O fato que acabou sendo o destaque da semana passada foi a valorização do real frente ao dólar. Nesse período - de 18 a 22/02/08 -, a moeda norte-americana teve uma variação negativa de 1,7%. No início da semana, na segunda-feira (18/02), ela apresentava a cotação de R$ 1,736 e na sexta (22/02), a cotação já tinha se reduzido para R$ 1,707, o menor valor já registrado desde 1999. No mês, a variação já alcançou 2,29% e no ano 3,75%.
A notícia divulgada pelo Banco Central, de que os ativos brasileiros no exterior tinham ultrapassado em 4 bilhões de dólares a dívida externa total do país - incluindo aí dívidas pública e privada -, colaborou para que ocorresse essa valorização mais acentuada do real. Esses ativos (que foram citados acima), são formados basicamente pelas reservas internacionais brasileiras, as quais tiveram um crescimento expressivo nestes últimos anos - partindo de US$ 16,3 bilhões em 2002, para US$ 180,3 bilhões em 2007 -, e são formados ainda pelos créditos dos bancos brasileiros no exterior, e pelas aplicações financeiras de empresas e pessoas físicas. Na verdade o Brasil passou da condição de devedor, para a condição de credor externo líquido.
Além dessa folga, no que se refere às contas internacionais, o país vem apresentando números relativos aos indicadores macroeconômicos extremamente favoráveis - inflação em 2007 de 4,2%, portanto abaixo da meta que foi de 4,5%, crescimento do Produto Interno Bruto - PIB, acima dos 5%, disponibilidade do crédito ao consumidor, a nível nacional, em torno de 35% do PIB, superávit primário de 3,8%, saldo na balança comercial de 40,0 bilhões de dólares, Investimento Estrangeiro Direto - IED, de US$ 35,0 bilhões em 2007, 2,0 milhões de novos empregos formais em 2007, crescimento da indústria de 6%, crescimento do varejo de 9,2%, taxa de ocupação média da indústria, na casa de 83%, e vai por aí. Essa conjunção de fatores positivos, está fazendo com que o Brasil se aproxime cada vez mais da perspectiva de receber a classificação de grau de investimento - investment grade -, que é uma chancela outorgada pelas agências internacionais de avaliação de risco, que concede ao país a possibilidade de contrair empréstimos a juros bem reduzidos.
É importante lembrar também, que o país que apresenta uma economia com essas características, se torna menos vulnerável às crises externas, como por exemplo, essa do subprime (das hipotecas de alto risco, nos Estados Unidos), que estamos sendo obrigados a ter que conviver.
Um número representativo de investidores internacionais, como fundos de pensões e outros fundos de investimentos, que possuem perfis menos agressivos, só são autorizados pelos seus cotistas a dirigirem as suas aplicações para países - ou empresas -, que possuem esta qualificação (grau de investimento), uma vez que trata-se de uma alternativa mais segura. Dificilmente um país que apresente números tão favoráveis com relação a sua economia, irá promover um calote na sua dívida.
Por isso os produtores de café deverão ficar muito atentos para a possibilidade do real se valorizar ainda mais, o que seria extremamente desfavorável para as exportações do produto. Os preços do café, em dólar, estão elevados. Na sexta-feira (22/02) os contratos para setembro de 2008, que eram negociados na BM&F, já apresentavam uma cotação próxima dos duzentos dólares para a saca de 60 kg, do café arábica tipo 06, bebida dura para melhor. Na Bolsa de Nova York os contratos para julho já estavam cotados a 164,80 centavos de dólar por libra-peso.
Na verdade, está ocorrendo com o café algo semelhante que está acontecendo com outras commodities agrícolas, como é o caso do milho e da soja. Ele (o café) está sendo mais demandado, em função de que existe um número maior de pessoas no mundo, incluídas atualmente no mercado de trabalho, e, por conseqüência, em condições de consumirem quanti-qualitativamente melhor.
A maioria desses novos consumidores é oriunda de países emergentes - com destaque para a China e a Índia. Somente a China está incluindo no seu mercado de trabalho, a cada ano, cerca de 35,0 milhões de pessoas. Países do Leste Europeu e da América Latina estão também se beneficiando deste atual momento.
Por outro lado, a área em produção de café no mundo, praticamente se estabilizou; os estoques são os menores dos últimos anos. Portanto o quadro atual nos leva a prever um cenário onde a oferta estará extremamente justa frente à demanda.
Voltando ao dólar: outros fatores estão contribuindo para que a valorização da moeda brasileira se acentue ainda mais. Um dos mais importantes refere-se ao desempenho das commodities exportadas pelo Brasil. O minério de ferro que respondeu por quase 7% das vendas externas brasileiras em 2007, quando o país exportou cerca de US$ 160,0 bilhões, teve recentemente um reajuste médio da ordem de 65% para o ano de 2008. Isso obviamente fará que um acúmulo de receita ingresse no Brasil. Com relação às commodities agrícolas, a soja, um dos principais itens da nossa pauta de exportação, teve um incremento de 17% do início do ano até o dia 22 de fevereiro de 2008.
Vale ressaltar que a nossa taxa de juros (a Selic) que se encontra hoje em 11,25% ao ano, apesar de ter sofrido uma redução sistemática durante os últimos anos, ainda é uma das maiores do mundo. Nos Estados unidos a taxa básica de juros se encontra num patamar de 3% ao ano, e na União Européia, em 4% ao ano. Muitos investidores estrangeiros estão aproveitando esse diferencial para auferir rendimentos vantajosos e por conseguinte ingressam com somas bastante representativas no país.
O Investimento Estrangeiro Direto - o IED -, que no ano de 2007 alcançou cerca de 35,0 bilhões de dólares, deverá ter um incremento em 2008, o que acabará contribuindo também para o fortalecimento do real.
Face à realidade do mercado e aos cenários previstos, os produtores de café deverão observar com muita atenção tudo aquilo que for relacionado aos seus custos de produção. Esses mesmos cafeicultores terão que procurar otimizar todos os seus recursos, e utilizá-los na sua plenitude, para obterem ganhos de produtividade.
O real na rota da valorização
Um número representativo de investidores internacionais, como fundos de pensões e outros fundos de investimentos, que possuem perfis menos agressivos, só são autorizados pelos seus cotistas a dirigirem as suas aplicações para países - ou empresas -, que possuem a classificação de grau de investimento (investment grade), e o Brasil está próximo disso, uma vez que trata-se de uma alternativa mais segura. Dificilmente um país que apresente números tão favoráveis com relação a sua economia, irá promover um calote na sua dívida. Por isso os produtores de café deverão ficar muito atentos para a possibilidade do real se valorizar ainda mais, o que seria extremamente desfavorável para as exportações do produto.
Publicado por: Jorge Queiroz
Publicado em: - 4 minutos de leitura
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Material escrito por:
Jorge Queiroz
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JOÃO CARLOS REMEDIO
SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 01/03/2008
O café vêm apresentando uma boa valorização em suas cotações em dólares. Pena que a nossa moeda é o real e quando se faz a conversão , o preço ainda está aquém do ideal.
Precisaríamos de uma disparada de preço na moeda estrangeira para se ter um preço mais próximo do ideal em reais. A situação da cafeicultura não é fácil. Para os não envolvidos parece que estamos no paraíso , mas para quem está vendendo seu produto em um dólar fragilizado e pagando suas contas em um dólar que parece ter ficado congelado desde 2002, sabe que a situação ainda está bastante apertada. Torceremos para um meio termo.
Precisaríamos de uma disparada de preço na moeda estrangeira para se ter um preço mais próximo do ideal em reais. A situação da cafeicultura não é fácil. Para os não envolvidos parece que estamos no paraíso , mas para quem está vendendo seu produto em um dólar fragilizado e pagando suas contas em um dólar que parece ter ficado congelado desde 2002, sabe que a situação ainda está bastante apertada. Torceremos para um meio termo.

ANTONIO AUGUSTO REIS
VARGINHA - MINAS GERAIS
EM 29/02/2008
Dr. Jorge Queiroz, concordo em gênero, nº e grau com o cenário apresentado por V.Sa.
Por outro lado, nas minhas poucas manifestações junto a esse espaço, tenho tentado mostrar que os produtores de café na sua grande maioria, não estão bem na sua atividade, hoje carregando um grande passivo, justamente em decorrência desta grande valorização do real frente ao dólar.
Quando vendíamos café a U$ 80,00 (oitenta dólares) há pouco tempo atrás, auferíamos mais renda do que hoje vendendo a quase U$ 200 (duzentos dólares).
Quando o Sr. fala que: "Face à realidade do mercado e aos cenários previstos, os produtores de café deverão observar com muita atenção tudo aquilo que for relacionado aos seus custos de produção. Esses mesmos cafeicultores terão que procurar otimizar todos os seus recursos, e utilizá-los na sua plenitude, para obterem ganhos de produtividade".
Fica uma grande interrogação para nós, porque já não estamos tendo mais onde otimizar custos e cada dia fica mais difícil adquirir os insumos devido ao alto custo dos mesmos. Esses últimos, fundamentais no aumento da produtividade.
Continuo batendo na tecla. Mecanismos tipo a PEPRO, desde que pagos com rapidez e não como está é que poderão dar sobrevida aos produtores. As nossas cooperativas aqui do sul de Minas, Varginha e Três Pontas, agora que passarão a receber o PEPRO dos café vendidos no início de setembro de 2007- está correto isto?
Não deveríamos nunca deixar o café chegar a valores muito altos em dólar. Caso contrário, o "mundo inteiro" sairá plantando café e daqui a 3 ou 4 anos nova crise de excesso de produção.
A incógnita da equação é produzir renda ao cafeicultor sem que contribua com o aceleramento da elevação do valor do café no mercado internacional.
Se hoje o Brasil tem uma cafeicultura empresarial forte e desenvolvida, e o nosso país encontra-se num bom caminho de sustentabilidade e rentabilidade, não deveríamos (todos do segmento café/governo) deixar enfraquecer esse segmento e sim fortalecê-lo, para continuar a manter nossa supremacia mundial e contribuir com a inibição de eventuais expansões do parque cafeeiro de outros países.
Por outro lado, nas minhas poucas manifestações junto a esse espaço, tenho tentado mostrar que os produtores de café na sua grande maioria, não estão bem na sua atividade, hoje carregando um grande passivo, justamente em decorrência desta grande valorização do real frente ao dólar.
Quando vendíamos café a U$ 80,00 (oitenta dólares) há pouco tempo atrás, auferíamos mais renda do que hoje vendendo a quase U$ 200 (duzentos dólares).
Quando o Sr. fala que: "Face à realidade do mercado e aos cenários previstos, os produtores de café deverão observar com muita atenção tudo aquilo que for relacionado aos seus custos de produção. Esses mesmos cafeicultores terão que procurar otimizar todos os seus recursos, e utilizá-los na sua plenitude, para obterem ganhos de produtividade".
Fica uma grande interrogação para nós, porque já não estamos tendo mais onde otimizar custos e cada dia fica mais difícil adquirir os insumos devido ao alto custo dos mesmos. Esses últimos, fundamentais no aumento da produtividade.
Continuo batendo na tecla. Mecanismos tipo a PEPRO, desde que pagos com rapidez e não como está é que poderão dar sobrevida aos produtores. As nossas cooperativas aqui do sul de Minas, Varginha e Três Pontas, agora que passarão a receber o PEPRO dos café vendidos no início de setembro de 2007- está correto isto?
Não deveríamos nunca deixar o café chegar a valores muito altos em dólar. Caso contrário, o "mundo inteiro" sairá plantando café e daqui a 3 ou 4 anos nova crise de excesso de produção.
A incógnita da equação é produzir renda ao cafeicultor sem que contribua com o aceleramento da elevação do valor do café no mercado internacional.
Se hoje o Brasil tem uma cafeicultura empresarial forte e desenvolvida, e o nosso país encontra-se num bom caminho de sustentabilidade e rentabilidade, não deveríamos (todos do segmento café/governo) deixar enfraquecer esse segmento e sim fortalecê-lo, para continuar a manter nossa supremacia mundial e contribuir com a inibição de eventuais expansões do parque cafeeiro de outros países.