E a Colômbia dourou seu grão de café...
O conceito de Denominação Geográfica no mercado de café é ainda recente, diferentemente do que ocorre com o dos vinhos, cujos primeiros normativos e territórios definidos, no caso a Região do Vinho Verde de Portugal, estão quase a completar um século.
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Em parte, esse atraso do café em relação ao vinho se deu por diversas questões, sendo que, talvez, a mais significativa era o fato de que a percepção de qualidade da bebida sempre foi muito pouco explorada junto ao consumidor.
No caso do vinho, a partir do final dos anos 70, houve um grande esforço para que o conhecimento relativo à qualidade da bebida fosse democratizado, criando-se publicações que deixaram o hermetismo de lado. Aliás, um excelente modo de afastar qualquer novo adepto a alguma coisa é utilizar linguagem hermética!
Além disso, cursos introdutórios à apreciação do vinho surgiram, vinícolas se abriram ao público consumidor para demonstrar seu processo produtivo, a introdução de novas origens se intensificou no mercado e, principalmente, fazer passar a mensagem ao consumidor de que mais do que saber avaliar um vinho, é preciso ter prazer numa taça. Simplesmente!
Vinhos famosos, que provocam inesquecível experiência sensorial, raros e, certamente, caríssimos, sempre existiram, porém, demonstrar ao consumidor que um exemplar que possua excelente relação custo-benefício está ao alcance de todos, é, antes de tudo, uma decisão muito sábia.
O homem, por sua natureza, tem sede de conhecimento em relação às coisas que aprecia. Cada um de nós quando se interessa por um tema, que nos apaixona realmente, se sente estimulado a experimentar e conhecer mais.
Essa foi a estratégia empregada pelo mundo do vinho.
A troca do conhecimento pela experimentação.
Depois de anos sem novidades, o mercado de café nunca mais foi o mesmo depois do surgimento do segmento dos cafés especiais, nome cunhado pela simpática Senhora Erna Knudsen, importadora de cafés de San Francisco, CA.
De início, obviamente, não se sabia ao certo que rumo esse segmento, conhecido como Specialty Coffee, seguiria. Começou-se focando fortemente o denominado Estate Coffee, que significa um café produzido numa determinada fazenda e que aí se produziam cafés especiais devido à sua especificidade.
Porém, anos mais tarde verificou-se que essa modalidade apresenta várias inconsistências, pois grandes fazendas criaram marcas referentes aos diferentes tipos de cafés que poderiam ofertar e que se constituíram exatamente em uma "marca". Na maioria da vezes, os cafés são produzidos em propriedades de terceiros, mas que acabam recebendo aquela marca durante sua comercialização com os torrefadores.
Atualmente há um grande esforço, estimulado por algumas entidades internacionais, como a SCAA, sigla em inglês da Associação Americana de Cafés Especiais, para o desenvolvimento das Denominações Geográficas em café.
E, aqui, gostaria de fazer um pequeno esclarecimento: existem dois conceitos importantes.
O primeiro é o de Indicação Geográfica, que identifica um produto, normalmente manufaturado, ou serviço de uma determinada localidade e que ganhou notoriedade no mercado. Podem ser citados nesta classe a famosa cutelaria de Sölingen, da Alemanha, ou os maravilhosos cafés torrados para espresso da Itália...
O segundo, que destaco como importantíssimo para o nosso negócio, é a Denominação de Origem, que identifica um produto de natureza agro-pecuária que possui características sensoriais específicas e identificáveis decorrentes de fatores geográficos, proporcionando-lhe notoriedade. Temos aqui o Vinho do Porto, de Portugal, e o saborosíssimo queijo curado de Parma, da Itália, por exemplo.
E o café?
O cafeeiro é plantado numa grandiosa faixa de latitude entre os Trópicos de Câncer e Capricórnio, portanto, mais de 45° de variação, e em altitudes das mais diversas. Combinando-se com a multiplicidade de varietais disponíveis, a combinação pode chegar a números impensáveis. Por outro lado, uma mesma varietal se expressa diferentemente em cada região, haja visto o que ocorre com plantas catuaí nas diversas origens brasileiras e, por exemplo, em países da América Central. Suas bebidas são diferentes.
Cada combinação pode resultar num produto único, exemplar!
É isso que pode dar continuidade na evolução do mercado de café.
A partir dessa visão, algumas origens, através de suas organizações locais, já obtiveram a Denominação de Origem, sendo o caso único, segundo regras da WIPO, sigla em inglês da Organização Mundial de Propriedade Intelectual, com sede na Suíça, o de Veracruz, no México, e um equivalente à Indicação Geográfica, o caso do Cerrado Mineiro. Particularmente, este último é tratado como Indicação de Procedência, segundo normas do INPI - Instituto Nacional de Propriedade Industrial.
Observe que estes dois casos são de extensões territoriais demarcadas que abrangem alguns municípios, pois é essa é a lógica: o que faz um café único é o fato de ter condições geográficas uniformes.
No final de 2006, a Colômbia entrou com solicitação de reconhecimento de Indicação Geográfica para o "Café de Colômbia" junto à União Européia. É um marco.
Apesar de entrar com um conceito de país e que, obviamente, outras particularidades de notas de aroma e sabor podem ser percebidas, o fato é que essa estratégia do Governo Colombiano dá grande impulso a esse conceito, correlacionando os atributos sensoriais às condições geográficas de produção. Preserva, principalmente, a competitividade do Café de Colômbia.
Este conceito se torna poderoso instrumento de marketing e facilita a percepção de qualidade junto aos consumidores.
Tal qual ações promovidas pelas origens de vinhos e queijos que citei, estas novas classes de cafés, aqueles com Indicação Geográfica e Denominação de Origem, poderão proporcionar valorização a esses grãos. Porém, pela iniciativa ousada e criteriosa, se considerarmos que partiu da área governamental, a Colômbia dourou os seus grãos de café...
Material escrito por:
Ensei Neto
Especialista em Cafés Especiais. Consultor em Qualidade e Marketing, Planejamento Estratégico e Desenvolvimento de Produtos & Novos Mercados. Juiz Certificado SCAA e Q Grader Licenciado.
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CRUZEIRO - SÃO PAULO
EM 16/11/2008
Também temos notícia que a Colômbia importa café da Venezuela, o que foi comprodo quando visitamos um cliente na Venezuela - e olha que pagam muito caro por este produto, pois fala-se em US$ 300,00 por saca.

SALVADOR - BAHIA - MÍDIA ESPECIALIZADA/IMPRENSA
EM 27/02/2008
Nosso escritório tem um interesse especial em desenvolvimento de projetos especiais em pontos de comercialização de café gourmet.
Grato,

RIO CLARO - SÃO PAULO - TRADER
EM 28/10/2007
Entretanto Sr. Ensei Uejo Neto, como foi de forma muito feliz citado em seu artigo, a iniciativa partiu, no caso da Colômbia, do estado. Que além de formar uma potente estrutura de marketing e vendas externas, treinou, capacitou e acompanhou os produtores colombianos em todas as etapas deste processo, o que infelizmente não ocorre aqui.
Meus parabéns por mais esta brilhante análise!
Cordiais saudações!