Porque um El Niño intenso deixa café e cacau em situação vulnerável

A possibilidade de um super El Niño preocupa o mercado de café e cacau, já que o fenômeno pode causar secas, calor excessivo e chuvas irregulares em importantes regiões produtoras, afetando a oferta e impulsionando os preços globais

Publicado em: - 3 minutos de leitura

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Por Reuters, de Londres/Nova York 

Especialistas em previsão meteorológica de todo o mundo afirmam que cresce a probabilidade de desenvolvimento de um El Niño de grande intensidade no segundo semestre, o que pode elevar temperaturas, alterar padrões de chuva e trazer riscos para lavouras de café e cacau em diversas regiões do planeta.

O que é o El Niño e por que commodities agrícolas cultivadas em regiões tropicais, conhecidas como “soft commodities”, estão particularmente expostas?

El Niño

O El Niño é um aquecimento periódico das temperaturas da superfície do mar no Pacífico Equatorial Oriental, provocado pelo enfraquecimento dos ventos alísios. O fenômeno ocorre naturalmente a cada dois a sete anos e costuma durar entre nove e 12 meses.

Em geral, ele provoca aumento das temperaturas globais, secas em regiões como sul e sudeste da Ásia, Austrália e sul da África, além de chuvas intensas no sul da América do Sul e em algumas regiões dos Estados Unidos.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) declarou na semana passada a chegada do El Niño. O órgão também informou que há possibilidade de intensificação do fenômeno, com 63% de chance de ocorrência de um “super El Niño” até 2027.

A seca, o calor excessivo ou as chuvas intensas associadas ao El Niño são um duro golpe para os agricultores, que já enfrentam neste ano o aumento dos custos de fertilizantes e de diesel em decorrência da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã.

Historicamente, os preços das commodities agrícolas registram altas sustentadas durante episódios de El Niño.

Café

O El Niño é especialmente problemático para a variedade robusta no Vietnã e na Indonésia a partir do segundo semestre, pois causa temperaturas mais elevadas e redução das chuvas nos dois países, responsáveis por cerca de 50% da produção global da variedade. As condições climáticas adversas ocorrem durante a fase de desenvolvimento do café, e os impactos surgem durante a colheita, no quarto trimestre. “A seca no Vietnã e na Indonésia pode reduzir significativamente os rendimentos do café robusta”, afirmaram analistas do Citi.

No caso do arábica, os efeitos do El Niño são mais complexos. Carlos Santana, diretor comercial da EISA, subsidiária da trading ECOM, disse que o fenômeno pode, no início, beneficiar a safra que está sendo colhida no Brasil, já que temperaturas mais elevadas reduzem o risco de geadas durante o inverno no Hemisfério Sul.

No entanto, no quarto trimestre, o El Niño costuma afetar as regiões produtoras de café brasileiras com temperaturas elevadas e estiagem, justamente quando se desenvolve a safra seguinte. Isso pode prejudicar a produção de 2027.

Cacau

Segundo a gestora de investimentos WisdomTree, todos os episódios fortes de El Niño nos últimos 55 anos reduziram a produção mundial de cacau.

No último evento, entre meados de 2023 e de 2024 e considerado de intensidade moderada a forte, a África Ocidental — principal região produtora — sofreu com chuvas muito acima da média no início, o que deixou os cacaueiros mais vulneráveis a doenças fúngicas.

Em 2024, porém, o padrão climático mudou. A região passou a enfrentar calor intenso e ventos Harmattan (seco e poeirento que sopra do Saara sobre a África Ocidental até o Golfo da Guiné) excepcionalmente secos e fortes, levando árvores já debilitadas pela doença a perderem flores.

“Todo mundo pensa que o El Niño está associado apenas à seca na África Ocidental. Isso não é necessariamente verdade. Devido às mudanças climáticas, o resultado pode ser, inicialmente, um excesso de chuva. Neste momento, essa é a minha maior preocupação”, afirmou Jim Roemer, da consultoria Best Weather.

Cerca de metade do cacau consumido no mundo é produzida na Costa do Marfim e em Gana, os dois maiores produtores globais. O Equador, que ocupa a terceira posição no ranking mundial, também costuma registrar chuvas acima da média durante os eventos de El Niño. 

Em 2024, os preços do cacau quase triplicaram após o fracasso da safra na África Ocidental. No fim daquele ano, atingiram recordes acima de US$ 12 mil por tonelada, tornando a matéria-prima do chocolate mais cara do que muitos metais industriais.

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Equipe CaféPoint

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