"Precisamos mudar a pesquisa do café de uma lógica de projetos para uma lógica de resultados"

O novo chefe-geral da Embrapa Café, Rodolfo Osorio de Oliveira, defende uma revisão do modelo de gestão da pesquisa cafeeira, maior previsibilidade dos recursos do Funcafé e programas permanentes de capacitação para aproximar a ciência do campo

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“O potencial da cafeicultura está no Brasil inteiro”. Esta frase define o desafio que Rodolfo Osorio de Oliveira, novo gestor da Embrapa Café, tem pela frente. Para isso, o engenheiro agrônomo quer mudar o modelo que orienta a pesquisa cafeeira brasileira, hoje focado em projetos, para uma lógica baseada em resultados. Seu foco é alavancar a sustentabilidade e o desenvolvimento de territórios por meio de um programa de capacitação continuada para técnicos, responsáveis por disseminar o conhecimento porteira adentro. Entre os territórios, destaca-se o Nordeste, onde estudos recentes identificaram potencial para a cafeicultura em sete dos nove estados da região.

A seguir, a entrevista com Oliveira, concedida à Espresso por videoconferência a partir de Brasília.

Espresso: Sua chegada é vista como um novo ciclo para a Embrapa Café. O que muda a partir daqui?

Rodolfo Osorio de Oliveira: Quero transformar a Embrapa Café numa referência forte em café dentro da própria empresa e para o país. Vou aproveitar os 43 centros de pesquisa que a instituição tem, com equipes que trabalham com genética, solos e agroindústria, para contribuir com a cafeicultura sustentável e resiliente às mudanças climáticas, sempre olhando os pilares econômico, social e ambiental. Mas é preciso fortalecer o [pilar] econômico. Se o produtor não tiver renda, fica difícil exigir mais dele. Hoje existem tecnologias para arábica e canéfora que permitem produzir bem, ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, reduzir impactos ambientais e emissões de gases de efeito estufa.

E: O que é a Embrapa Café e qual a relação dela com o Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café (CBP&D/Café)?

R: O consórcio é um acordo de cooperação técnica, criado em 1997, que reúne instituições estaduais de pesquisa [Epamig, IAC, Incaper, IDR-PR e Pesagro-Rio], universidades [UFLA, UFV e Uesb], a Embrapa e o MAPA. Essa cooperação surge para organizar a pesquisa cafeeira após a extinção do Instituto Brasileiro do Café (IBC), em 1990. Neste arranjo, a Embrapa faz a gestão, o repasse de recursos para pesquisa e é responsável por uma estratégia nacional de desenvolvimento da cafeicultura, garantindo continuidade às pesquisas.

E: Em quase três décadas de atuação, quais as principais entregas do CBP&D/Café?

R: A principal foi a formação de equipes técnicas qualificadas para a cafeicultura. Uma parte dos pesquisadores que atuam com café nas instituições brasileiras passou por programas apoiados pelo consórcio. Além da formação de pessoal, o consórcio contribuiu para o desenvolvimento de diversas cultivares de café arábica adaptadas às diferentes regiões produtoras, com maior produtividade e resistência a altas temperaturas, pragas e doenças.

Outro avanço foi a criação de um ambiente de trabalho em rede entre instituições de pesquisa, fortalecendo a cooperação, a troca de conhecimento e a busca conjunta por recursos.

Figura 1
Rodolfo Osorio de Oliveira - Foto: Rose Lane César

E: Como são definidos os temas da agenda de pesquisa?

R: Os temas de pesquisa são avaliados e aprovados por um comitê técnico de representantes da cadeia no CDPC. O consórcio apresenta uma proposta inicial de temas, construída a partir de consultas ao próprio setor, buscando identificar os obstáculos e demandas da cafeicultura. A partir disso, são estruturadas as agendas de pesquisa, que têm funcionado por meio de editais com duração média de quatro anos.

E: As pesquisas do CBP&D/Café são financiadas por recursos do Funcafé. Como tem sido o financiamento das pesquisas nos últimos anos?

R: Não existe pesquisa sem dinheiro e, principalmente, sem previsibilidade. Há uma tendência de queda nos repasses do Funcafé para pesquisa, algo que preocupa o consórcio e a Embrapa. Mais do que o volume de recursos, o problema é a instabilidade dos repasses, já que pesquisa é um processo de médio e longo prazo. Um projeto dura pelo menos quatro anos; no caso do desenvolvimento de cultivares, pode levar até 25 anos. Prefiro trabalhar com menos recursos, mas com garantia e previsibilidade ao longo do tempo. Os projetos são planejados para ciclos de quatro anos, mas os recursos dependem do orçamento anual do MAPA, que varia de ano para ano. Ou seja, o planejamento da pesquisa é de médio prazo, enquanto a lógica do financiamento é de curto prazo. Isso não é má vontade do ministério nem do consórcio, mas uma dificuldade do modelo atual.

Também é preciso olhar para os próximos 20 anos, entendendo como as mudanças climáticas vão afetar a cafeicultura, especialmente a do arábica, mais sensível ao calor. O consórcio administra cerca de 100 projetos. Talvez seja necessário discutir se não há projetos demais e entregas de menos, buscando direcionar melhor os recursos limitados.

Precisamos de mais recursos e de uma mudança na gestão das pesquisas, saindo de um modelo focado em projetos para uma lógica baseada em resultados, que permita direcionar melhor os investimentos e concentrar esforços naquilo que a ciência pode resolver no médio e longo prazo.

E: Uma de suas propostas é fortalecer a Embrapa Café por meio de novas parcerias. Como isso deve ocorrer?

R: O primeiro passo é fortalecer as parcerias que a Embrapa Café já mantém no consórcio – iniciamos conversas para melhorar a eficiência e ampliar os ganhos dessas relações. Também é preciso aproximar a Embrapa de outros elos da cadeia, especialmente da indústria e dos consumidores. Temas como sustentabilidade e rastreabilidade vêm justamente das demandas de quem consome café. Por isso, estamos em diálogo com a ABIC e a Abics para buscar soluções para os desafios da cadeia.

Outra frente é usar o café como instrumento de desenvolvimento de territórios. Queremos fortalecer parcerias com grupos de agricultores, cooperativas e federações para desenvolver programas de inovação e capacitação continuada em regiões com grande potencial de crescimento, como o Norte.

Figura 2

E: Entre os temas que mencionou – territórios, rastreabilidade e sustentabilidade –, qual é hoje a prioridade?

R: Sustentabilidade e desenvolvimento de territórios. Sustentabilidade significa produzir café com qualidade, rentabilidade e respeito às questões ambientais e sociais, gerando prosperidade ao cafeicultor. Para isso, a ciência precisa sair do laboratório e chegar ao campo. A prioridade é criar programas de capacitação continuada para técnicos e profissionais que trabalham com os produtores, com metodologias adaptadas às diferentes realidades da cafeicultura brasileira.

Também queremos criar espaços de interação entre pesquisadores, produtores e mercado. Esse trabalho passa mais por construção conjunta do que pela imposição de modelos prontos. Temos muito material genético disponível e é preciso entender como ele se comporta em novas condições climáticas e regiões. Já estamos iniciando testes de adaptação de robustas amazônicos em diferentes regiões do Ceará e acompanhando experiências em locais antes improváveis para o plantio de café, como áreas próximas ao litoral do Nordeste.

E: Onde estão hoje as novas fronteiras da cafeicultura brasileira?

R: O potencial da cafeicultura está no Brasil inteiro. Rondônia é um exemplo disso. O robusta já existia no estado, mas era visto como um café de baixa qualidade. A partir da seleção de materiais genéticos identificados pelos próprios produtores, a Embrapa ajudou a desenvolver o que hoje é reconhecido como um café amazônico brasileiro com identidade própria. Pesquisas mostram ainda que, em Rondônia, um hectare de café pode sequestrar mais carbono do que emitir.

Os robustas amazônicos estão sendo levados para Amazonas, Pará, Roraima e Acre. Além da adaptação climática, apresentam diferenciais de mercado que ajudaram a mudar a percepção sobre o canéfora.

Nossos primeiros levantamentos na região Nordeste, por exemplo, identificou potencial em sete dos nove estados da região, mas com cenário diferente. Os cafezais do Maciço de Baturité, no Ceará, existem há mais de 200 anos e eram cultivados sob a sombra da Mata Atlântica. Quando o IBC incentivou a substituição desse modelo pelo sistema a pleno sol, boa parte da produção desapareceu. Os produtores que permaneceram mantiveram uma cafeicultura com valor histórico, ambiental e turístico. A proposta é desenvolver modelos em que o café seja parte de uma estratégia de turismo e valorização territorial, capaz de gerar renda mesmo sem altas produtividades.

E: Que oportunidades existem para o aproveitamento do café além do consumo como bebida?

R: O Núcleo de Estudos Avançados do Café (NEAC), uma estrutura em fase de implantação, vai ser um laboratório voltado à química e bioquímica de alimentos, com foco em biomoléculas do café e no desenvolvimento de produtos de alto valor agregado, como fármacos e alimentos nutracêuticos.

O NEAC trabalha com economia circular, ao aproveitar subprodutos e cafés impróprios para consumo, como grãos verdes ou ardidos.

Já existem, por exemplo, pesquisas [em fase inicial] da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia que conseguiram isolar uma molécula com potencial analgésico, por exemplo.

O projeto, prioritário para a Embrapa, conta com recursos do Programa de Aceleração e Crescimento [PAC]. A ideia é mostrar aos potenciais parceiros o que a Embrapa Café pode agregar aos projetos deles e, a partir disso, ampliar a captação de recursos nacionais e internacionais, especialmente junto a instituições com histórico de parceria com a Embrapa.

Figura 3
Oliveira com a cafeicultora Cristiane Zancanaro durante a Agrobrasília 2026

E: Qual seria o impacto de uma molécula do café com potencial analgésico chegar ao mercado?

R: É importante frisar que a pesquisa está na sua fase inicial. Se essa molécula se mostrar viável primeiro em laboratório, e depois em escala, o impacto pode ser enorme para a cafeicultura. Mesmo porque podem ser usados cafés verdes ou ardidos para a extração dessas substâncias, o que poderia mudar a lógica de parte do setor. Por isso, é um tema que precisa ser tratado com cuidado e analisado em profundidade. O potencial de disrupção é grande para a pesquisa e o mercado de café.

E: Como pretende revitalizar os bancos de germoplasma de café?

R: Para ser um Banco Ativo de Germoplasma (BAG), não basta manter plantas ou sementes guardadas. É preciso conservar o material genético, seja in situ, com plantas em campo, ou ex situ, com sementes em câmaras frias ou materiais preservados em cultura de tecidos. Também é preciso registrar, catalogar, caracterizar geneticamente e disponibilizar esse material para intercâmbio entre programas de pesquisa.

Muitas instituições do consórcio tem coleções genéticas de café, mas nem todas são BAGs, pois não passaram por todo esse processo. Hoje, os principais desafios são o registro e a gestão. Manter um BAG custa caro, exige equipe, estrutura e recursos contínuos. Perder esse material significa perder parte do futuro da cafeicultura, principalmente a possibilidade de desenvolver plantas mais resistentes a pragas, doenças e mudanças climáticas.

Uma das propostas é integrar o café à estrutura nacional de conservação genética da Embrapa, organizando primeiramente os materiais nesse sistema e, futuramente, ampliando a estrutura para funcionar como um banco de segurança para o país, recebendo cópias de materiais genéticos de outras instituições. É um tema sensível, ainda em discussão.

E: Na sua avaliação, o melhoramento genético deve priorizar novas variedades de arábica resilientes ao calor, o potencial dos canéforas ou espécies raras de café?

R: O melhoramento genético nunca saiu de pauta. Quanto mais tempo um programa permanece ativo, mais informação e dados ele acumula. Os canéforas vêm ganhando importância pela maior resistência a altas temperaturas e ao déficit hídrico em comparação ao arábica, e a experiência de Rondônia com robustas amazônicos especiais abriu um mercado impensável anos atrás.

Os programas de melhoramento vão continuar trabalhando com arábica, buscando materiais mais resistentes ao calor, a pragas e a doenças. Ao mesmo tempo, existe esse movimento de testar e adaptar materiais em novas regiões, aproveitando variedades desenvolvidas para entender como se comportam em áreas próximas ao mar ou em regiões de altitude por exemplo.

Existe também um olhar atento a outras espécies, como Coffea liberica e Coffea stenophylla. São materiais pouco estudados no Brasil, usados como fonte de resistência genética, mas com potencial diante da crescente demanda mundial por cafés raros. São plantas com menor produtividade, mas que podem atingir alto valor agregado.

Não se trata de substituir arábica ou canéfora, mas de trabalhar várias frentes, como adaptação a novas condições de cultivo e abertura de novos mercados para cafés diferenciados.

E: O que as novas fronteiras cafeeiras podem ensinar às regiões tradicionais?

R: Uma das lições é a necessidade de maior integração. Organizações de produtores, instituições de ensino, assistência técnica, extensão rural, crédito e governo precisam trabalhar de forma integrada, com planejamento para cada território. Existe muita gente fazendo a mesma coisa. Rondônia é um exemplo interessante desse esforço conjunto – construiu um planejamento estratégico para a cafeicultura com entidades públicas e privadas, para entender como a sinergia entre instituições pode gerar desenvolvimento eficiente, beneficiando os produtores, a cadeia e o estado, com geração de riqueza e arrecadação. 

Texto originalmente publicado na edição #92 (junho, julho e agosto de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

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Equipe CaféPoint

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