiamento, assistência técnica, ou seja, mecanismos que permitam prover aos produtores uma sinalização adequada.
Pode-se concluir que tudo indica que a demanda por regulamentação das commodities agrícolas surge de um mal-entendido da diferença fundamental entre os mercados reais e os financeiros. Como se tem observado nos mercado futuros de café, a exagerada liquidez internacional e a forte presença de especuladores de derivativos têm contribuído para desestabilizar o mercado real.
Regular os mercados que espelham as reais condições da oferta e da demanda pode levar a resultados indesejados no futuro. Entretanto, o que fazer com mercados que distorcem o lado real da economia?
O artigo é de Sylvia Saes, para o jornal Folha de S.Paulo, adaptado pela Equipe CaféPoint.
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SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 30/03/2011
Obrigada pelos comentários. É trocando ideias que possibilitam interpretações mais inovadoras da realidade. A questão da regulamentação dos mercados é complexa. Vale observar que regulamentar nem sempre significa intervenção. A regulamentação deve, na verdade, permitir os mercados se tornem mais competitivos.
BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS
EM 29/03/2011
A intervenção que afetaria positivamente todos os agentes, de forma ampla, sem discriminação, se pequeno ou grande, se pobre ou rico, se mais ou menos forte na cadeia, seria reduzir o chamado custo Brasil. Esse é de longe o fator que mais causa distorções nos ganhos dos produtores e demais atores da cadeia produtiva. Só pra ficar no exemplo logística (que envolve transporte, armazenamento, etc) essa semana saiu uma comparação interessante desse custo para produtores de soja. Custo por tonelada no Brasil = US$ 83,00; na Argentina = US$ 23,00; nos EUA = 21,00. Se tivéssemos o custo igual ao norte americano isso significaria mais R$ 6,00/saca de soja no bolso do produtor. Isso significaria muito mais que todo subsídio ao crédito rural, que é discriminatório, já que não atinge todos os produtores, nem a necessidade total para o custeio. Logística, impostos, juros, desregulamentação, segurança no campo, respeito ao direito de propriedade, entre outras medidas, teriam impacto realmente positivo para todos os agentes (produtores, fornecedores de insumos, cooperativas, indústrias, distribuidores, consumidor final), sem discriminação, com efeitos positivos no bolso, na competitividade, na renda, no emprego...
Mas isso depende de termos um governo que respeite a livre iniciativa, que não ache que pode fazer mais e melhor (porque não faz, nem com boa vontade), que não é adepto do gigantismo e que não é perdulário. Depende também de que empresários, produtores, prestadores de serviços, banqueiros, e demais agentes privados não coloquem seus lobbies para buscar favorecimentos para seus grupos de pressão. O problema é que todo mundo concorda que o governo deveria fazer a sua parte para reduzir o custo Brasil, mas ninguém está disposto a deixar de mamar na teta do Estado. Tá na hora de um pacto pela competitividade, sem medo de ser feliz.
SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA - SÃO PAULO
EM 29/03/2011
Realmente o que manda ainda é a lei da oferta e procura, e interferir nessa equação pode criar uma falsa realidade, assim como a alguns anos os estoques mundiais de café já vinham caíndo ... caíndo e os fundos especulando sobre a realidade, e a OIC nada fez, ou pode fazer ou quis fazer, agora o mundo vai amargar em uns anos de muito pouco café e preços elevadíssimos ... mas daqui a alguns anos tudo volta ao velho "ciclo de altas e baixas do café".
Só o que não me conformo e ver estoques do governo sendo " perdidos" por má armazenagem e total falta de controle, e ao mesmo tempo pessoas passando fome em outras regiões, mas essa é a realidade do nosso Brasil.
Abraços e parabéns pelo artigo.