Divergências adiam solução para dívida do café

As discussões sobre a dívida da cafeicultura emperraram na última semana após as divergências entre os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e dos produtores. A estatal calcula um custo médio de produção em R$ 240/sc, enquanto os dados apresentados pelos produtores de café apontam um custo médio de R$ 350/sc durante a última safra.

Publicado por: CaféPoint

Publicado em: - 3 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 6
Ícone para curtir artigo 0

As lideranças dos cafeicultores brasileiros já articulam novas medidas caso fracasse a proposta para revisão dos custos de produção e preços mínimos para a cultura neste ano. As discussões sobre a dívida do setor emperraram na última semana após as divergências entre os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e dos produtores. A estatal calcula um custo médio de produção em R$ 240 a saca de 60 quilos, enquanto os dados apresentados pelos produtores de café apontam um custo médio de R$ 350 em cada saca durante a última safra.

A classe produtiva afirma que a elaboração de um preço mínimo condizente com a realidade é essencial para o prosseguimento das conversas e não descarta "fortes concentrações" em Brasília para resolver a situação.

Entre as propostas enviadas ao governo estão o apoio à comercialização com a criação do Leilão de Opções Públicas com recursos de R$ 1 bilhão para 3 milhões de sacas que deverão ser absorvidas pela União e a conversão em mercadoria com prazo de pagamento de 20 anos das dívidas relativas às linhas de Colheita, Custeio e Dação em Pagamento do Funcafé estimadas em R$ 2,2 bilhões.

Carlos Melles, deputado federal (DEM-MG) e presidente da Frente Parlamentar do Café, lembrou que a atual gestão federal se comprometeu em resolver a questão do endividamento do setor. "Em abril de 2003, toda a cadeia produtiva se reuniu com o Presidente Lula recém empossado e mostramos que a cafeicultura estava entrando em um forte ciclo de endividamento. Sabemos que ele é uma pessoa sensível a esses problemas, mas por algum motivo não tomou conhecimento da situação atual".

O deputado não descarta a possibilidade de "fortes concentrações dos produtores" em Brasília para resolver a situação. "Respeitamos os Ministros Reinhold (Stephanes) e (Guido) Mantega. Mas se não resolvermos isso na próxima semana, vamos rever os procedimentos. A crise da cafeicultura pode causar desemprego no campo, que é mais silencioso em relação ao da cidade".

A indústria do café também apoia novas medidas para aumentar a remuneração dos produtores. Almir Filho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), afirma que a única restrição fica com o Leilão de Opções. "O uso de recursos públicos para enxugar a oferta de mercadoria em um ano de safra baixa é muito arriscado. Sabemos que existe um crescimento do consumo interno e externo além das exportações e isso já faria os preços subirem mais".

Ele disse que o preço mínimo de R$ 320 a saca que os produtores pedem é conservador. "Os custos da cafeicultura cresceram muito nos últimos anos. Para produzir com qualidade e em quantidade suficiente para abastecer o mercado interno e externo um preço abaixo disso realmente é inviável". Porém diz que medidas como as Opções podem afetar o consumidor. "Em um momento desses precisamos evitar novas altas".

O indicador diário do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Universidade de São Paulo (Cepea/USP) mostra que a saca do café arábica tipo 6 acumula valorização de 6,1% no mês, sendo negociado por R$ 269 a saca. Melles conta que a produtividade média utilizada pela Conab para compor os custos ficou entre 20 e 30 sacas. "A média da safra passada foi de 17,1 sacas. O que eles não podem esquecer é que 85% da cafeicultura nacional é de pequenos produtores". Disse que o problema para o avanço nas negociações está limitado a alguns funcionários de "terceiro escalão" do Ministério da Fazenda. "Apresentamos todos os custos apurados pelo Prócafé, Cooperativas, mas contra ideologia não há número que faça mudar de ideia", conta.

Segundo a Conab, os preços mínimos em vigência para o arábica são de R$ 211,75 a saca e para o conillon R$ 124,40 a saca. Jorge Queiroz, analista de mercado de café da Conab, explica que a função da estatal é fazer o levantamento dos números e enviar a sugestão ao Ministério competente. Entre os aspectos considerados para avaliação estão o nível dos estoques e o volume da produção.

"Todo ano é feito um estudo amplo antes de ser tomada uma decisão sobre o preço mínimo". No entanto, o analista disse que não sabe qual a estimativa para este ano. Segundo disse, os estoques públicos estão atualmente em 691 mil sacas, sendo 521 mil sacas do Funcafé e 170 mil sacas com a Conab. Já os estoques privados estão em cerca de 3,5 milhões de sacas. "Isso só consegue atender o mercado interno e as exportações por um mês", avalia Queiroz.

A matéria, de Roberto Tenório, foi publicada na Gazeta Mercantil, resumida e adaptada pela Equipe CaféPoint.
QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no CaféPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 6
Ícone para curtir artigo 0

Publicado por:

Foto CaféPoint

CaféPoint

O CaféPoint é o portal da cafeicultura no Brasil. Contém análises de mercado, perspectivas, cotações, notícias e espaço para interação dos leitores, além de artigos técnicos que abordam produção, industrialização e consumo de café. Acesse!

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe CaféPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

bruno jose alves
BRUNO JOSE ALVES

CAPUTIRA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 20/01/2009

Bem meus amigos produtores, a situação que já estava difícil está ficando insuportável. Vários produtores estão suspendendo as atividades nas lavouras e temem ser necessário vender suas propriedades para saudar dívidas com os bancos, afinal o produtor de café não é caloteiro.

Diante de tudo isso o governo insiste em afirmar que a crise não irá abalar muito a economia do país. E mais, que para o setor cafeeiro não irá faltar recursos, e que já foram liberados tantos bilhões para atender a cadeia produtiva. Mas a realidade, sabemos bem, é outra. Veja, por exemplo, a situação em nossa cidade: de 6 milhões solicitados ao governo federal pela cooperativa de crédito para atender alguns produtores em situação crítica, apenas 200 mil foram liberados. Agora lhes pergunto: como vai ficar a situação desses produtores? A resposta é bem simples: irão fechar as porteiras enquanto ainda lhes restam alguma dignidade!
enio perino
ENIO PERINO

BANDEIRANTES - PARANÁ - INDÚSTRIA DE CAFÉ

EM 20/01/2009

A pergunta que fica no ar é: os produtores que a duras penas são adimplentes, como ficariam em uma renegociação das dívidas?
nailton castelari junior
NAILTON CASTELARI JUNIOR

NEPOMUCENO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 20/01/2009

Nós, cafeicultores, sempre passamos nossas dificuldades calados. Chega! Precisamos lutar por nossos objetivos. O cafeicultor tem que deixar de lado esse costume de ser sempre a classe mais castigada, abaixando a cabeça e concordando com essas esmolas que nos oferecem. É hora de parar e pensar: somos uma classe forte, se ficarmos unidos.

Chega de trabalhar dia e noite nas fazendas e darmos o nosso lucro (a quanto tempo não temos) de mão beijada. Confio em Carlos Melles e sua equipe para defender nossos interesses, mas tambem temos que lutar. E lutar é o nosso forte, pois lutamos contra tudo e todos até mesmo contra o clima, e nunca desistimos.

Apesar disso, confesso que no momento atual eu estou a desistir, só não o faço porque minha paixão pelo café nao me deixa. Um abraço a todos, e vamos reenvindicar nossos direitos.
Henrique Donizete Miranda
HENRIQUE DONIZETE MIRANDA

MINAS GERAIS

EM 19/01/2009

Ta faltando coragem de fazermos igual os produtores da Argentina e mostrarmos que fazemos parte deste país; porque lá eles se fazem ouvidos e por isso são respeitados
PEDRO DONIZETE DA COSTA
PEDRO DONIZETE DA COSTA

POÇOS DE CALDAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 19/01/2009

Dá-lhe Carlos Mellles. É como disse o João Carlos Remédio: se fosse um grande banco ou montadora, o dinheiro já estaria disponibilizado. No entanto, empregamos mais pessoas e pagamos mais impostos que eles...
João Carlos Remedio
JOÃO CARLOS REMEDIO

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 19/01/2009

Se a cafeicultura fosse um banco privado ou uma montadora de veículos que estivesse em dificuldade, com certeza os recursos já estariam à disposição. Começo a sentir a pouca importância que os órgãos governamentais têm dispensado para com a cafeicultura. Estamos precisando de gente grande para representar a cafeicultura em um momento tão delicado e decisivo como esse. Boa sorte ao setor.