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Pesquisadores da Epamig e Embrapa orientam cafeicultores sobre o que fazer após geadas

POR EQUIPE CAFÉPOINT

GIRO DE NOTÍCIAS

EM 27/07/2021

9 MIN DE LEITURA

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O material elaborado pelos pesquisadores Vinícius Andrade (Consórcio de Pesquisa Café/EPAMIG), Gladyston Carvalho (EPAMIG), César Botelho (EPAMIG) e André Dominguetti (Embrapa Café) explica porque as geadas ocorrem e traz recomendações para o levantamento dos danos e sobre as ações necessárias no momento e a médio e longo prazo.

Introdução

Estamos muito tristes por todos os produtores afetados pela geada. Sabemos o trabalho, dedicação e investimento dispendidos às lavouras para serem perdidos em uma noite. Entretanto, temos uma indústria a “céu aberto” e eventos climáticos ocorrem com determinada frequência e com a geada não é diferente. Nós como agricultores e técnicos devemos minimizar as chances de perdas por meio de técnicas de manejo, gerenciamento técnico e financeiro do negócio. Cada caso deve ser analisado com critério e estar fundamentando em conhecimento científico e empírico, adaptados a cada situação.

Nosso objetivo nesse documento é simular uma conversa com o produtor, pensando como ele, neste momento tão difícil. Basicamente, as perguntas poderiam ser:

1) O que é a geada e por que ela ocorre?

2) O que devo fazer?

3) Como manejar a lavoura após o dano?

4) Como proceder no médio e longo prazo?

5) Qual o impacto na cafeicultura do Brasil?

O que é a geada e por que ela ocorre?

A geada é um fenômeno natural que pode ocorrer em frequência variada de acordo com a latitude, altitude e orografia do ambiente de cultivo. As causas, são geralmente, massas de ar polar vindas dos Andes ou do Oceano Atlântico. A ocorrência se dá quando a temperatura é menor que 2ºC no abrigo e -2 a -3ºC na relva. Para o cafeeiro a temperatura letal é menor que -2ºC.

A frequência de ocorrência de geadas é feita analisando-se sua severidade e o número de vezes que o fenômeno foi identificado em uma série histórica. A classificação de severidade é realizada pela temperatura mínima medida nas estações climatológicas. Desde 1890 até hoje, com resultados de estudos feitos nos estados do Paraná e São Paulo, as geadas podem ser classificadas e previstas como:

- Severíssima – a cada 30 anos (última em 1994)
- Severa – a cada 6 anos (danos parciais ou totais)
- Moderada – a cada 3 anos (áreas mais baixas)

Aparentemente, por meio de dados históricos, a partir de 1970 elas se tornaram mais recorrentes. Publicações indicam que, apesar do aquecimento global previsto na média da temperatura, eventos extremos de clima estão ficando mais frequentes. O ciclo do carbono, na nova era do Antropoceno, pode estar influenciando esses fenômenos por haver indícios de alteração no ciclo de energia do planeta.

O que devo fazer?

Por enquanto nenhuma intervenção deve ser feita na lavoura, principalmente por dois motivos. 1) Ainda vem uma nova onda de frio e o período histórico de ocorrência de geada ainda não terminou, apesar de no mês de agosto a ocorrência ser menor. Podar agora deixa as plantas mais expostas ao esfriamento. 2) Ainda não se sabe a dimensão do dano nas plantas. O ideal é esperar por aproximadamente 30 a 60 dias, após o frio passar e se ter maior certeza de como e onde atuar. Pode-se até esperar as primeiras chuvas e até mesmo a florada para se ter mais certeza do prejuízo na safra de 2022.

No momento o produtor deve quantificar seus prejuízos para fazer suas contas focando no fluxo de caixa e orçamento para o próximo ano. O levantamento deve conter a área afetada na propriedade e a classificação da intensidade dos danos nas lavouras, pois os danos são variáveis pelos motivos já mencionados. Com o levantamento em mãos o produtor deve readequar seu planejamento agrícola de acordo com o dano provocado pela geada e gastar o mínimo possível nas áreas mais afetadas.

Mesmo não sabendo como irá proceder no momento, com relação à intervenção nas lavouras, as adubações e controles fitossanitários devem ser reduzidos nas áreas com maior redução de safra. Normalmente, será um manejo de lavoura com poda tipo decote ou mais drástica, por recepa ou esqueletamento. O pensamento deve ser, já que vou colher menos, irei gastar menos, desde que a decisão seja tecnicamente analisada para não comprometer a produtividade da lavoura em sua vida útil.

Como manejar a lavoura após o dano? 

A decisão é tomada em função da magnitude da morte dos tecidos nos cafeeiros. Quanto maior a quantidade de tecidos mortos mais drástica vai ser a intervenção, que pode chegar até mesmo na substituição das lavouras. Mediante a necessidade de podas a regra é, quanto menos cortar melhor. Com relação à renovação da lavoura, deve-se considerar a mortalidade de plantas, que gerarão o estande produtivo quando a lavoura se recuperar. 

Nas lavouras em formação em que o dano foi severo, causando a morte das plantas por queima das folhagens e ramos ou pela canela de geada, deve-se renovar a lavoura. Caso o dano seja superficial, não afetando o ramo ortotrópico (tronco principal) não é preciso fazer nada. A planta vai brotar e continuar seu desenvolvimento, mesmo que em atraso. Nessas plantas, após o estabelecimento da nova brotação ortotrópica, a parte velha queimada na geada deve ser eliminada, restaurando uma nova planta.

Com relação às lavouras produtivas deve-se analisar a necessidade de poda, lembrando que quanto menos drástica a poda melhor. Podemos citar algumas situações:

1) Dano superficial nas bordas de toda a planta - Somente as folhas da extremidade dos ramos foi afetada, permanecendo o interior da planta verde. Ação: Não fazer nada. Provavelmente a parte não afetada produzirá café em 2022.

2) Dano severo do terço superior do cafeeiro - A geada queimou folhas e ramos apenas da parte superior da planta, “geada de capote”. Ação: Poda por decote, eliminando apenas a parte morta.

3) Dano severo em grande parte dos ramos plagiotrópicos - Ação: Poda por esqueletamento, cortando no início da porção dos ramos que está viva para eliminar apenas as partes mortas.

4) Dano severo nos ramos plagiotrópicos e ortotrópico - Planta morta de baixo para cima, tanto nos ramos produtivos como no tronco principal. Ação: Recepa, cortando pouco abaixo do limite de tecidos mortos da planta. Caso haja ramos plagiotrópicos não queimados na parte debaixo da planta eles não precisam ser removidos, fazendo apenas uma retirada da parte queimada.

5) Morte de plantas – Ação: verificar a proporção de plantas mortas e decidir ou não pela renovação do cafezal. Em plantas adultas esse fenômeno é mais raro de acontecer.

Como proceder no médio e longo prazo?

Conforme mencionamos anteriormente, as geadas são um fenômeno frequente e por isso, suas ocorrências, além da tristeza e prejuízos, devem induzir à evolução no processo produtivo. O produtor deve-se perguntar e consultar os técnicos sobre o grau de risco que sua lavoura tem de ser afetada pela geada e pelo frio, que apesar de não queimar as plantas, diminui a produtividade de algumas lavouras. Após essa forte geada de julho de 2021, o produtor tem basicamente duas opções. A primeira é decidir por não cultivar mais café no local afetado. Nos últimos dez ou quinze anos o produtor, em geral, “perdeu o medo” da geada e plantou lavouras em locais de risco. Plantios foram realizados abaixo da linha da geada, que foi estudada e respeitada no passado. Dessa forma a geada nos reforça a necessidade de uma criteriosa escolha da área para o plantio de lavouras de café.

A segunda alternativa é que nas áreas mais sujeitas à geada e a temperaturas menores deve-se pensar na arborização das lavouras de forma sistemática por meio do plantio de linhas de cafeeiros intercalados com linhas de árvores. Com a colheita mecanizada, a arborização distribuída por toda a lavoura é dificultada, mas nada impede que em distâncias determinadas conforme o local de plantio e orografia da área, se plante linhas de árvores. Essas árvores ajudarão a proteger as lavouras das geadas por auxiliarem na manutenção da temperatura mais alta em noites de frio, servirão de quebra vento, amenizarão extremos de temperatura alta e insolação, contribuirão para a diversificação biológica, ciclagem de nutrientes, sequestro de carbono, além de poder gerar lucro extra quando manejadas para esse fim pelo plantio de espécies específicas. Além disso, promovem o aumento de produtividade em áreas mais frias, mesmo sem a ocorrência de geada. No Paraná, o uso de feijão guandu ou de tremoço nas entrelinhas já foi usado com sucesso, em lavouras novas plantadas em locais de risco.

Outras formas de se diminuir as chances de ocorrência de geada incluem a nutrição adequada da planta. Planta com maiores concentrações de carboidratos e proteínas tendem a suportar melhor o frio. Em último caso, em caráter de emergência, a nebulização se mostrou efetiva na amenização dos efeitos da geada. Em áreas irrigadas os danos podem ser evitados por meio do molhamento antes e no dia do resfriamento. A promoção de vento dentro da lavoura é usada em parreirais na Europa, por exemplo.

Qual o impacto na cafeicultura do Brasil?

Ainda é cedo para estimar-se a perda de produção para a safra de 2022 com grau de confiança aceitável. A última safra de bienalidade positiva e com clima favorável nas principais regiões produtoras de Arábica foi em 2020, com produção total de 63 milhões de sacas, sendo 48,7 milhões de Arábica. Em um cenário otimista, antes das geadas de julho de 2021, havia a expectativa de que a safra de 2022 fosse 10% superior à de 2020 (a safra 2020 foi 2,3% acima que a de 2018), teríamos uma produção de 68 milhões de sacas totais e 54 milhões de café Arábica.

Considerando-se que as áreas atingidas pelas geadas foram as demonstradas na tabela 1 e que nessas regiões a perda de produção ocorreu cenários de 10%, 20% e 30% de redução, a produção de café Arábica pode variar de 50 a 43 milhões de sacos de 60 Kg, com reduções de quatro a onze milhões de sacas. É preponderante lembrar que estimativas precisas da área afetada e da magnitude do dano nas lavouras serão realizadas pelos técnicos de instituições públicas, cooperativas e empresas privadas, que por meio de uma criteriosa análise in loco poderão aumentar a chance de acerto. O sensoriamento remoto pode ajudar no fornecimento de informações precisas e com melhor custo-benefício que visitas a campo, além de poder ter uma abrangência geral do estrago nas lavouras de café.

Independentemente da quantidade de café perdido para 2022, tem-se que ter em mente que a recuperação da capacidade produtiva brasileira nas regiões afetadas pela geada terá início somente a partir de 2024 e deve se estabilizar em 2025 ou 2026. Isso dependerá da quantidade de lavouras em formação que precisarão ser substituídas e da taxa de renovação, uma vez que as mudas disponíveis para esse ano já possuem destino e muitas delas foram afetadas irrecuperavelmente pela geada.

Portanto, o momento é de “curar as feridas da tristeza”, se acalmar, mensurar o dano, o fluxo de caixa (contas a pagar) e planejar-se para as próximas safras, sempre agindo nas análises de curto prazo sem perder o futuro de vista. Algumas lições podem ser enfatizadas para nos forçar a errar menos no futuro, tais como: 1) trabalhar com capital próprio o máximo possível; 2) a geada é fenômeno recorrente e natural na cafeicultura; 3) escolher as áreas de plantio de forma criteriosa; 4) arborizar áreas mais frias da propriedade e com risco de geadas; 5) Estabelecer um porcentual de cada safra para fazer trocas de produtos e outras operações financeiras, deixando a maior parte do café a ser produzido sem comprometimento. As crises nos fortalecem, já diz o ditado popular, “o que não mata engorda”.

Força produtores, não é a primeira crise que passamos na cafeicultura e não vai ser a última. A história mostra que a cafeicultura brasileira “amadureceu” com as crises biológicas, financeiras e sociopolíticas, transformando-se em referência na exportação de cafés, conhecimentos e produtos. Acreditamos na resiliência, inteligência e dedicação dos produtores em superarem-se para vencer esse desafio. A EPAMIG-Embrapa Café estão à disposição dos produtores e da sociedade como um todo.         

O artigo foi escrito por Vinícius T. Andrade, Gladyston Rodrigues Carvalho, César Elias Botelho, André D. Ferreira.                     

As informações são da EPAMIG-Embrapa Café.

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