Vocês* foram muito felizes ao colocarem que as temáticas da pobreza e da etnias com certeza estão muito presentes no discurso politicamente correto das ONG e na consciência dos consumidores que se "preocupam com um mundo melhor". E, como potência agrícola, no Brasil não haveria produtores "necessitados" para ser apoiados.
Creio que cafeicultura orgânica brasileira, a qual acredito que, cada vez mais, tenderá a ser familiar, tem o enorme desafio de se articular como demandadora de apoio governamental e de ONGs no sentido da melhoria da qualidade e da aglutinação e padronização da oferta para que o potencial para se "destacar na eficácia da comercialização, nos prazos de entrega, na rastreabilidade, no respeito aos contratos, etc..." possa se exprimir.
Aproveitando para comentar uma colocação de PH* na resposta dele, que foi publicada em separado, concordo plenamente que, para boa dos mercados consumidores, os lavados dos centrais, do Peru e do México têm maior apelo,- principalmente para preparação a filtro , assim como, os naturais da Etiópia o têm para espresso, o que se alia à força do histórico de mazelas sociais daquele país. Mas o Brasil produz lavados orgânicos muito interessantes, para filtro, e produz naturais que para espresso teriam muito maior apelo que os lavados centrais e, bem trabalhados, também que os etíopes - acrescentando, nesse caso, segurança alimentar como uma vantagem competitiva nossa..
Aproveitando também a deixa de Fábio Lúcio** em resposta a PH, cito o exemplo de Nelson, de Ibicoara/BA, a quem tive o prazer de ser apresentado por Fábio. O desafio para o Brasil é replicar o exemplo dele, antes pequeno, hoje médio produtor orgânico e biodinâmico, de alta produtividade, com alta qualidade e, até onde sei e principalmente, bastante satisfeito com a remuneração de sua atividade. Envio algumas fotos da lavoura dele.
Lavoura orgânica de Nelson, de Ibicoara/BA
Mas não podemos esquecer que, além das dificuldades já citadas na produtiva discussão que vocês incitaram***, haverá sempre que ser levado em conta o limite do tamanho do nicho de mercado para orgânicos como "teto" para o crescimento da oferta. É o velho de dilema de Tostines de quem inicia a atuação em mercados de nicho: "Não produzo mais porque não há quem compre ou não há quem compre porque produzo pouco do que ele demanda?"
Confira aqui o artigo Naufrágio Orgânico e participe do desenvolvimento deste tema.
*Celso Luis Rodrigues Vegro e Eduardo Heron Santos, autores de 'Naufrágio Orgânico'.
**Paulo Henrique Leme, colunista do CaféPoint (confira aqui seu artigo: Resposta ao Naufrágio Orgânico).
***Leitor e participante do CaféPoint