Renato Fernandes: Bom dia, Dr. Celso. Os produtores e técnicos de Cooperativas, especialmente do Sul de Minas, têm manifestado preocupação com a falta de chuvas nas lavouras de café, alertando, inclusive para possíveis danos à safra 2007/8, que já deve ser menor que a atual, devido à bianualidade de produção do café arábica.
Celso Oliveira: Bom dia, Renato. A situação é realmente preocupante, apesar destes meses de julho e agosto serem normalmente secos, mas as chuvas que deveriam ter ocorrido no outono, não vieram, neste ano.
Ou seja, o déficit é maior neste, que em anos anteriores, não por causa do inverno, mas porque o período chuvoso terminou antes do normal. Por isso, há um déficit hídrico razoável em todas as áreas de café daqui do sudeste, o qual só vai se resolver com a volta das chuvas na primavera, ou seja, lá para setembro ou talvez outubro.
Renato Fernandes: Primavera que, neste ano, pode ter chuvas irregulares, conforme você respondeu ao produtor de café, Paulo Vecchi, no Pergunte ao Meteorologista, em 30 de junho. Pode ser que até demore mais um pouco?
Celso Oliveira: Demore ou seja irregular. A minha maior preocupação numa situação dessa agora, em que o déficit hídrico é muito grande, é que você tenha apenas uma chuva muito intensa.
Agora mesmo, no início de julho, em São Paulo, nós tivemos uma chuva de um dia cujo volume que foi próximo da média histórica do mês.
Pode ser que venha uma frente fria mais forte do sul do Brasil, provoque uma chuva de, digamos, 30milímetros, quebre o déficit e dê florada no café, sem que nada garanta a regularidade depois da sua passagem.
Isso a gente já teve, a coisa de uns dois ou três anos atrás, quando, no finalzinho de agosto, houve uma chuva bastante significativa nas áreas do café e depois, em setembro até meados de outubro, não voltou a chover e boa parte da florada foi abortada, por conta do déficit que retornou à condição anterior.
Renato Fernandes: Flora mais não vinga?
Celso Oliveira: Exato. O café florou a primeira vez, mas, depois, não houve chuvas. Essa é a minha maior preocupação neste ano. Ocorrer uma única chuva significativa até agosto e, em seguida, mais um mês, um mês e meio de déficit.
Renato Fernandes: - Isso causaria um dano até maior que o déficit hídrico que já ocorre hoje?
Celso Oliveira: Sim. É melhor você não ter chuva nenhuma, sendo que, quando ela vier, se consolide, do que ter uma chuva irregular, o que, aliás, é o risco deste ano.
Renato Fernandes: Você poderia dar um exemplo de como está a situação no sul de Minas, hoje?
Celso Oliveira: Entre março e junho deveria ter chovido, na região de Machado/MG, algo em torno de 330 milímetros. Choveu 300, ou seja, aparentemente, não deve haver um déficit muito grande. Mas, dos 300 milímetros de chuva, 250 ocorreram em março.
Desde o final do outono, o problema foi a distribuição: 250 milímetros, num mês, e os outros 50 distribuídos, ao longo de três meses. Abril foi um mês muito seco naquela região. Eram esperados de 50 a 100 milímetros, e as chuvas não chegaram nem a 20.
Renato Fernandes: Quanto às geadas, o risco está definitivamente descartado?
Celso Oliveira: As chances passam a ser muito remotas, já que as previsões de 15 dias, que vão até o início de agosto, não indicam nenhuma massa de ar polar chegando até o País.
No entanto, não podemos usar o termo "definitivamente descartado", pois é bom lembrar que as previsões de médio prazo podem sofrem mudanças ao longo dos próximos dias, e ainda temos o mês de agosto que, apesar de historicamente não ser um mês de risco, pode apresentar alguma onda de frio um pouco mais forte chegando ao Sudeste.
Com o enfraquecimento da La Niña, as massas de ar frio ainda podem vir de forma continental durante o mês de agosto, porém com uma intensidade que, no entanto, provavelmente, já não deve causar danos ao café.
Você tem alguma dúvida sobre previsão de tempo e clima para café? |