Brasil segura as exportações mundiais de café
Em junho, as exportações brasileiras foram 15,94% menores do em junho de 2005, caindo de 2,053 milhões para 1,726 milhão de sacas. Em julho, foram exportadas, o equivalente a 1.810.906 sacas de 60 quilos, 8,5% menos que o exportado em julho de 2005. Guilherme Braga conversou com o CaféPoint, sobre possíveis causas das fracas exportações.
Publicado por: CaféPoint
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Em junho, as exportações brasileiras foram 15,94% menores do em junho de 2005, caindo de 2,053 milhões para 1,726 milhão de sacas.
Agora é o relatório mensal de julho, do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, Cecafé, divulgado, ontem, 7/7, que aponta que as exportações brasileiras continuam retraídas, apesar da entrada da nova safra, colhida em ano de alta do ciclo de bianualidade do café arábica.
De acordo com o relatório do Cecafé, foram exportadas, em julho, entre café verde e industrializado, o equivalente a 1.810.906 sacas de 60 quilos, 8,5% menos que as 1.979.447 sacas exportadas em julho de 2005.
Desde 2001, este valor supera apenas julho de 2003, ano de safra baixa, no qual foram colhidas apenas 28,82 milhões de sacas no Brasil, frente a uma previsão de 40 a 44 milhões de sacas para a safra 2006/7.
No acumulado do ano, o volume exportado (13,4 milhões de sacas) é 12% menor do que o registrado nos sete primeiros meses de 2005 (15,2 milhões de sacas), o que era de se esperar, ainda como reflexo da safra baixa (33,3 milhões de sacas) colhida em 2005.
No entanto, o preço médio, em dólar, evoluiu de US$ 108, entre janeiro e julho de 2005, para US$ 120 em igual período deste ano, com um acréscimo de 11%.
Em informe do Cecafé, Guilherme Braga, diretor geral da entidade, estima que, com o avanço na colheita e a recuperação dos preços, observada na primeira semana de agosto, as vendas externas, tendam aumentar, neste mês. Ficando mantida, então, a previsão de 15 milhões de sacas, no segundo semestre, e do fechamento do ano com cerca de 27 milhões de sacas exportadas, gerando receitas de US$ 3,1 bilhões.
O CaféPoint conversou com Guilherme Braga, sobre possíveis causas das fracas exportações de julho e os impactos, nas vendas externas, de notícias recentes sobre câmbio e comércio internacional.
CaféPoint: Dr. Guilherme, está existindo uma certa retração de oferta interna de café? Comparado com outros anos, está se vendendo muito pouco?
Guilherme Braga:Sem dúvida! Veja que nós temos uma safra grande e, neste mês de julho, a exportação foi uma das menores, em termos históricos. O café está vindo com muita lentidão para o mercado. Isto devido à falta de ânimo do produtor para vender.
CaféPoint: Por outro lado, o preço médio em dólar subiu neste ano. A cotação atual do dólar é um complicador para o fechamento de negócios de exportação de café?
Guilherme Braga:No caso do café, não se consegue repassar aumentos internos de custo. Existe um teto que é o preço em dólar. Você continua competitivo, mas o produtor no Brasil tem uma renda menor. Tem um ganho menor e você sabe que, no café, é preciso que o produtor esteja estimulado a fazer os tratos adequados e fazer investimentos. Então, a queda na sua renda leva à redução desses tratos, gerando queda de produtividade.
CaféPoint: O pacote cambial, recém-anunciado, trará benefícios para os exportadores de café?
Guilherme Braga: No café não fez diferença, pois nossas despesas são todas feitas aqui no Brasil. Os custos com matéria-prima, processamento, transporte, e despesas portuárias, não são gerados no exterior.
A possível permanência dos recursos lá fora não é vantagem, para quem não tem despesa externa. Deixar o dinheiro lá fora e não pagar CPMF, não vai ter aplicação, no nosso caso de exportação de café verde.
CaféPoint: Do jeito que foi feito, o pacote vai conseguir mexer no câmbio?
Guilherme Braga: Eu tenho impressão que o propósito do pacote vai ser contemplado, os efeitos devem vir do fato que a oferta interna de dólares no país deve ser menor.
Deve ficar algum dólar lá fora, referente a alguns produtos. Então, vai haver esse efeito direto. Diminuindo a entrada, você corrige um pouco esta situação, que nós temos, de uma receita externa superavitária. Ou seja, nós vendemos mais dólares, no mercado interno, do que compramos. Há esta vantagem para o exportador. O ingresso de dólares será menor, porque entrarão menos divisas.
CaféPoint: Existem analistas que afirmam que, com o limite de 30% para não internalização dos recursos, para as medidas não terão impacto suficiente para influir na cotação do dólar. O senhor concorda?
Guilherme Braga: Olha, eu não sei exatamente o impacto dos trinta por cento, mas como o superávit, neste ano, está previsto para quinze bilhões de dólares, ele deve ser maior do que o que vai ficar lá fora, logo tem algum efeito sim. Talvez não tão amplo, mas o que fica lá fora deixa de ser ofertado aqui dentro, portanto, algum efeito deve ocorrer, sim. Se os trinta por cento foram a dose exata e necessária é difícil dizer, mas, teoricamente, terá algum efeito sim.
CaféPoint: E, quanto ao cancelamento da rodada de Doha? O café não está entre os produtos mais protegidos, mas que oportunidade o Brasil perdeu? O que poderia ter sido melhor?
Guilherme Braga: Conforme você mesmo disse, na nossa área de atuação mais direta, não há muita proteção. De modo geral, em quase todos os países a importação de café verde não é sujeita a tarifas e isto decorre, mais propriamente, de acordos bilaterais.
Agora, no café industrializado, invariavelmente, os países cobram imposto de importação. Um imposto generalizado e existem diferenças em torno de convenções específicas. Por exemplo, no caso da África, as ex-colônias de países europeus têm preferências tarifárias. No caso do industrializado, é isto que a gente pode considerar como barreiras. Talvez não uma barreira direta, mas, na prática acabam sendo barreiras, incentivos a terceiros.
CaféPoint: Para o café, então, não faria muita diferença se Doha tivesse avançado?
Guilherme Braga: Não. Na verdade, os produtos que se beneficiariam de um avanço em Doha são aqueles também produzidos nos países industrializados. A discussão reside nos produtos que eles também produzem. Não há porque ser diferente. Normalmente os produtos afetados são produtos agrícolas também produzidos por eles ou são produtos industriais, os quais são taxados na importação.
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LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 14/08/2006
Olhar à frente significa criar um cenário, onde a cafeicultura brasileira, dentro de alguns anos, possa realmente ser uma "vítima" das políticas internacionais não ajustadas no presente.
Hoje, Doha, de fato, não impacta diretamente sobre parte dos negócios do café. Mas o PEDEC quer fazer com que o Brasil se torne uma grande plataforma de exportação de cafés com valor agregado: isso me leva a crer que, em função de políticas de favorecimento de países economicamente dependentes da cafeicultura, dentre em breve, poderemos enfrentar, num cenário pessimista, o problema de barreiras ao nosso café verde, tal como acontece com o solúvel hoje.
Se somos a maior plataforma mundial de cafés verdes e caminhamos para nos tornar a maior plataforma mundial de consumo e industrialização, nos tornaremos vidraça. E nosso vidro é frágil, em função de nossa estrutura econômica/tributária.
Pontualmente, não posso emitir uma opinião quanto ao interesse privado de cada empreendedor que atua na exportação de café, pois cada um tem uma visão de negócio e objetivos empresariais muito claros. Mas posso emitir sob o ponto de vista da política cafeeira: pondero que há a necessidade de convergência de interesses.