Por Sarah Murray, do Financial Times (UK)
Duas palavras são vistas cada vez mais frequentemente nos rótulos dos produtos de café em muitos países consumidores: "cultivado sustentavelmente". Elas refletem a demanda dos consumidores éticos e de práticas de compra de grandes companhias, que estão querendo suprir essa demanda com café que tem "credenciais". Porém, elas também representam uma outra coisa importante: uma grande oportunidade para os pequenos produtores.
No entanto, considerando a proliferação de rotulagens de café, certificações, códigos e programas corporativos de sustentabilidade, os consumidores têm razões para ficarem confusos. Certificações diferentes vêm com diferentes padrões.
Por exemplo, o café certificado como Fairtrade (comércio justo) garante aos produtores um preço mínimo pelo seus produtos e os conecta com os importadores, cortando o intermediário. Os produtores precisam seguir padrões sociais, como promover condições saudáveis de trabalho e não usar mão de obra infantil. Entretanto, para se tornar certificado pelo Fairtrade, os produtores precisam fazer parte de uma cooperativa.
A certificação Rainforest Alliance, uma organização não governamental dos Estados Unidos, não garante aos produtores um preço mínimo pelo seus grãos. Ao invés disso, a organização ajuda os produtores a introduzir mais práticas eficientes e sustentáveis para permitir que eles aumentem a qualidade da colheita e para dar a eles mais poder de barganha com os compradores que buscam grãos de alta qualidade.
Diferentemente do café Fairtrade, os produtores não precisam fazer parte de uma cooperativa para se tornar certificados pelo Rainforest Alliance.
Por outro lado, a 4C, conhecida como Common Code pela comunidade de café, tem membros que incluem grupos de produtores, comerciantes, torrefadores, varejistas e ONGs. O código da organização é conduzir ajuda aos produtores, em particular os pequenos, para adotar padrões de sustentabilidade.
A diretora executiva da Futerra, uma agência de comunicações sobre sustentabilidade, Solitaire Townsend, disse que diferentes rótulos e esquemas de certificação também são importantes aos consumidores de café, que vêm há algum tempo prestando atenção na qualidade do que compram.
"O café é cada vez mais um modo de vida", disse ela. "A obsessão com a origem, o aroma, o sabor, o tamanho a espuma dizem muito sobre você, sobre o que você veste ou sobre como você dirige. O interesse na sustentabilidade está intrinsecamente ligado a essa obsessão".
O interesse está crescendo entre os consumidores sobre a subsistência dos cafeicultores. "Os consumidores vêm há um tempo julgando a qualidade do café com base na qualidade da oferta, qualidade de grão. É um pequeno passo disso para a qualidade de vida dos produtores e comunidades".
Mesmo sem o apetite dos consumidores por café produzido de forma sustentável, a maior demanda global está criando um mercado crescente aos produtores. Os preços do café, embora tenham caído de seu pico em 2010, ainda estão relativamente sustentáveis. Somado a isso estão os compromissos de grandes torrefadores locais de comprar quantidades cada vez maiores de grãos de café produzidos de forma ética e sustentável.
"Você tem companhias trabalhando em fontes sustentáveis e rastreáveis de café, e grandes torrefadores, como Kraft e Nestlé, buscando commodities certificadas", disse o chefe da iniciativa de mercados inclusivos do Monitor Group, Mike Kubzansky.
A Kraft, por exemplo, disse que fornecerá 100% de seus grãos de café usados em todas as marcas de café europeias de forma sustentável até 2015. A Nestlé, por outro lado, anunciou planos para dobrar a quantidade de café para Nescafé comprado diretamente de produtores e suas associações entre 2011 e 2015.
"Os torrefadores fizeram compromissos massivos com fornecedores sustentáveis. Agora, precisam obter a oferta por trás disso", disse Kubzansky.
Fazer isso não será fácil. Para os pequenos produtores de baixo renda sem acesso a créditos, o desafio é que, embora os animais ou colheitas agrícolas como milho forneçam um retorno relativamente rápido aos investimentos, o cafezal demora vários anos para se estabelecer. Entretanto, a boa notícia a esses produtores é que as realidades do cultivo de café - a altas temperatura em terrenos acidentados e com colheita manual - significam que eles não estão prestes a ser substituídos por produtores industriais.
"É um trabalho muito intensivo e terras específicas de produção", disse o gerente sênior de agricultura sustentável do Rainforest Alliance, um especialista em café. "Então, não é algo que se presta a uma produção em larga escala como uma cultura".
Algumas multinacionais estão começando a trabalhar diretamente com os pequenos produtores para promover práticas sustentáveis de produção por essa razão. Os comerciantes e exportadores que fornecem grãos aos grandes torrefadores também estão fornecendo suporte aos produtores de café, estabelecendo grupos de produtores e oferecendo treinamento em práticas sustentáveis de agricultura.
Ao mesmo tempo, algumas marcas, incluindo Nestlé e Kraft, formaram parcerias com organizações, como Rainforest Alliance.
Porém, mesmo se direcionada pelos rótulos, certificação ou pelo desejo das companhias de serem vistos como produtores responsáveis, a maior demanda por café sustentável e ético beneficiam os produtores em algumas das áreas rurais pobres do mundo. "Estamos vendo cada vez mais grandes torrefadores levando a sustentabilidade a sério. Isso direciona mudanças positivas na atividade".
A reportagem é do Financial Times, traduzida pelo CaféPoint.
Certificação: café precisa ser servido com credenciais
Colunista do Financial Times, do Reino Unido, discorre sobre o cenário atual do mercado agrícola sob o prisma da sustentabilidade e as consequentes certificações. Aborda as exigências do mercado e os novos hábitos de consumidores, retratando de modo positivo a nova tendência deste mercado, em níveis mundiais, em especial do café.
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