Sistema de inteligência da concorrência: Vietnã

Nos últimos 25 anos o Vietnã obteve um crescimento fantástico em sua produção de café, passando de 22.000 ha cultivados para algo em torno de meio milhão de hectares atualmente. De acordo com o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural do país, o café é cultivado atualmente em 20 províncias. A importância do café para a região é tanta que quase todos os habitantes da capital da província de Dak Lak estão envolvidos de alguma maneira com o café.

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1. Contextualização

Nos últimos 25 anos o Vietnã obteve um crescimento fantástico em sua produção de café, passando de 22.000 ha cultivados para algo em torno de meio milhão de hectares atualmente. De acordo com o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural do país, o café é cultivado atualmente em 20 províncias. Aproximadamente 85% da produção do país se concentra na região central ou "Central Highlands", localizada 700 km ao norte de Ho Chi Minh City. As principais áreas estão nas províncias de Dak Lak, Lam Dong, Gia Lai e Danknong. A importância do café para a região é tanta que quase todos os habitantes da cidade de Buon Me Thuot, capital da província de Dak Lak, estão envolvidos de alguma maneira com o café.

No início de 2009, a região de Dak Lak enfrentou sérios problemas com a falta de água para a irrigação do café. O nível dos rios, cursos d'água e reservatórios estiveram em níveis inferiores aos registrados ano passado, o que inclui a água armazenada no solo. De acordo com fontes locais, até abril muitos produtores não haviam realizado o número de irrigações necessárias para o bom desenvolvimento da lavoura.

Figura 1. Regiões produtoras de café do Vietnã

Figura 1

FONTE: Vicofa

Os cafeicultores continuam a expandir o cultivo de café apesar dos esforços governamentais, solicitando aos produtores que invistam no uso de técnicas de manejo sustentáveis e melhores práticas na colheita para melhorar a qualidade do café vietnamita.

Num período de turbulência econômica onde os preços do café enfrentam grande volatilidade no mercado internacional, representantes do setor tem solicitado aos envolvidos com a cadeia do café no país que busquem maneiras de reduzir os custos de produção. O objetivo é racionalizar o uso de fertilizantes, reduzir o consumo de água na irrigação, aplicar o conceito de Boas Práticas Agrícolas e o Manejo Integrado de Pragas.

O Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural planeja investir até o ano de 2020 mais de US$ 2 bilhões para tornar a cafeicultura vietnamita mais competitiva no mercado internacional. O objetivo principal deste plano é fazer com que todo o café vietnamita atenda padrões internacionais de qualidade e seja comercializado tanto no mercado doméstico quanto internacional por preços iguais ou superiores ao de seus concorrentes.

O plano é ambicioso e prevê investimentos nas regiões cafeeiras em logística e na construção de reservatórios e canais de irrigação, assegurando que 75% das regiões cafeeiras tenham acesso à irrigação em 2015, aumentando para 100% em 2020. Também serão investidos recursos em mecanização e na aquisição de máquinas de processamento. O plano dará atenção especial à qualidade da produção, onde o objetivo é manter a área de cultivo estável, entre 450.000 e 500.000 ha, com produtividade de 35 a 40 sacas/ha. Áreas antigas serão renovadas com novas variedades e serão introduzidas melhores técnicas de manejo da lavoura, com aumento da produção de cafés certificados e sustentáveis. Outra meta ambiciosa é fazer com que o consumo doméstico responda por 10 a 15% do total produzido (atualmente representa 5% da produção) até o ano de 2015.

2. Produção

O ano safra 2007/08 teve uma produção estimada em 18,3 milhões de sacas de acordo com o USDA, enquanto que fontes locais divulgaram uma estimativa de 16,1 milhões de sacas.

As estimativas para o ano safra de 2008/09 são de grande aumento da produção, para 21,5 milhões, segundo o USDA. Isto significaria um aumento de 17% em relação à safra anterior, devido principalmente às boas condições climáticas, boa produtividade e também à entrada em produção de novas áreas. As estimativas locais são menos otimistas, apontando o alto custo dos fertilizantes (que dobraram de preço em 2008) como entrave. O órgão responsável pelas estimativas oficiais do país, o General Statistics Office (GSO), estima a produção 2008/09 em 17,8 milhões de sacas.

Gráfico 1. Comparação das estimativas de safra USDA e GSO Vietnã de 1997 a 2008

Figura 2

Fonte: CIC, USDA e GSO

Informações divulgadas em abril pela Associação do Café e Cacau do Vietnã (Vicofa) dão conta que a safra 2009/10 pode ser prejudicada pela floração prematura e chuvas fora de época. As plantas começaram a formar frutos em algumas áreas e cerejas foram encontradas no chão das lavouras. O levantamento foi realizado nas províncias de Dak Lak e Lam Dong, responsáveis por aproximadamente 70% da produção total do país. Segundo a Vicofa, a próxima safra a ser colhida em Outubro dificilmente atingirá 16 milhões de sacas. O mercado por sua vez acredita em uma safra maior em 2009/10, entre 20 e 21 milhões de sacas.

3. Disponibilidade de café

O Vietnã exportou, segundo o USDA, 17,93 milhões de sacas no ano safra 2007/2008, um declínio de 10% em relação ao ano anterior. Porém, o país quebrou o recorde no valor das exportações de café, alcançando US$ 2,116 bilhões, graças aos bons preços pagos no mercado internacional ano passado. Isto representa um aumento de 20% em relação ao período anterior. De acordo com o GSO, a previsão de exportações para 2008/2009 será de 16,73 milhões de sacas, sendo que o valor total deve ficar em torno de US$ 2 bilhões.

O país exporta para mais de 75 países no mundo, Alemanha, EUA, Itália e Espanha são os principais mercados compradores. A Rússia está se tornando um grande importador, com mais de 300 mil sacas importadas durante o ano safra 2007/2008, muito acima da média de 90 mil sacas. Outros países produtores também compram o Robusta vietnamita para re-exportação devido ao seu baixo preço. O Equador importou em 2008 aproximadamente 300 mil sacas e Tailândia, Índia e Indonésia são importadores constantes.

O café solúvel, torrado e moído e as misturas 3 em 1 são vendidas principalmente no mercado interno, porém, já atinge alguns mercados internacionais como o Canadá, Alemanha, Austrália, Coréia do Sul, China e EUA.

O café Robusta vietnamita obteve um preço médio de exportação em 2008 de US$ 2.012 a tonelada, um aumento de 37% em relação a 2007. Este é também o maio valor alcançado desde as altas históricas de 1994/1995. Os preços sofreram forte declínio com a grave crise econômica no final de 2008 e persistem em 2009. Os preços atuais em torno de US$ 1.500 a tonelada tem encorajado os produtores a reterem seus estoques. Porém, uma elevação nos preços em fevereiro, para aproximadamente US$ 1.700 a tonelada fez com que o país exportasse 2,5 milhões de sacas neste mês, 95% a mais em termos de volume se comparado a fevereiro de 2008. No mês de abril, as exportações aumentaram 41%, para 1,83 milhões de sacas se comparado com abril de 2008. De acordo com o GSO, o volume exportado entre janeiro e abril foi de 9 milhões de sacas, 18,8% a mais que 2008. Os ganhos com as exportações por sua vez recuaram 12,6%, para US$ 809,5 milhões, como resultado de preços mais baixos.

Representantes da cafeicultura estão solicitando aos produtores que atrasem as vendas até junho-julho ou até os preços reagirem. Nesse sentido, o governo anunciou em fevereiro de 2009 um pacote de US$ 8,9 bilhões em empréstimos para aquecer toda a economia do país. Parte deste pacote poderá ser usada como ajuda aos produtores até os preços se recuperarem no mercado internacional.

O consumo de café na safra 2007/2008 está em 885 mil sacas de 60kg. Atualmente, o consumo representa apenas 5% do total produzido no país. A estimativa de consumo de café para 2008/2009 é de 910 mil sacas.

4. Oportunidades e ameaças à cadeia produtiva brasileira

No final de 2008, durante o evento "Vietnam Coffee Outlook" confirmou-se que a cafeicultura vietnamita continua extremamente competitiva, com custo de produção em torno de US$ 600 a US$ 800 por tonelada (US$ 36 a US$ 48 a saca de 60kg). A composição deste custo de produção é, em números muito aproximados, de 20% para mão-de-obra, 40% para fertilizantes e 40% para irrigação.

Podemos concluir que a expansão do cultivo de Robusta no Vietnã continuará sendo estimulada, se não por fatores externos ligados aos preços internacionais na atual crise, por fatores internos ligados à competitividade de sua cafeicultura. Como entraves, podemos citar a forte dependência da irrigação, o que torna a cafeicultura vietnamita extremamente suscetível à secas.

Com a valorização do dólar frente ao real brasileiro em meses recentes, a competitividade da cafeicultura de Robusta brasileira em comparação com a vietnamita melhorou. O custo do Conilon brasileiro em dólar caiu, enquanto que o custo do Robusta vietnamita se manteve estável. Como resultado, surgiu uma melhor oportunidade para exportar Conilon brasileiro. Esta vantagem está atrelada ao dólar e, se continuar a atual desvalorização, a balança novamente irá pender para o lado vietnamita.

A competitividade do Robusta vietnamita é uma grande ameaça à indústria de café solúvel brasileira. O custo baixo desta matéria-prima tem sido um forte incentivo para o surgimento de indústrias de café solúvel não apenas no Vietnã como em países vizinhos e países do leste europeu, a exemplo da Rússia. Vale ressaltar que constam como importadores de café vietnamita importantes países produtores de café, que são também produtores e/ou exportadores de café solúvel, como Índia, Indonésia e Equador. Uma outra ameaça ao solúvel brasileiro vem da expansão da própria indústria do solúvel vietnamita, que é crescente e já exporta para tradicionais mercados brasileiros, como a Rússia.

O crescimento continuo da demanda mundial por café Robusta fornece uma base segura para a cafeicultura vietnamita, e mesmo com a depreciação dos preços do Robusta na bolsa de Londres no final de 2008 e início de 2009, os cafeicultores vietnamitas continuam obtendo grandes lucros em sua atividade.

Este cenário macroeconômico favorável aliado à disposição do governo e dos agentes do setor de expandir a produtividade e qualidade do café vietnamita, fazem com que a cafeicultura vietnamita seja uma das maiores ameaças à cafeicultura brasileira, principalmente no Robusta e no solúvel, nos próximos anos.

As informações são do Centro de Inteligência do Café - CIC.

Nota: Para maiores informações sobre o Vietnã e sua cafeicultura, o Centro de Inteligência do Café recomenda a leitura do 1° relatório sobre o tema, relacionado abaixo.
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