Sylvia Saes desvenda os gargalos da economia cafeeira

Maria Sylvia Macchione Saes, professora do Departamento de Administração da USP e pesquisadora do PENSA, concedeu entrevista ao Polo de Excelência do Café, falando sobre o grande gargalo da economia cafeeira, as tendência para esse mercado, a importância da certificação e dos investimentos na qualidade do café, entre outros.

Publicado por: CaféPoint

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Mestre e doutora em Economia (USP), foi com o tema café que a professora e pesquisadora Maria Sylvia Macchione Saes construiu um currículo destacado em sistemas agroindustriais e ações coletivas. Conhecedora do mercado de café e dos desafios inerentes à atividade, enfatiza seus estudos na compreensão de mecanismos de comercialização e diferenciação de cafés especiais, bem como das relações entre os diferentes elos da cadeia. Professora da USP desde 2002 e presidente da Comissão de Pesquisa da Faculdade de Economia e Administração (FEA/USP), também participa de projetos de pesquisa que envolve o desempenho de redes organizacionais e práticas industriais. É autora da obra "O Agribusiness do Café". Na última sexta-feira (09), Sylvia Saes participou de uma banca de qualificação de doutorado no Departamento de Administração e Economia da Universidade Federal de Lavras (DAE/UFLA).

Confira abaixo a entrevista realizada pelo Polo de Excelência do Café com a pesquisadora.

PEC/Café: O cafeicultor está sempre reclamando, e as crises estão cada vez menos espaçadas. Qual é o grande gargalo? É um erro do produtor ou uma característica do mercado?

São várias questões. Nos últimos anos, o salário da mão de obra cresceu muito, o que é um bom indicativo. Porém, nós competimos com países onde a mão de obra é muito barata. Este ponto onera principalmente o produtor do Sul de Minas, pelas características de uma cafeicultura de montanha, altamente dependente de mão de obra. Este problema de concorrência é real. Outro problema histórico está no valor do café brasileiro cotado internacionalmente. A diversidade enorme de produtores e a falta de cuidado em algumas regiões no pós-colheita fazem com que a qualidade média do nosso café não seja muito boa. Certamente existem produtores que conseguem nichos de mercado diferenciados. Mas, de maneira geral, o Brasil produz um café com alto custo de produção, porém, é pouco valorizado perante outros países produtores, como os cafés lavados.

PEC/Café: Como desatar este nó?

Ou a gente investe na melhoria da qualidade e mostra para o mercado internacional, ou os produtores de arábica de baixa qualidade continuarão a sofrer com a crise ou deixarão a atividade. É uma tristeza, já vimos muitas lavouras de café serem trocadas por eucalipto. Neste cenário, a certificação também pode ser uma alternativa para a diferenciação da qualidade.

PEC/Café: Depois de tantos estudos, pode-se dizer que a certificação traz sempre benefícios?

Os estudos realmente demonstram que nem sempre há um ganho financeiro com a certificação. Mas, de certa forma, ela começa a ser um parâmetro. Hoje o importador prefere comprar pelo mesmo preço o produto certificado. Então a certificação acaba sendo um custo a mais que o produtor tem que internalizar. Num primeiro momento, ela se apresenta como diferencial, mas a medida que muitos outros passam a adotá-la, dependendo da certificação, deixa de ser um diferencial para ser quase uma exigência do mercado. Quanto a isto não dá para fugir. Mas existe o lado bom. As certificações acabam por orientar o produtor na gestão da atividade, uma forma de administrar os custos, aperfeiçoar a produção, adotar práticas mais econômicas. Assim, tem-se o ônus de nem sempre o custo se reverter em aumento da renda, mas tem o benefício de organizar melhor a propriedade.

PEC/CAFÉ: Por esta ótica, o programa Certifica Minas Café, do Governo de Minas, está no caminho certo ao reduzir substancialmente os custos da certificação ao mesmo tempo em que reafirma seus benefícios?

Realmente é uma política interessante e pode render um ótimo estudo de caso. Esta experiência pode mostrar a diferença dos produtores antes e após a certificação, sobretudo, com enfoque na gestão das propriedades.

PEC/Café: Existe uma dúvida clássica. Na crise, quem sofre mais, o pequeno ou o médio produtor?

Acredito que o pequeno produtor tem maiores condições de sobrevida porque, em geral, ele deixa de contabilizar a mão de obra que na maioria das vezes é familiar. Ele consegue gerir melhor seu custo em épocas de crise. Já o médio produtor tem que arcar com a mão de obra e tem menos flexibilidade para redução de custos, sobretudo na colheita. A solução para o médio produtor seria evitar o monocultivo. Ele deveria escolher a melhor área para o plantio do café e investir em qualidade, enquanto em outras áreas deveria diversificar conforme a aptidão da região.

PEC/Café: Você é uma pesquisadora que tem o currículo marcado por estudos em café. São dezenas de artigos, projetos de pesquisa, livros sobre café. Como este tema surgiu em sua vida?

Estava no doutorado, (Universidade de São Paulo - USP), sem orientador e sem tema de estudo. Na época, a professora Elizabeth Farina me convidou para participar de uma pesquisa da ABIC sobre a cadeia do café. Entrei e não sai mais.fiz o doutorado e a livre docência sobre o café. O tema é cativante, as pessoas são interessantes, existe inovação, diferentes hábitos de consumo.

PEC/Café: Uma tendência para o agronegócio café?

Eu acho que a atividade vai passar por uma readequação. Produtores com custos elevados e baixa produção passarão por uma seleção natural, acompanhando o desenvolvimento da economia. O momento é de entender o que está acontecendo com o mercado para se adaptar a ele. Produtores que não se adaptarem a este contexto tecnológico, em muitos casos, terão que sair da atividade.

As informações são do Polo de Excelência do Café, adaptadas pela Equipe CaféPoint.
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Adilson Tavares da Silva
ADILSON TAVARES DA SILVA

ALFENAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 05/05/2010

Além da omissão do nosso governo, mais particularmente dos Ministérios da Agricultura e da Fazenda, que nada tem feito para impedir os elevados aumentos dos fertilizantes e defensivos, ainda temos que enfrentar as exigências trabalhistas decorrentes dos absurdos acordos (convenções) firmadas entre os sindicatos rurais. Fatos que oneram sobremaneira as despesas de custeio e colheita do café, principais gargalos por onde vazam os parcos recursos dos sofridos cafeicultores ou que fazem-no mergulhar no vasto oceano da insolvência...
Por fim, caso o resultado financeiro anual seja favorável ao sofrido cafeicultor, lembre-se que, por ocasião da declaração do imposto de renda, o Leão irá abocanhar aquilo que lhe parecia ser lucro.
Domingos Ribeiro de Andrade
DOMINGOS RIBEIRO DE ANDRADE

BOM SUCESSO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 26/04/2010

Acredito que ao analisar os gargalos da economia cafeeira, primeiramente temos que referir à valorização do real frente ao dolar e às altas de insumos, combustíveis e mão de obra. Nos últimos quinze anos o café subiu 30% e o custo 500%.
Todos dizem que o pequeno produtor resistira à crise. Acredito que sim, se tiver uns quatro filhos qque aceitem trabalhar sem carteira assinada e salário. Não é o que esta acontecendo, os jovens agricultores estão optando por trabalhar no comércio, na industria de auto peças ou em outra atividade rural de risco menor que o café.
Certificar pode ser um bom caminho. Esta se tornando necessário pela necessidade de qualificarmos nosssa mão de obra e melhorar nossos processos. Por outro lado quem tem o selo Certifica Minas observa que o mercado exige outras certificadoras e os custos são mais altos.
Além disso nosso sócio ( governo federal) anda muito exigente, nos impondo leis de toda natureza, com muito rigor nas fiscalizações e aumentando seu percentual de lucro ano após ano(impostos).
Resumindo, o cafeicultor esta sem rumo e se não houver alguma mudança de nossa parte ou do governo os cafeicultores não resistirão.
Fernando de Souza Barros jr.
FERNANDO DE SOUZA BARROS JR.

SÃO PAULO - SÃO PAULO - TRADER

EM 18/04/2010

Matéria interessante e pertinente ao momento que estamos passando. Enquanto as pessoas que tem interesse em ver o produtor de café bem, com uma vida digna e sem confundir crédito com renda, não perceberem que não somos vendedores de café e sim comprados na nossa necessidade de ter que vender baseado na cotação de N.YORK (contrato C) da Colombia menos um diferencial que apenas
mostra o fluxo da oferta, apesar de termos 50% do mercado de café arábica na nossa mão, não temos GESTÃO e PLANEJAMENTO para o Café.

A prova disto é que não sabemos o nosso estoque de passagem, a divida é crescente, e até créditos de PIS e COFINS (9,25%) são usados pelo exportador para mandar nosso café para fora, criando esqueleto hoje na casa de um bilhão de reais que o GOVERNO vai ter
que pagar. Portanto não há mecanização, certificação etc.. que mude o preço se não mudarmos o sistema aonde estamos escravisados a espera sempre do ano que vem!

Vamos mudar e parar de vender o máximo pelo mínimo!!
Willem Guilherme de Araújo
WILLEM GUILHERME DE ARAÚJO

GUAXUPÉ - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 16/04/2010

Muito bom o comentário da Professora Sylvia. Realmente se não houver um aumento da produtividade, atrelado a melhoria significativa da qualidade certamente em breve acompnharemos a mesma situação que ocorreu no Vale do Páraíba, no inicio do séc. XX. Porém, iniciativas como o Certifica Minas Café possbilitam ao cafeicultor criar um diferencial para o seu produto e assim ganhar um poder maior de negociação no mercado, garantindo além da produção sustentável do café, uma melhor gestão financeiro-adminsitrativa da propriedade.
Henrique de Souza Dias
HENRIQUE DE SOUZA DIAS

SERRA DO SALITRE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 13/04/2010

Não me canso de dizer que o sucesso no café está na produtividade e esta é inversamente proporcional à idade da lavoura. Os preços estão ruins para quem está fora da faixa boa de produtividade. Lavouras novas de 5-6 anos podem produzir até 70-80 sacas por hectare. Não existe negócio melhor.
A qualidade é importante para "eles" abaixarem os nossos preços, já que vendemos 50-60% dois Arábicas do Mundo.Se os nossos cafés não servissem estaríamos fora do mercado há muito tempo.
A produtividade alta traz muito mais renda do que a melhor qualidade. A Dra. Sylvia diz que será exigencia do mercado. O que sei é qualquer arábica exportável é muito mais valioso que a maioria dos Robustas. A nossa "qualidade média" é excelente.
Luiz Marcos Suplicy Hafers
LUIZ MARCOS SUPLICY HAFERS

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 13/04/2010

Boa colocação da situaçao. A meu ver mais grave do que concedido. Temos uma devastadora explosão dos preços por represamento da adequação custo/preço.
Eliane de Andrade C. Nogueira
ELIANE DE ANDRADE C. NOGUEIRA

SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 13/04/2010

Tudo o que a Sylvia disse , está coberta de razão, o produtor tem que se profissionalizar urgentemente , agregar valor a seus cafés, certificarem para ganhar mercado, isto não há como fugir.Estamos em uma fase de mudanças profundas na cafeicultura e a realidade é agregar valor com uma administração rigorosa em todos os aspectos das propriedades.Mas, outro fator importantíssimo´são as gestôes do agronegócio café por parte do governo, sem esta reestruturação , o produtor não tem como sobreviver.A saída do ministério da agricultura é um fato relevante e de extrema urgência , a concorrência com os países produtores exige organização , marketing ou seja , uma ´política realmente voltada para o setor, um orgão ,como o extinto IBC, também é de fundamental importância , pois são 8.000.000 de pessoas envolvidas na atividade.Portanto, é um conjunto, o produtor faz a sua parte e o governo , faz a sua....