Saca do café se valoriza bem mais que café no varejo

Em 9 anos a saca do café se valorizou mais do que o café torrado e moído vendido ao consumidor. No período de janeiro de 2002 a janeiro de 2011, o quilo do café no varejo valorizou 75,92%, enquanto a saca do arábica subiu 293,32% e do café conilon 310,93%. A margem da indústria está se estreitando com aumento do preço da saca e quase estabilidade de preço no varejo.

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Em 9 anos a saca do café se valorizou mais do que o café torrado e moído vendido ao consumidor.

No período de janeiro de 2002 a janeiro de 2011, o quilo do café no varejo valorizou 75,92%, enquanto a saca do arábica subiu 293,32% e do café conilon 310,93%.

Calculando uma relação de troca entre a saca de café arábica e conilon e o quilo do café torrado e moído vendido no varejo, é possível avaliar as margens de lucro e o poder de compra da indústria. Dessa forma, quanto maior a relação de troca, menor o poder de compra da indústria, visto que ela precisa vender mais quilos de café no varejo para pagar a saca de café adquirida do produtor, a qual está valendo mais.

Tal análise é importante para avaliar qual está sendo a tendência da margem da indústria, com relação ao preço do café no varejo e o preço da saca paga ao produtor. Assim, pode-se concluir se ainda há espaço para encurtamento dessa margem mantendo lucro, ou se há necessidade de a indústria repassar o aumento do custo da matéria -prima ao consumidor, para garantir sua rentabilidade.

Em janeiro de 2002, a relação de troca (quantos quilos de café no varejo são necessários para comprar uma saca) para o café arábica estava em 17,66 kg/saca. Atualmente, fevereiro de 2011, a relação de troca está em 46,71 kg/saca, apresentando menor poder de compra da indústria em relação a 2002.

Para o café conilon, em janeiro de 2002 a relação de troca estava em 8,11 kg/saca, enquanto em fevereiro de 2011 ficou em 20,05 kg/saca.

Figura 1


Em fevereiro de 2010 a relação de troca (arábica) foi de 26,42 kg/saca, contra 46,71 kg/saca em fevereiro de 2011.

A diferença entre o valor da saca de café e o produto no varejo teve aumento mais significativo no último ano. O valor da saca de café subiu fortemente em função da menor oferta de café no mercado mundial, junto a demanda aquecida.

Porém, a alta de 54,94% de janeiro de 2010 a janeiro passado no preço pago ao produtor pelo arábica e de 20% pelo conilon, não foi repassada para o varejo, visto que a alta do produto foi de apenas 4,55%.

Uma hipótese para o não repasse da alta ao consumidor é a dificuldade da indútria diante do grande número de marcas existentes no mercado.

O café é um produto ineslástico, portanto a variação de preço não deve impactar tanto na quantidade demandada. Mas o consumo pode ser afetado visto que a indústria de bebidas compete de alguma forma com o café, além de que os consumidores podem optar por produtos de menor qualidade em busca de preços mais acessíveis.

Em dois anos, de janeiro de 2009 a janeiro de 2011 o preço do quilo de café torrado e moído só perdeu seu valor, saindo de R$ 12,96 indo para R$ 11,03, com queda de 14,89%. No mesmo período a saca do conilon se desvalorizou 8,40% no período, enquanto a saca do café arábica se valorizou 61,90%.

Em janeiro de 2011, mês que, até então, fechou com o preço do café no varejo em seu maior pico, a saca do arábica variou + 13,25% (na comparação com o mês anterior) e a do conilon + 8,59%, ao passo que nos supermercados, esta variação foi de apenas + 3,37%.

Em fevereiro do presente ano ocorreu o inesperado. Enquanto a saca tanto do arábica como do conilon se valorizou, 14,68% e 2,53%, respectivamente, o preço do café vendido para o consumidor caiu 3,08%, passando de R$ 11,03/kg em janeiro de 2011 para R$ 10,69/kg em fevereiro.

Figura 2


Em 2010 a valorização do café arábica foi de 36,82%, e a do conilon de 10,51%. No mesmo período o café para o consumidor aumentou apenas 1,14%.

Com o mercado tão firme e tendência de que a matéria-prima se valorize ainda mais ou se mantenha nos atuais patamares, começa haver maior necessidade de que a alta seja repassada ao consumidor. Isso já começou a ser feito como o caso da Sara Lee,que reajustou o preço do Café Pilão em +15%, e da Starbucks e J.M. Smucker. A J.M. Smucker que aumentou em 10% os preços dos cafés Folgers e Dunkin Donuts.

Agora, outras torrefações já informam que vão reajustar o preço do café de 25% a 30% nos próximos dias.
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Material escrito por:

Natália Sampaio Fernandes

Natália Sampaio Fernandes

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raymond rebetez
RAYMOND REBETEZ

SÃO PAULO - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE CAFÉ

EM 05/04/2011

Prezada Natalia,

Muito oportuno o seu artigo. Podemos perceber nitidamente a dificuldade da industria repassar seus aumentos de custos na materia prima, o que nos leva a algumas ponderacoes.
Como voce bem demonstrou nao ha margem; portanto ou as industrias torrefadoras(principamente a de marcas populares) estao perdendo dinheiro, o que e pouco provavel, ou estao diminuindo a qualidade da materia prima para manter a competitividade. Se esta ultima hipotese estiver correta eh um tremendo retrocesso no trabalho desenvolvido nestes ultimos anos pela ABIC de promover qualidade.
O que me parece irreversivel eh que os precos do cafe continuarao em suas maximas historicas por dois ou tres anos por problemas estruturais na producao (valorizacao do real, aumento de custos da mao de obra, etc..).
Faz se absolutamente necessario o repasse de precos e a manutencao da qualidade para que o consumo nao sofra um retrocesso. abs Raymond
Celso Luis Rodrigues Vegro
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 04/04/2011

Prezada Natália
A realidade está mostrando o quanto é importante para as torrefadoras aderirrem ao mercado de títulos financeiros. Caso os torrefadores tivessem efetuado contratos de opção de compra estariam protejidos dessa elevação nas cotações. Um mercado de opções mais desenvolvido é o que falta para melhorar o ambiente de negócios no agronegócio café.
Para o consumidor vai ser ótimo, pois na BM&F o padrão do café utilizado nos contratos é muito, mas muito mesmo melhor do que o utilizado normalmente pela indústria.
Abçs
Celso Vegro
sylvia saes
SYLVIA SAES

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 30/03/2011

Cara Natália,

Seu excelente artigo mostra a característica ainda muito competitiva da nossa indústria de café. Isso significa que há muito que fazer para fidelizar o consumidor. O consumidor ainda é muito elástico ao preço, apresentando de uma forma geral pouca sensibildiade com relação a marca. Como sabemos, houve muita mudança nos últimos anos, mas as empresas ainda tem caminho a ser trilhado, que é de certa forma facilitado pelo fato do café ser um bem de experiência.
Diogo Ribeiro da Luz
DIOGO RIBEIRO DA LUZ

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 29/03/2011

Excelente matéria.
Vale lembrar que o diferencial entre os cafés finos e os baixos está grande como nunca e estes, que fazem o maior volume nas prateleiras subiram bem menos.
Porém o consumidor já deu claros sinais que aceitará aumento no preço do café, que representa muito menos no orçamento, que anos passados.
Prova disso é que tem aumentado o interesse por cafés de dose, bem mais caros e a xícara de café subiu consideravelmente de preço, também com aumento no volume das vendas. Vale notar que esse aumento foi provocado pela oportunidade e não pelo custo, mesmo porque o custo da matéria prima café contido na xícara é menor que o valor do aumento por sí só.
Jacques Pereira Carneiro
JACQUES PEREIRA CARNEIRO

CARMO DE MINAS - MINAS GERAIS - TRADER

EM 29/03/2011

Algumas coisas vão acontecer nessas situações e fatos: Nessa volatilidade, as industrias vão mostrar a cara sem mascara, na qualidade do produto, no respeito ao seu consumidor, no planejamento financeiro das empresas e nas estratégias de aumento de market-share. Muitas indústrias vão baixar qualidade e desrespeitar tudo aquilo que passaram um dia para o seu cliente. Mostrarão a cara! Esse cliente não é bobo e vai sentir logo a baixa de qualidade no produto e vai migrar para outra marca! Esse será o vai e vem da qualidade e suas migrações! Outro ponto será as estratégias de preços, onde as empresas mais bem preparadas e planejadas usarão a estratégia de baixar ainda mais o preço ou não reajustar para ganhar cliente. Esse momento é onde a grande verdade aparece: O cliente é o ponto mais importante das empresas e merecem total atenção porque pode ser cliente para a vida toda! Então num momento tão especial e diferente de valorização do preço do café, muitas estratégias são usadas, mas tudo sempre pra ganhar cliente!
Isaac Ribeiro Gabriel
ISAAC RIBEIRO GABRIEL

GUAXUPÉ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 29/03/2011

Prezada Natália,
Clara e objetiva, a matéria mostra o sacrificio de margem que as torrefações estão se submetendo. Com relação às marcas de cafés de alta qualidade, a pressão é ainda maior, pois os parâmetros de mercado são, fundamentalmente construidos com base nos cafés de maior consumo ( consumo interno ). Ocorre que os aumentos de preço nos cafés crús de baixa qualidade, não ocorreram no mesmo tempo que nos cafés finos. Êles estão ocorrendo com uma defasagem de elguns meses. Neste cenário, fica mais dificil recuperar as margens com repasses de preços nos cafés alta qualidade, que já sofreram aumentos consideráveis.