Na semana passada, Andrea Illy, CEO da illycaffè, discutiu tendências e atualidades do mercado internacional de café em curso realizado em São Paulo pela Universidade do Café. O presidente e diretor geral da torrefadora italiana falou sobre os efeitos da crise mundial sobre produção e consumo de café e tendências de sustentabilidade na cafeicultura. Leia a seguir.
Produção e Consumo de café
De acordo com estimativa da OIC, em 2007/08 foram produzidas 116,2 milhões de sacas de café, entre as quais, 61,4% da qualidade arábica e 38,7% de conilon. Para este ano, a estimativa é de que se mantenha esta proporção. O Brasil e Vietnã, maiores produtores mundias do grão, são responsáveis por mais de 50% da produção. Na última safra, esses dois países colheram aproximadamente 47 e 20 milhões de sacas, respectivamente. Outros grandes blocos são a América Central, responsável por 19 milhões da sacas, e África, com cerca de 15 milhões.
O CEO da Illy destacou o maior crescimento de produção do robusta, que nos últimos cinco anos alterou sua participação na produção total, saltando de 29% para 37%. Como se sabe, este tipo de café é bastante procurado pela indústria da torrefação, que pode, a partir de técnicas industriais, melhorar sua qualidade com certa facilidade e utilizá-lo em seus blends.
A despeito desta realidade, os produtores de café da África vem aumentando a produção de arábica em detrimento do robusta. Etiópia e Quênia são atualmente responsáveis por 50% do arábica produzido no continente africano. A produção na Ásia segue com crescimento contínuo, mas contido, predominantemente de robusta - em 2008 foram produzidas 35 milhões de sacas, contra 32 milhões em 2007, sendo 90% de robusta.
Em 2008, a produção de café da América Central caiu 15% por questões climáticas, ataque de agentes patogênicos e aumento dos custos de produção. Vietnã, Colômbia e Índia também preveem diminuição da safra 2008/09. Pensando em países produtores isoladamente, pode-se destacar o Peru, que com seu crescimento dinâmico, apresentou incremento de 40% da produção. Costa Rica e Guatemala seguem como grandes nomes na produção de cafés especiais.
Segundo dados apresentados por Andrea, de 2000 a 2008, o consumo de café, principalmente fora de casa, aumentou de 107,4 milhões para 128 milhões de sacas, com aumento anual médio de 2%. Os países produtores, que consumiram 35 milhões de sacas em 2008, apresentaram crescimento médio de 3,5% (contra 1,9% dos países consumidores), sendo considerados, portanto, países com maior potencial de crescimento, com destaque para os que são tradicionalmente bebedores de chá, como China e Leste Europeu.
Os cafés especiais vem crescendo numa taxa que varia de 4 a 6 % nos últimos anos, apesar de representarem menos de 10% do total. O consumo de especiais estimado em 2008 foi de 7 milhões de sacas, 25% apenas na América. Outro grande consumidor deste tipo de café é a União Europeia (UE).
Efeitos da crise sobre consumo e produção
Os últimos anos foram caracterizados por grande aumento nos custos de produção, notadamente combustíveis, fertilizantes e mão-de-obra. Os atuais níveis de produção satisfazem a demanda, mas não asseguram cobertura do crescimento estimado. O estoque de café mundial hoje é equivalente a 30 milhões de sacas, suficientes para cobrir o consumo por apenas 3 meses, uma reserva considerada bastante baixa por Andrea. "Se der algum problema sério com geadas no Brasil esse ano, os preços do café nas bolsas internacionais podem dobrar de valor", alertou.
Diante da crise econômica mundial, as vendas de produtos alimentícios estão em situação melhor do que outros produtos. Isso não quer dizer,entretanto, que o consumo de café não será afetado, mas pode significar, de acordo com Andrea Illy, certa redução da procura por cafés especiais, ao passo que deve haver substituição de marcas mais sofisticadas por outras de menor prestígio, direcionadas ao mercado de massa. "Essa tendência deverá fazer com que aumente a porcentagem de café robusta utilizada nos cafés à venda nos supermercados", afirmou.
Países desenvolvidos, principalmente os membros da UE, EUA e Japão, segundo ele, deverão também observar um deslocamento do consumo de café fora de casa para o consumo doméstico, destacando que o crescimento do PIB geralmente guarda certa relação proporcional ao crescimento do consumo de café.
Na Europa Oriental e Ásia, como o poder aquisitivo é mais limitado, o crescimento do consumo não é garantido. "A Rússia, principal mercado entre os emergentes do BRIC, encontra-se numa situação bastante incerta. O país anunciou este ano que deve importar 20% menos café que no ano passado, ou seja, uma redução de 3 milhões de sacas", informou. Segundo o CEO da Illycafé, o crescimento mundial do consumo de café neste ano será a metade do ano passado, devendo crescer apenas 1%.
Segundo Andrea, não é fácil vender café em coffee shops em época de crise. Quando questionado sobre o exemplo da Starbucks, ele ressaltou, porém, que a situação da maior rede de cafeterias do mundo é específica. "Hoje a Starbucks vive uma saturação de lojas, além de enfrentar um efeito negativo vindo com a penetração de sua marca, que fez com que seus preços distanciassem muito das suas concorrentes, que também vendem cafés de boa qualidade, mas a preços mais acessíveis", disse. "Para cada Starbucks que fecha, abre um McCafé", brincou.
Para Andrea, foi um erro cafés serem considerados apenas como commodities durante muito tempo. "É preciso explorar as nuances de cada tipo de café, uma das poucas bebidas consumidas por conta, essencialmente, do prazer que proporciona", enfatizou. Apesar de também investir em coffee shops, a Illycaffè vê maiores perspectivas de mercado focadas em café espresso e Gourmet, nichos de mercado em franca expansão. "O blend da Illy é composto por nove ingredientes, que mantêm sempre o mesmo perfil aromático e padrão de qualidade em cada um dos 144 países em que é comercializado", revelou. "Mais de 50% do nosso blend é composto de café brasileiro".
Custo de produção
Depois da recuperação dos preços no início de 2009, as cotações do café encontram-se novamente em queda, no patamar de US$ 104,10 cents/lb. Em 2008, os preços atingiram o maior valor dos últimos 10 anos em fevereiro, mas entre outubro e novembro foram influenciados negativamente pela necessidade dos investidores em obter liquidez diante da crise de crédito, o que fez despencar o preço das commodities agrícolas pelo mundo todo - o café foi menos prejudicado que as demais.
Hoje, a média mundial do custo de produção é de cerca de US$ 1.750/t. No Brasil, este valor cai para aproximadamente US$ 1.580, sendo US$ 750 utilizados com serviços de implantação e investimentos, US$ 500 com os trabalhos de colheita e US$ 330 com o beneficiamento.
O custo de mão-de-obra está continuamente em alta e abocanha de 15 a 20% dos custos totais. O Brasil apresenta o mais alto do mundo, porém com produtividade maior, em torno de 1.500 kg/ha. O custo de mão-de-obra no Brasil era de US$ 0,6 por hora em 2002, mas hoje está em torno de US$ 1,2 (o dobro), por conta principalmente da competição com outras culturas. A título de comparação, a Etiópia, que tem produtividade média de 400 kg/ha, apresenta o menor custo de mão-de-obra: US$ 0,2/h. Para Andrea, a estratégia vencedora será aquela capaz de prever estrutura com baixos custos de produção ou mão-de-obra. Neste quesito, a mecanização da colheita pode ser uma boa opção.
Ele lembrou ainda que o Brasil e a Colômbia, países de câmbio flutuante, sofrem com a desvalorização do dólar americano, ao contrário de outros, como o Vietnã, onde a alta traz benefícios aos cafeicultores, já que a moeda local acompanha as oscilações do dólar. Como bem observado por Andrea, as bolsas internacionais já não sofrem mais influência apenas de movimento especulativo e fundamentos do mercado, como produção, estoque e consumo, mas também estão sendo influenciadas pelo câmbio de produtores importantes, como o Brasil.
Em resposta à atual discussão acerca da viabilidade de produção do café em montanhas, Andrea não acredita que essa tradição esteja fadada à morte, pois grande parte do café brasileiro produzido desta forma possui alta qualidade, o que fornece vantagem competitiva. "Ao contrário, num possível cenário de aquecimento global, a tendência é aumentar a produção de café em montanhas, locais naturalmente favorecidos por clima mais ameno", disse.
Comércio Exterior e evolução dos mercados
A UE é o primeiro mercado importador mundial de café, com 58% de participação, seguida das Américas (24%), Ásia e Pacífico (12%) e África e Oriente Médio (6%). Na Ásia, principalmente, existe maior aceitação de bebidas à base de leite e menos torradas. Notadamente o Japão tem preferência por cafés solúveis, enquanto o consumo de torrado e moído é maior nos EUA. Convém destacar a posição delicada do Brasil, que hoje vive um acirrado equilíbrio entre sua produção e necessidade de café para atender o consumo interno e demanda por exportações.
Segundo Andrea, o consumo total de café em 2007 foi de 91,8 milhões de sacas, sendo o consumo dos países exportadores equivalente a 33,2 milhões, ante 32 milhões no ano anterior. A Europa Ocidental, com 36,7 milhões, vem aumentando o consumo fora de casa, apesar do consumo estar estagnado, enquanto a Europa Centro-Oriental apresentou crescimento de 5% ao ano nos últimos 5 anos. Neste mesmo período, o crescimento na Ásia foi de 6% ao ano, tendo como maior consumidor o Japão, seguido pela Nova Zelândia e Austrália. Na África e Oriente Médio o crescimento do consumo foi de 4% em 2008, com destaque para Argélia, Marrocos e Israel. Os EUA seguem como o país que mais consome café do Mundo, com 21 milhões de sacas.
Tendências de sustentabilidade
Segundo o CEO da illycaffè, a sustentabilidade das lavouras é uma questão de filosofia. "É preciso tomar diretrizes neste sentido, tentando calcular o ponto de equilíbrio entre qualidade e preço. Podemos encontrar soluções inteligentes para os nossos problemas, como por exemplo, utilizar o café de má qualidade para gerar energia na própria fazenda, reduzindo os custos e aumentando a qualidade do café, uma vez que haverá menos defeitos no produto final", afirmou.
Respeitar o meio-ambiente, evitando desperdício e técnicas que geram poluição, dar preferência à energia renovável e aumentar o aproveitamento energético são sinais de preocupação com a sustentabilidade. Segundo Andrea, o respeito social também faz parte dessa filosofia, e os parceiros da illy estão inteiramente adaptados a esta nova realidade. A empresa fomenta a transferência de informações ao produtor, principalmente no que se refere às questões relacionadas à bolsa de mercadorias - BM&F, principalmente.
Ele também acredita que os processos que envolvem utilização de água devem ser otimizados. Dessa forma, "existe a tendência de alteração das práticas de irrigação e redução do uso de água durante o processo de beneficiamento", apostou.
"A situação econômica mundial ainda está muito incerta e instável. Isso não deveria impactar significativamente o consumo de café, apesar de ser bastante provável a queda do crescimento. (de 2% para 1%) É fundamental que os preços do café alcancem níveis compatíveis com novos investimentos produtivos para o café de alta qualidade ou de baixo custo produtivo", concluiu.
Especial: Andrea Illy e o mercado internacional de café
Com a crise, as vendas de produtos alimentícios estão em situação melhor do que outros produtos. Isso não quer dizer, entretanto, que o consumo de café não será afetado, mas pode significar, de acordo com Andrea Illy, certa redução da procura por cafés especiais, ao passo que deve haver substituição de marcas mais sofisticadas por outras de menor prestígio. "Essa tendência deverá fazer com que aumente a porcentagem de robusta nos blends", afirmou.
Publicado por: Julio
Publicado em: - 9 minutos de leitura
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CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 13/03/2009
Prezado Júlio
Síntese da palestra completa e esclarecedora.
Abçs
Celso Vegro
Síntese da palestra completa e esclarecedora.
Abçs
Celso Vegro