Leitor comenta: associações e subsídios ao setor
A solução para evitar uma quebradeira no setor está na criação de associações de produtores que podem dessa forma comprar insumos mais baratos, dispor de uma estrutura de beneficiamento e seleção de grãos e vender sua produção diretamente ao consumidor final sem precisar de cooperativas. Em Carmo de Minas uma saca já alcançou os incríveis 15 mil reais. E lá a coisa funciona - e bem - porque existe uma associação forte. O Brasil tem apenas 500 anos e, como um jovem, deveria seguir os ensinamentos dos mais velhos. E o que os mais velhos estão nos ensinando é que o meio rural só funciona bem quando é subsidiado, e ajudado pelo governo. Na Europa, nos EUA, no Canadá etc todo mundo é subsidiado... eles sabem que não existe outra forma de impulsionar o agronegócio e não serei eu que irei discordar deles.
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Carta de Cláudio José Fonseca Borges
"Prezado José Eduardo, gostaria de externar minha opinião enquanto produtor.
Em primeiro lugar, vamos analisar o produto café:
Café não é remédio, não é alimento e portando não é um artigo de primeira necessidade.
O café é um produto demandado mundialmente, que o Brasil tem clima e terra própria para produzir e o país deveria tratar o café dessa forma: uma fonte de recursos e um caminho para o Brasil apresentar superávit na balança comercial, além de gerar riquezas e manter a grande sociedade cafeeira onde ela deve ficar, junto da sua lavoura e longe das cidades e suas "favelizações" provocadas pelo êxodo rural.
Enquanto confundirmos o produto café com o cafeicultor, a coisa não vai andar.
Café é um produto, que assim como a coca-cola o povo gosta de beber, muito embora não precise dele para nada.
Os únicos interessados, que realmente precisam do nosso produto, são em primeiro lugar nós mesmos produtores, que investimos em lavouras, em tecnologia etc e precisamos ser remunerados por essa estrutura produtiva instalada, os intermediários (os que mais ganham no processo) e os governos e políticos dos estados produtores que auferem enormes benefícios às custas dos produtores, e se valem da cafeicultura para manter um grande contingente a área rural.
Outro fator de estresse é que ninguém, repito, ninguém conhece os números dos estoques junto aos importadores.... é tudo um chute só!
Agora vamos falar do cafeicultor:
Falei, falo e falarei enquanto não houver uma mudança definitiva na postura de todos, que o produtor de café do sul de Minas Gerais (classe na qual me incluo) é o mais egoísta do país. Não temos espírito de corpo como tem diversas classes, à exemplo dos políticos, dos advogados, dos juízes, dos sindicatos etc.
Se tem alguma coisa próxima, porém muito longe ainda de um espírito de união, essa coisa se chama cooperativa, que há muito deixou de ser parceira para ser agente financeiro do cafeicultor.
Agora vamos falar da sua idéia:
Obter consistentemente o custo de produção regionalizado é uma coisa muito complicada, é preciso colher tudo, fechar os números, dividir a quantidade gasta (insumos, mão de obra, colheita, beneficiamento etc) pela quantidade de sacas colhidas.... ninguém até agora sabe ao certo quantas sacas colhemos em 2006/2007.
O risco de ficarmos dependentes de órgãos estatísticos incompetentes é enorme.
A Conab fala em 44 milhões de sacas para a próxima colheita e o resto do mundo fala em mais de 50 milhões.... não dá para confiar em ninguém, concorda?
Existem estudos sobre a produtividade de sacas por hectare, sabemos quantos pés cabem num hectare (usando espaçamento médio), sabemos quanto é necessário de defensivos e adubos para fazer 1 ha produzir a média nacional, e sabemos a média nacional de pés por hectare. Todos sabem e é por isso que eu, você e todos da cadeia cafeeira (inclusive os astutos políticos) sabemos que os preços médios estão abaixo dos custos de produção.
Falar em custos por região também é difícil... minha lavoura fica na montanha, a do vizinho na baixada, eu colho com turmeiros e panhadores exploradores, já meu vizinho usa máquina para colher.... eu espero a chuva, meu vizinho irriga.... eu não tenho toda a estrutura de beneficiamento, etc, etc, etc.... vamos ficar anos levantando dados e não vamos chegar a um valor médio de custo que atenda ao grande e nem ao pequeno produtor.
A solução para evitar uma quebradeira no setor:
1) Criação de associações de produtores que podem dessa forma comprar insumos mais baratos, dispor de uma estrutura de beneficiamento e seleção de grãos e vender sua produção diretamente ao consumidor final sem precisar de cooperativas. Em Carmo de Minas uma saca já alcançou os incríveis 15 mil reais. E lá a coisa funciona - e bem - porque existe uma associação forte.
2) O Brasil tem apenas 500 anos e, como um jovem, deveria seguir os ensinamentos dos mais velhos. E o que os mais velhos estão nos ensinando é que o meio rural só funciona bem quando é subsidiado, e ajudado pelo governo. Na Europa, nos EUA, no Canadá etc todo mundo é subsidiado... eles sabem que não existe outra forma de impulsionar o agronegócio e não serei eu que irei discordar deles.
Então o caminho é esse. O governo deveria incentivar e até obrigar (já que é um dos maiores beneficiários da cafeicultura) a criação de associações de produtores que, num trabalho conjunto com as prefeituras, vão viabilizar condições estruturais, nas quais o pequeno produtor terá um ponto de apoio para escoar sua safra.
Os subsídios viriam para as associações distribuírem entre os associados de acordo com critérios pré-definidos.
Com todo respeito, estudei muito a minha situação como produtor, vou a congressos, feiras etc e acompanho tudo sobre o café e sei o que estou falando. A solução está hoje na criação de associações de produtores assim como há décadas a solução criada foi as cooperativas.
Quer vender uma saca por 15 mil reais? Faça parte de uma associação a exemplo dos companheiros de Carmo de Minas. Não conheço outro exemplo de sucesso melhor do que esse.
Associação, remédio contra fornecedores inescrupulosos e compradores especuladores.
Além de produtor, adoro tomar café, tomo mais de 1 litro por dia, há anos. Porém, se for obrigado a parar de tomar café amanhã não vou me importar, não sou viciado, apenas gosto do sabor do meu cafezinho, que tomo sem adoçante ou açúcar.
Tomo puro e espero alguns segundos para minha boca adoçar, pelo açúcar natural da fruta, que é transmitido para a semente de forma gradual através de uma boa secagem feita no terreiro".
Cláudio José Fonseca Borges também escreveu os artigos: "Administrar os custos e principalmente, as ilusões" e "Administrar os custos e principalmente, as ilusões - Parte 2".
Rodrigo Cascalles, equipe CaféPoint
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PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 18/03/2008
Este debate está sendo proposto - para a participação de todos - no Fórum Técnico "Controle de custos" do CaféPoint. Como título deste debate temos: "É possível obter, consistentemente, o custo de produção?". Participem! Saudações a todos.
Rodrigo Cascalles, equipe CaféPoint

VIÇOSA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 18/03/2008
Vocês deram início, com muita competência, a um debate de extrema importância para a cafeicultura (e a agricultura em geral). Estou ansioso pela próxima participação do Cláudio José. Para apimentar, adiciono o seguinte, com todo o respeito.
O José Eduardo é engenheiro civil. Foi cafeicultor de 1986 a 2000 (?), mas agora dedica-se, ao que parece, apenas a atividades de sua formação universitária. Por que?
Quando comecei a produzir café, em 1980, um engenheiro amigo e bem sucedido na construção civil, não conseguia entender como eu estava numa atividade que não permitia prever, com precisão, o quanto ia produzir (sujeito a ventos e trovoadas) e quanto valeria o produto no momento da venda; portanto, não podia nem imaginar o custo/benefício do empreendimento, leia-se, lucro. Dizia: "quando projeto um imóvel, sei, com muita precisão, o quanto vai custar, por quanto vou vender, e, na maioria das vezes, vendo antes de começar a obra. Mas, no seu negócio, ..."
Assim, gostaria de saber do José Eduardo como "planejar antecipadamente o custo de produção, em função do preço de venda, bem como estabelecer a margem de lucro". O cafeicultor teria que combinar com o fornecedor de insumos, com a chuva, com o granizo, com os ventos, com as pragas e as doenças, com os "abutres de plantão" que procuram controlar os preços, em geral com êxito, e muitas outras variáveis independentes. Os mais esclarecidos procuram trabalhar assim, mas prever o futuro é quase impossível, especialmente em se tratando de agricultura, não é?
Por favor José Eduardo, dê-nos uma pista!
Cláudio José, aqui em Viçosa, Zona da Mata Mineira, é a mesma coisa. Há mais de 20 anos tentamos nos organizar em Associação, Cooperativa ou que diabo for, pra proteger o cafeicultor, mas os produtores só vêm seu umbigo. Olha que seria uma organização, provavelmente, com a maior densidade de agrônomos, florestais, zootecnistas, dentistas, professores universitários, MS, PhD do Brasil (não seria do mundo?). Nunca deu certo, mas tem sempre cafeicultor reclamando da desgraça que é produzir café, com raras exceções.
Desta forma, este debate é muito importante. O que fazer? Por favor, prossigam, pois parece que vocês têm os pés no chão.
Saudações
Rena

VARGINHA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 14/03/2008
Sua carta, em resposta a meu artigo, foi o que considero excepcional, pois manifestando sua linha de pensamento, nos dá a oportunidade de debate e apenas assim ocorrem crescimentos e melhorias.
Assim, irei rebater os pontos apresentados, conforme minha visão.
Devido a terem sido diversos pontos apresentados por V.Sa. em defesa de sua linha de pensamentos, elegerei hoje apenas um para discutirmos e assim sucessivamente, durante o tempo que for preciso, até que possamos ter elementos consistentes para formarmos um juízo profissional, efetivo e real.
O ponto escolhido hoje, por mim, será o custo de produção.
Discordo de sua posição quanto a "obter consistentemente o custo de produção regionalizado é uma coisa muito complicada, é preciso colher tudo, fechar os números, dividir a quantidade gasta (insumos, mão de obra, colheita, beneficiamento etc) pela quantidade de sacas colhidas.... ninguém até agora sabe ao certo quantas sacas colhemos em 2006/2007".
O raciocínio de "ser coisa complicada, é preciso colher tudo" é o fator de maior impacto e importância para a efetiva quebradeira dos cafeicultores. Considero este como sendo o vilão nº 1 do produtor, ou seja, esperar colher o café para saber quanto custou uma saca para o mesmo.
Na realidade, este procedimento, que é usual entre alguns cafeicultores, que se consideram mais eficientes, tem de efeito prático apenas dois caminhos: o cardiologista, caso os custos tenham sido maiores que o preço de venda, ou então a praia, caso os custos sejam inferiores.
Seria como se estivesse num cassino a jogar, teria sorte ou azar. Agora, pense bem, considera seu negócio ser tratado como uma coisa de sorte ou azar?
Não seria profissionalmente correto e seguro simplesmente planejar antecipadamente seu custo de produção, em função do preço de venda, bem como estabelecer sua margem de lucro?
Gostaria que para não nos perdermos em retóricas desnecessárias, fossemos discutindo paulatinamente as posições.
Acreditaria, profissionalmente, que não seja possível criar seu próprio custo, bem como estabelecer seu lucro, considerando para isto qualquer cenário de preços de venda?
Com você a palavra, para assim continuarmos. Apenas lhe peço que concentremos a atenção ao foco do item discutido.
José Eduardo Reis Leão Teixeira