Crise global compromete investimento de cooperativas

Ainda carentes de capital de giro e estruturadas sobre investimentos feitos com recursos a juros subsidiados pelo Tesouro Nacional, as cooperativas agropecuárias do país projetam queda no faturamento e nas margens de lucro neste ano por causa dos efeitos da crise financeira global. Os sinais de contaminação da economia real pela crise iniciada nos Estados Unidos também devem restringir os planos de investimentos dessas sociedades nos próximos anos.

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Ainda carentes de capital de giro e estruturadas sobre investimentos feitos com recursos a juros subsidiados pelo Tesouro Nacional, as cooperativas agropecuárias do país projetam queda no faturamento e nas margens de lucro neste ano por causa dos efeitos da crise financeira global. Os sinais de contaminação da economia real pela crise iniciada nos Estados Unidos também devem restringir os planos de investimentos dessas sociedades nos próximos anos.

A dificuldade financeira vivida pelos produtores cooperados, que sofrem a escassez de crédito rural desde o início da atual safra, em junho, deixou as cooperativas sem alternativas para obter novos empréstimos em tempos de baixa liquidez. A maior parte dos investimentos de 2008, estimados em R$ 12 bilhões no início deste ano, será adiada para 2009.

A situação tende a piorar em caso de redução na demanda mundial por alimentos em países em desenvolvimento, como China e Índia, ou na hipótese de desvalorização acentuada do dólar ante o real, mas o cenário poderia ser diferente se as cooperativas nacionais tivessem adotado exemplos do próprio cooperativismo. Na falta de um grande banco cooperativo, como o holandês Rabobank ou o francês Crédit Agricole, e de iniciativas para ganhar espaço nos segmentos de insumos e de distribuição, é grande a dependência dos recursos das exigibilidades bancárias, parcialmente subsidiados pelo Tesouro e cada vez mais escassos e disputados no mercado.

"Precisamos de uma ação forte no crédito rural e ninguém melhor do que as cooperativas para atender a isso", afirma o presidente da OCB, Márcio Lopes de Freitas. Um avanço do sistema brasileiro poderia alavancar as empresas do setor. Além da sofisticação no crédito, o cooperativismo precisa formar e renovar lideranças, admite Del Grande, da Ocesp. Há casos em que dirigentes comandam com mão-de-ferro, e desde o nascimento, sociedades líderes na área.

Braço financeiro das cooperativas e sétimo maior banco de Portugal, o Crédito Agrícola negocia com a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) uma consultoria na tentativa de unificar o sistema de crédito brasileiro, hoje dividido entre os concorrentes Bancoob e Bansicredi.

Embora tenham dificuldades estruturais, as cooperativas brasileiras apostam na "confiança mútua" com seus produtores associados como principal "lastro" para superar a atual crise financeira. "A questão central hoje é a crise de confiança, um elo que não se estabelece no mercado", diz o presidente da Cooxupé, Carlos Paulino. Ele lembra que sua sociedade conta com 83% de agricultores familiares, com produção de até 500 sacas de café. "Eles dependem de nós e vice-versa. Por isso, a cooperativa tem o antídoto contra a crise", afirmou.

A crise global, aliada a outros fatores conjunturais específicos, afetou planos e deverá influenciar as decisões de investimento em 2009 também em cooperativas da Europa, Ásia e América. As portuguesas estão sofrendo com a concorrência da produção dos países do Leste Europeu, sobretudo de Polônia e República Tcheca.

Para o presidente da Confederação Nacional das Cooperativas de Portugal (Confagri), Francisco João Silva, ainda não é possível saber a extensão da crise financeira, mas o problema é maior porque vem associado a crises econômicas, de preços e climática. "O pior é que a Europa está no meio do desmantelamento da PAC [Política Agrícola Comum], abrindo mercados a produtos baratos do Brasil, China e Índia."

Os produtores da China também estão preocupados com a freada no crescimento econômico do país, o que tem garantido bons preços internacionais em benefícios das cooperativas locais. "Não sabemos até que ponto podemos reduzir o consumo interno, mas há sinais preocupantes", diz o chefe do Departamento de Comércio Exterior e Economia Internacional da China Co-Op, Xu Mingfeng. Os chineses estão às voltas com limitações ambientais cada vez mais complicadas para ampliar suas atividades agropecuárias.

A matéria, de Mauro Zanatta, foi publicada no Valor Econômico, resumida e adaptada pela Equipe CaféPoint.
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