Entrevista: Léo Moço, um barista apaixonado por café

"É um processo educativo do consumidor de café: fazê-los diferenciar os diversos tipos de cafés. O consumidor ainda está pouco acostumado com o conceito de café gourmet. Ele ainda não sabe o que é isso, ao passo que a profissão de barista, relativamente nova, vem ganhando maior reconhecimento. Na Dinamarca, por exemplo, nosso trabalho é mais difundido, os baristas trabalham apenas 6h para poderem estudar no restante do tempo", conta.

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O CaféPoint conversou com o barista Léo Moço, carioca formado em Análise de Sistemas e Nutrição, que aos 25 anos quis abrir um cybercafé, pensando que a opção poderia lhe render um bom negócio. Teria aberto caso, em 2005, não tivesse ouvido falar, pela primeira vez, sobre o trabalho de barista na televisão, em uma entrevista do Jô Soares. Começou então a paixão pela profissão. "Entendi que o mercado precisava do profissional. E vi também aqui uma boa oportunidade de negócio", afirma. A ideia do cybercafé foi abortada.

"Acho fantástico conseguir proporcionar sensações diversas para o consumidor, aprender a dosar intencionalmente os tipos de café para obter o resultado que quero", conta. Segundo Léo, o barista deve se esforçar para ser mestre de torra, degustador e profundo conhecedor do café. Somado ao completo conhecimento sobre o modo de preparar a bebida, os baristas também tem que entender da história do café, de todo o ciclo de cultivo, as etapas de processamento, técnicas de beneficiamento dos grãos, processos de torra e moagem, além dos tipos de grãos e suas origens.

"A profissão de barista é uma boa oportunidade para quem está começando agora, para quem nunca teve um emprego, para os jovens carentes das grandes cidades. E pode abrir o mercado de trabalho para quem quiser se dedicar à "profissão". Na verdade, o trabalho de barista ainda não está regulamentado, mas existe um projeto de lei para torná-lo profissão. "Acho interessante a proposta, mas faltou participação dos baristas no processo de criação do projeto, acabamos ficando à parte da discussão. Nem eu nem nenhum colega fomos consultados. O projeto veio meio pronto, de cima pra baixo, sem consultar as bases", desabafou.

De acordo com nosso entrevistado, a mídia passa uma imagem equivocada sobre as funções do barista. "Acho que a mídia dá mais enfase para a atividade de criação de drinks, latte art, do que no conhecimento sobre café que o profissional tem ou deveria ter... É tão importante o estudo na área que poderíamos até pensar num curso superior para o barista, com matérias como cafeicultura básica (produção, colheita, secagem), torra, prova/degustação, latte art, desenvolvimento de drinks, variedade de cafés (origem x bebida), etc", sugeriu.

"É um processo educativo do consumidor de café: fazê-los diferenciar os diversos tipos de cafés. O consumidor ainda está pouco acostumado com o conceito de café gourmet. Ele ainda não sabe o que é isso, ao passo que a profissão de barista, relativamente nova, vem ganhando maior reconhecimento. Na Dinamarca, por exemplo, nosso trabalho é mais difundido, os baristas trabalham apenas 6h para poderem estudar no restante do tempo", conta.

Léo, que trabalha com a Camocim, fazenda que produz o café mais caro do Brasil, o Jacu Bird Coffee, ultimamente está se dedicando aos estudos práticos de torras e provas de cafés e também representa uma marca de torrador doméstico de café no Brasil. "Quero desenvolver o mercado para cafés crus e oferecer possibilidades diferentes de torra", conta o moço, empolgado. Seu objetivo é criar uma microtorrefação com marca de café própria. Atualmente, na boutique "Café do Moço", ele e sua esposa comercializam café artesanal em embalagens de 250g, com grãos torrados e moídos à escolha do freguês.

Um barista campeão

No ano passado, Léo visitou a 21ª Feira da SCAA, em Atlanta, onde teve a oportunidade de entrar em contato com o que tem de mais novo no mundo em termos de conhecimento na área. Neste ano, o jovem barista participou da Copa Barista, durante o 4º Espaço Café Brasil, e conquistou a segunda classificação. Na edição anterior, foi o campeão. "O fator determinante foi o tempo. Campeonato é tática. É preciso saber quem vai enfrentar, testar as máquinas, e fazer o melhor, dependendo de cada situação", declarou. O segredo? "O barista não pode ficar preso, acomodado, achando que sabe tudo. Não podemos parar de estudar, de se dedicar. A cada ano que passa, percebo que ainda não sei nada sobre o café", conta.

Segundo Léo, os campeonatos são grandes oportunidades que proporcionam confraternização e troca de experiências entre os baristas. Pra competir, é preciso apresentar um drinque inédito. Sua estratégia para vencer o Campeonato Carioca de Baristas 2006 foi desenvolver drinques afrodisíacos, misturando pimenta e gengibre, por exemplo. (Léo também foi campeão na edição seguinte, em 2007). Para o Copa Barista 2009, procurou em cursos de prova descobrir aptidão para harmonização dos sabores básicos - amargor, doçura, acidez e salgado. Usou chocolate (blend de chocolate africano de amargor de qualidade), ar de limão (obtido com técnicas da gastronomia molecular), e um espresso líquido com flor-de-sal (a primeira camada de sal, mais pura que existe, e bem mais cara que a normal...) com aroma de avelã. "Não sabia que o sal pode, em determinada quantidade, até mesmo realçar a doçura dos alimentos", confessou.

E o café? - Este ano, Léo usou um café blend 100% arábica orgânico (Brasil + Etiópia, que tem os cafés mais aromáticos do mundo, que lembram flores) com grãos mais maduros, de melhor secagem. Levou uma semana para juntar dois quilos de "fox-beans", grãos apreciados por sua mucilagem doce, reconhecida pela cor dourada durante o processo de secagem.

"Um dos cafés que mais gosto é o GEISHA, um café panamenho 100% arábica, bastante frutado. É praticamente um suco de café. Ganhava sempre a maior pontuação no "Cup of excelence" do país, e por isso foi criada uma competição separada, só pra esse tipo de café, pois era desleal competir com os outros", conta.

O barista, este especialista no preparo de cafés de alta qualidade, ajuda a divulgar os benefícios do café e educar o consumidor para que saiba apreciar - e identificar - os diversos tipos de cafés disponíveis no mercado. São amantes do grão que ensinam a arte de amá-lo. Em suma, são para o café como o somatório do que são sommeliers e enólogos para o vinho. Experimente um café elaborado por um barista profissional e surpreenda-se com a qualidade da bebida extraída. Toda cadeia produtiva agradece.

Para saber mais:

Livro "Guia do barista"

Revista Espresso

Café do moço

Fazenda Camocin

Léo Moço participa do 4º Espaço Café Brasil, em São Paulo, onde conquistou o vice-campeonato da Copa Barista 2009

Figura 1

No detalhe, modelo de uma mini-torrefadora, para torras de café domésticas

Figura 2

"Fox-beans", grãos muito doces, selecionados com exclusividade para comporem o drink do campeonato.


Figura 3

Equipe CaféPoint
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Carlos Roberto Antonio
CARLOS ROBERTO ANTONIO

UBERABA - MINAS GERAIS

EM 12/07/2013

Como poderei adiquirir um torrador doméstico conforme vi na figura em cima?

Qual o valor deste  belo torrador
jose manuel gomes
JOSE MANUEL GOMES

SANTARÉM - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 01/09/2009

Como poderei adiquirir um torrador doméstico conforme vi na figura em cima?

Obrigado
Juliano Tarabal
JULIANO TARABAL

PATROCÍNIO - MINAS GERAIS

EM 07/08/2009

Muito legal Léo!

Incentivar o consumo de café de qualidade e diferenciar este consumo é sem duvida um caminho que deve ser trilhado.

Sergio Venuto
SERGIO VENUTO

RESENDE - RIO DE JANEIRO

EM 06/08/2009

Léo,

Muito bom começar a ler artigos e entrevistas com baristas nos meios de comunicação onde, normalmente, espaços são utilizados por agricultores, empresários, etc... Importante ter todos da cadeia trabalhando juntos e, no caso do café, a participação do barista é essencial.

Estive em Amparo/SP e vi materiais sobre o 1o duelo de baristas da região. Até uma revista de circulação local foi editada especialmente para o evento. Na revista, vinha a foto e informações sobre cada competidor, um em cada página, mostrando a importância que deram para divulgar cada barista. Um bom exemplo a ser seguido.

Abraços e sucesso a todos os baristas.
Leonardo Moço Ribeiro
LEONARDO MOÇO RIBEIRO

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PROVA/ESPECIALISTA EM QUALIDADE DE CAFÉ

EM 06/08/2009

Prezada Joana D Arc Teixeira de Faria,

Gostaria de agradecer pelo seu comentário, fico muito feliz em saber de um profisisonal do café que o trabalho como o que faço é importante para o setor.

Tenho trabalhado junto ao consumidor e o resultado obtido está sendo impressionante. Fico imaginando como o Brasil e os nosso cafeicultores ainda podem crescer apesar da crise instalada. Gostaria de usar a sua definição "OUSADIA": acho que só assim a cafeicultura no geral vai poder respirar.

Não creio que os Baristas são "salvadores", mas junto com os produtores rurais, profissionais como você e todos os outros dessa imensa cadeia, possamos dar início a essa mudança. Nós, Baristas, temos o grande desafio de representar cada produtor e isso é uma grande responsabilidade, mas ainda vejo uma separação muito grande entre os setores.

Mais uma vez agradeço pelas palavras.

Abraços,

Léo Moço
Joana D Arc Teixeira de Faria
JOANA D ARC TEIXEIRA DE FARIA

CALIFÓRNIA - PARANÁ - PROVA/ESPECIALISTA EM QUALIDADE DE CAFÉ

EM 06/08/2009

Léo,

Fiquei entusiasmada com a tua postura, brilhantismo e OUSADIA. Sim, ousadia, em inovar o sabor do que já é por natureza espetacular - a bebida do café.

Trabalho no setor de produção (junto aos produtores rurais) e sabemos que cada ano, cada planta, cada talhão sempre nos trazem descobertas e supresas quando apreciado o produto final.

Comungo contigo, de que ainda o consumidor brasileiro não aprendeu a apreciar devidamente esta bebida, mas serão e são profissionais como você que farão do hábito "tomar um cafe" um prazer maior.

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