Adubação orgânica na cafeicultura
Extratos húmicos, aminoácidos, bioestimulantes etc, têm sido muito utilizados na cultura do café. Esse tema é complicado, especialmente porque não há pesquisas científicas suficientes e consistentes sobre a aplicação desses produtos em café. Existem, sim, relatos de casos e fotografias.
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Carta de Marcos de Oliveira Bettini
As novas tecnologias como extratos húmicos, aminoácidos, bioestimulantes e outros produtos de origem orgânica têm sido muito utilizados no mercado cafeeiro, justificando maior discussão.
Comentários de André Guarçoni
Esses produtos (extratos húmicos, aminoácidos, bioestimulantes, etc.) têm sido muito utilizados na cultura do café, como você bem mencionou. Escrever sobre esse tema é complicado, especialmente porque não há pesquisas científicas suficientes e consistentes sobre a aplicação desses produtos em café. Existem, sim, relatos de casos e fotografias.
Na pesquisa científica, devemos separar os efeitos, bem como as interações, dos elementos ou moléculas constituintes desses produtos, que são verdadeiros coquetéis. Por exemplo: aplicamos um produto constituído por diversos elementos e moléculas. O produto tem efeito positivo, mas qual, ou quais, elementos e moléculas foram responsáveis por esse efeito. Isso é de extrema relevância, pois podemos aplicar produtos extremamente elaborados, em que apenas um ou dois elementos estão surtindo efeito. Mas e o resto? O resto transforma o produto em sucesso de mercado, mas sem efeito consistente na produção ou qualidade.
Entretanto, os relatos de caso e fotografias mostram um efeito surpreendente, não é? Sim, isso é possível. É possível que os produtos sejam eficientes. Mas sem comprovação científica, não podemos tomar posição, pois envolve gasto de recursos. Um equívoco freqüente é comparar a aplicação de determinado produto com uma testemunha que nada recebeu. Se eu aplicar água pura em um talhão, a produção será maior e as plantas ficarão mais vistosas do que no talhão que nada recebeu. Isso não é pesquisa científica.
Existe, também, o efeito do acaso, que na pesquisa científica é controlado. Mas isso é outra longa história. Além disso, pesquisas esporádicas não querem dizer muita coisa, mostram, apenas, a possibilidade. Só quando um número adequado de pesquisas mostra consistência em diversas regiões, podemos afirmar que a tecnologia desenvolvida é, realmente, eficiente e incontestável.
A partir dos fatores relatados, acredito ser prematura uma tomada de decisão em relação à aplicação desses produtos. Eles podem ser eficientes, mas falta, ainda, prova inconteste disso.
Para ler o texto na íntegra acesse aqui.
Rodrigo Cascalles, Equipe CaféPoint
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UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 13/08/2007
Att.,
André Guarçoni M.
<b>Caro André,</b>
Obrigado mais uma vez pela atenção e qualidade de resposta. Muito bem fundamentada, entendo, mas concordo em parte com a situação e com sua posição. Gosto do debate; o convite ao café em Uberlândia segue em pé.
Há excelente pesquisa científica sobre substâncias húmicas e bioestimulantes, lamentavelmente pouca em café. No site do IHSS - International humic substances society, no Depto de fisiologia vegetal da ESALQ-USP, Sociedade americana de ciência do solo, Universidade Norte Fluminense, além de muitas outras instituições e fontes é possível encontrar excelentes trabalhos de ciência básica sobre os tópicos.
Também a bons trabalhos de campo e resultados econômicos. A ciência é muito reticente a assuntos menos convencionais. Não tem tido a velocidade, os recursos e a curiosidade que seriam pertinentes ao espírito investigativo para a atividade científica e geração de tecnologia.
O mercado vem assumindo este papel, e bancando os riscos de conclusões errôneas, custos, manipulação de interesses e outros problemas. Por outro lado vem solucionando problemas e criando soluções muito relevantes sem o adequado suporte científico. Ruim para a ciência e ruim para o mercado.
Fico contente que a reticência correta não castre abertura ao novo.
Abraços, Marcos Bettini
<b>Prezado Marcos Bettini,</b>
Agradeço suas palavras de reconhecimento. Devo reconhecer, também, que você é um profissional atualizado, buscando conhecimento em diversas fontes respeitáveis, inclusive internacionais. É realmente lamentável que exista pouca pesquisa sobre o efeito desses produtos em café. Por outro lado, como você deve ter notado em suas pesquisas literárias para outras culturas, podemos resumir o assunto da seguinte forma:
Quanto às substâncias húmicas, o número de trabalhos é enorme, especialmente trabalhos internacionais. Estes trabalhos mostram as substâncias húmicas como coadjuvantes na nutrição das plantas, melhorando as características físicas e químicas do solo, principalmente os ácidos húmicos e fúlvicos. Mas este papel é também desempenhado pela matéria orgânica adicionada ao solo, isso sem relacionar o fato de que a matéria orgânica adicionada é fonte de nutrientes e as substâncias húmicas, não, uma vez que essas substâncias não são significativamente ricas em nutrientes, além de serem muito mais estáveis.
Para os aminoácidos, os estudos se concentram sobre aqueles presentes no solo, oriundos da decomposição de material vegetal ou animal. Nesse caso, trabalho de Jones et al. (2005) (Soil Biology & Biochemistry, (37):179:181, 2005) mostra que os microrganismos competem demasiadamente com as plantas pelos aminoácidos livres no solo, sendo que estas só seriam capazes de utilizá-los quando em altas concentrações. No caso da utilização de aminoácidos para nutrição de plantas, os resultados dos trabalhos científicos são muito controversos, especialmente se considerarmos que o efeito isolado da aplicação de aminoácidos é pouco testado.
Considerando os bioestimulantes, os resultados das pesquisas são, também, muito controversos. Inclusive, muitos autores reportam o feito positivo como advindo dos micronutrientes presentes nesses bioestimulantes. Mas as pesquisas avançam. Sugiro a leitura da Tese de Doutorado de Ana Carolina Feitosa de Vasconcelos, que tem um tratamento estatístico adequado, (Uso de bioestimulantes nas culturas de milho e soja, ESALQ, 2006 - na internet você consegue acesso) e do artigo do Ph.D. Keith J. Karnok (Promises, promises: Can biostimulants deliver? Golf Course Management, (68):67-71, 2000 - na internet você consegue acesso), que mostra alguns detalhes sobre o assunto.
Digo que a ciência, ou melhor, os cientistas, têm velocidade e curiosidade, mas faltam, sim, recursos, especialmente em países como o Brasil. Se o cientista não tiver espírito investigativo, deve mudar de profissão, pois, como as coisas andam, talvez esta seja uma das únicas características que restam. Complemento dizendo que, não existe geração de tecnologia sem atividade científica.
Quando você diz que o mercado vem assumindo esse papel, espero que não sejam os produtores a bancar o ônus das conclusões equivocadas e o custo de todo o processo de tentativa.
Lembro palavras de um excelente professor que tive, Dr. Antônio Carlos Ribeiro: "A teoria sem a prática é inócua, e a prática sem a teoria é vaga indagação".
Infelizmente, não considero o CaféPoint o fórum adequado para continuarmos essa discussão, mas agradeço o posicionamento franco e bem elaborado.
Atenciosamente,
André Guarçoni M.